Barata Cichetto: Poeta, Escritor, Webdesigner, Editor
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segunda-feira, janeiro 30, 2012

Um Outro Aspecto da Questão MP3

Luiz Carlos "Barata" Cichetto



Em um outro texto, comentei sobre os aspectos inerentes a "download", MP3, pirataria e aspectos similares. Claro que tal assunto é extremamente complexo e tenho até a obrigação de buscar a análise, intentando que um dia cheguemos a alguma conclusão lógica, racional. Não defendo nenhum dado em prol das corporações, das gravadoras, editoras e industria cinematográfica. E neste artigo em particular, também deixo de lado os artistas milionários, detentores de 40 carros e cinco mansões em Holywood, pois quando chega a tal patamar, um artista deixou de sê-lo há muito tempo. Existe um limite entre a recompensa pela arte e ficar milionário vendendo arte, e esse limite é a diferença entre a sobrevivência e a ganância.

É necessário que eu faça um retrospecto pessoal para fique bem claro que não estou aqui escrevendo embasado em cima de elucubrações teóricas e textos mal informados e distorcidos postados em redes sociais e "enciclopédias abertas". Comecei a escrever ainda na pré-adolescência, no principio dos anos 1970. Desde então, embora muita coisa tenha se perdido, sobraram ai meio milhar de poemas e uns dois ou três milhares de crônicas e ensaios. Conheci Internet em 1995, quando era ainda restrita aos ambientes universitários. Sequer um provedor particular existia. Fui um dos primeiros clientes do UOL, o primeiro do Brasil (a Mandic era apenas uma BBS), no final de 1996. Em principio de 97 criei um site, hospedado em um dos únicos hospedeiros gratuitos. O piloto do que veio a ser, um ano depois A Barata, que até hoje (mas não sei até quando) está no ar. E esse site fez escola, posso afirmar sem receio de parecer prepotente. Muitas cópias e "inspirações". A maior parte não durou muito, outros mudaram de tendência e enfoque, "acompanhando os tempos". Em A Barata, surgiram inúmeros projetos, sempre criados por mim, como o de publicar indistintamente textos de todos que enviavam. Nessa mesma época, no ultimo ano do milênio passado (aff, quanto tempo...) desenvolvi a idéia de criar sites para bandas e colocar dentro de A Barata. Ah, sim... Isso foi bem antes de a Microsoft criar o My Space. Muitas, mas muitas mesmo, bandas tiveram seus sites ali, criados e hospedados por mim, gratuitamente na maior parte. Nos primeiros anos do milênio, passei a organizar eventos culturais que juntavam Rock, poesia e outras formas de arte. E conseguia arrastar muita gente a eles. As pessoas apareciam, compravam livros, camisetas, discos. Juntávamo-nos e bebíamos e falávamos. Lancei a Revist'A Barata também nessa época. E assim eu conseguia ao menos (e apenas) pagar a hospedagem. As pessoas interagiam com as ProvocaAções Baratas, compareciam pessoalmente e até reconheciam o papel desempenhado. E embora eu nunca tenha ganho realmente nenhum dinheiro, eram o ganho cultural e a sensação de estar cumprindo meu papel, o meu lucro.

Mas, com o surgimento dos Blogs e a popularização do MP3 e do My Space, as coisas foram mudando... Os blogs eram gratuitos e, mais que isso eram individuais. Era em principio uma ótima forma de jornalistas, poetas, escritores e demais artistas terem uma forma de exposição e principalmente sem depender de ninguém... E o que era melhor, totalmente gratuita. E foi ai que inaugurou-se uma nova era das artes e comunicações, pois com a facilidade de acesso e uso desses blogs as coisas começaram a ser niveladas por baixo. Muita gente sem a menor cultura, sem a menor capacidade de escrever sequer uma receita de bolo passou a se considerar, poeta, escritor, jornalista... Artista... E o que foi pior ainda, foi que esses blogs, juntamente com a popularização do MP3, criaram a cultura do "Tudo Grátis".  Criaram a cultura “Faça Você Mesmo Que Não Saiba Merda Alguma” e o resultado disso: uma horizontalização onde em uma ponta estavam os mesmos de sempre, grandes corporações manipulando a cultura pré-concebida, e na outra todos os outros, misturando os que tinham com os que não tinham qualquer mínima capacidade em produzir algo com o mínimo de qualidade. Um celeiro onde ficou mais difícil separar o trigo do joio. Um palheiro onde tinha mais agulhas que palha.

(Antes de continuar, não quero agora parecer que estou mudando de opinião com relação ao que escrevi anteriormente, pois não sou contra o compartilhamento gratuito de informações e cultura, apenas neste texto procuro coloco uma outra abordagem sobre o assunto.)

E essa cultura passou a prevalecer sobre qualquer outra, justa ou injusta, moral ou imoral, legal ou ilegal. E as pessoas passaram a baixar qualquer coisa, quilos e quilos de musicas que nunca escutaram, quilos e quilos de livros que nunca leram e etc. Uma das primeiras edições online da Revist'A Barata teve quase 100.000 downloads... E dois (isso, apenas dois) comentários sobre o conteúdo. Quando as coisas são gratuitas, todos querem, mas não pelo que ela é, boa ou ruim, interessante ou não, certa ou errada... Querem... Apenas porque é gratuita.  E tomem então milhares de quilobytes de download sem nenhuma utilidade. E é este o ponto onde quero chegar: É ótimo compartilhar cultura quando este compartilhamento tem algum propósito, senão o de fazer vendedores de HD mais ricos, com tanto espaço que nunca será aproveitado. E as pessoas passaram a baixar tudo que aparecia pela frente, numa competição vaidosa com os amigos sobre a quantidade de gigabytes baixados. Escutar essas musicas? Ler esses livros? Assistir esses filmes? Não ninguém tinha tempo pra isso, pois o tempo era utilizado para baixar mais filmes, livros, musicas...

Os próprios blogs de download, alguns ao menos, se ressentiam da falta ao menos de um comentário de quem baixava algo ali gratuitamente... Mas também não dava tempo. E essa cultura do "Tudo Grátis" começou a minar a industria  e o comercio da arte... E principalmente a desanimar os artistas... A idéia de que o download gratuito seria bom para um artista ficar conhecido foi também desmascarada.

Mas de fato o que ocorre é a chamada briga de cachorro grande, pois se de um lado perde muito dinheiro a industria e o comércio de cultura, ganha muito dinheiro as empresas ligadas à informática, como a Google, dona do mais popular sistema de blogs. E ai entra também a mesma questão colocada no outro artigo: de que forma ganham dinheiro com blogs? (desculpem a ignorância, é apenas uma pergunta). Ganha muito também a industria eletrônica, criando aparelhos cada vez mais simples, baratos e populares usando da tecnologia do MPEG Layer 3. Atualmente até geladeira é vendida com função para escutar musica usando tal tecnologia. E nessa briga quem ganha eu não sei. Mas tenho uma parca impressão sobre quem perde.

E finalizando mais um capitulo em busca de um debate sobre essa questão, coloco apenas uma informação: tecnicamente, baseada nos padrões de compressão de áudio usados no MP3, o que escutamos é apenas em torno de 10 a no máximo 20 por cento do áudio original. Em palavras mais simples: a qualidade musical vai pras picas. Mas acham que quem quer apenas pegar qualquer coisa que seja de graça está mesmo preocupado com isso?   

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