Barata Cichetto: Poeta, Escritor, Webdesigner, Editor
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terça-feira, março 06, 2012

Cohena Vive!


Cohena Vive!
Luiz Carlos Barata Cichetto

Daqui a pouco irá amanhecer. São quatro e meia da manhã, e daqui a pouco... "Cohena é um ser humano", disseram em meu sonho. "Não jogue terra sobre ele!" Cohena? Sim, sou eu! Cohena. Nome estranho, personagem estranho até mesmo para um sonho... Mas os sonhos têm licença poética, diriam os poetas... Aqueles que também não dormem ás quatro e meia da manhã.

Daqui a pouco minha mulher estará acordando e eu farei o café para ela, lhe darei um beijo e ela irá trabalhar, contente por ajudar o marido fracassado em manter o aluguel do porão que chamamos de lar. E eu estarei deitado, cansado depois de uma noite de pesadelos e poesias. "Não joguem terra sobre Cohena, ele ainda respira!", diria a personagem de meu pesadelo á outra, enquanto eu escorregaria por uma montanha de terra e entulhos. Falta o ar. São quatro e meia, quase cinco da manhã e Cohena não dorme. Aperta as teclas e parece querer esmagar a todas feito batatas cozidas... Quase cinco... O cursor piscando, piscando, piscando... E Cohena não consegue dormir.  “Deixem Cohena dormir...!” 

Bem que eu poderia ler um livro de poemas ou assistir um filme pornô. Não! Fotos eróticas? Também não... Ou melhor, talvez seja interessante, sim. Fotos eróticas de mulheres sem pelos pubianos, bicos pequenos e duros.. bundas... Bundas! Cohena gosta de bundas, não joguem terra sobre Cohena.

São cinco, mais de cinco horas da manhã agora e as fotos ficam desbotadas aos olhos cansados de Cohena. As fotos, as mulheres, os peitinhos... Desbotados e cansados feito os sonhos de Cohena, aquele que ainda vive.

Queria calçar minhas botas, fechar o cinto das calças e ir até um bar e encher a cara de cerveja. Mas odeio bares, musica popular melosa e bêbados de fala pastosa. Odeio coisas grudentas e pastosas. Odeio donos de bares e odeio a sensação horrorosa da bebida, o torpor estúpido e a falta de controle sobre mim mesmo, sobre minha mente... Odeio! Não gosto de bares cheios de putas prontas a roubar meu dinheiro, fedendo a urina e formol. Odeio putas que jogam bilhar e mascam chicletes ao mesmo tempo em que bebem cerveja. Odeio bêbados pastosos, bares sebosos, putas melosas e bebidas sem rima. E também não tenho nenhuma garrafa de bebida em casa, apenas café. Café e cigarros. Cafeína e nicotina são minhas drogas... Não joguem terra sobre Cohena, deixem que ele morra dentro de meus sonhos, dentro de meus pesadelos, deixem que ele morra!

Mais de cinco... Cinco e vinte... E o tempo... Esse carrasco maldito que cavou sulcos em minha face, que tingiu de branco meus cabelos, que transformou minha pele numa coisa quebradiça e flácida. Maldito carrasco que não espera o amanhã chegar, que transforma o hoje em ontem, o segundo anterior em apenas lembranças... "Daqui a pouco irá amanhecer", assim começou esse texto, mas isso já é passado, porque o tempo não espera que eu termine agora, apenas depois. E depois, quando terminar não será depois, será o agora... Depois...

Depois... "Deixem Cohena em paz!" Pesadelos são fracassos que tomam forma, desejos que tomam nossas mentes enquanto dormimos... E de fracassos e desejos, de desejos fracassados somamos noites e noites sem dormir direito. Quatro e meia da manhã era, agora são quase cinco e meia e nem sei quanto demora ainda a amanhecer e os trabalhadores sairem em direção a estação de trem, chacoalhando suas existências miseráveis em busca de um amanhã que no fim nunca terão. No fim da linha do trem apenas a morte, nada mais.

Os trabalhadores que chacoalham no trem a caminho de um trabalho miserável, também sonham que são Cohena? Cohena habita também os pesadelos dos trabalhadores? Ou apenas dos idiotas poetas insones e insanos? Cohena vive dentro deles?

Amanhece, amanhece... Quero a manhã, o amanhã... Enquanto os ponteiros do relógio esmagam minha cabeça e eu as teclas do computador, minha mulher dorme, linda, tranquila... Estaria ela também sonhando que é Cohena? Não atirem pedras em Cohena, não atirem terra sobre ela. Ela é tão doce, ela é tão meiga e tão sensual que nem acredito que está ali, deitada em minha cama enquanto eu permaneço acordado numa noite que deveria estar dormindo abraçado à sua nudez. Sua mudez é linda e sua beleza é muda. “Cohena está vivo!”, picharam no muro dos meus pesadelos. E “Cohena é Deus”, em outra parede descascada e desbotada.

Eram quatro e meia da manhã... Mas agora é bem mais. E o sol empurra a janela e entra, machucando e queimando meus olhos acostumados à escuridão desse porão que chamamos de lar, enquanto minha mulher ainda dorme, nua feito a Lua. Não sou mais só, não estou mais só. Cohena?  O Sol conhece Cohena? Seria Cohena o Sol?

Mas Cohena é apenas um pesadelo e minha mulher acorda e sai para trabalho, enquanto eu deito e tenho pesadelos em que sou Cohena, apenas um poeta, um escritor que não consegue dormir nem as quatro meia da manhã, enquanto trabalhadores se preparam para acordar e ir ao trabalho, sustentando seus lares, pagando o aluguel de porões que chamam de lares.

Mas eu, eu sou Cohena, aquele que ainda respira deslizando em um monte de terra e entulho enquanto as mulheres sujas e desgrenhadas gritam de dentro de um carro amassado: “Cohena Vive! Não joguem terra sobre ele. Cohena é um ser humano!”

6/3/2012


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