Barata Cichetto: Poeta, Escritor, Webdesigner, Editor
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terça-feira, setembro 25, 2012

A História do Incrível Tom Vermelho e Seu Incrível Gato Matapum


A História do Incrível Tom Vermelho e Seu Incrível Gato Matapum
Luiz Carlos Barata Cichetto
Arte. Barata Cichetto, Sobre Desenhos Infantis Para Colorir.

A ultima noite, outra daquelas longas, em que poucos minutos de sono são entrecortados por despertares que parecem durar uma eternidade, um sonho em pedaços. Um pesadelo em partes recortadas. Minhas gatas correndo sobre a cama, minha mulher dormindo agitada e eu e meu pesadelo. Todos juntos, ali naquela mesma cama numa noite gelada.

O sonho: escritor reconhecido, eu tinha escrito um livro infantil "A História do Incrível Tom Vermelho e Seu Incrível Gato Matapum" e em uma tarde de autógrafos, enquanto bexigas coloridas explodiam sobre minha cabeça esparramando cuspe, eu rabiscava palavras nas páginas de rosto dos exemplares dos livros empilhados ao lado de uma mesa cujos pés eram livros velhos em algumas cenas, e mulheres nuas em outras. 

Eu era famoso com a minha história infantil e muitas crianças ao redor de mim, babosas e chorosas, remelentas e grudentas. Casais chegavam carregando suas crianças de corpos de plástico inflados de biguiméqui e cabeças cheias de cocacola sem gás e fanta gelada. Chatas!

Desde que meus filhos cresceram e deixaram de achar que era um bom contador de histórias, eu não tenho mais paciência com crianças, nem em escrever histórias. Então porque diabos eu decidira escrever um livro infantil? 

Perguntava isso a mim mesmo no momento em que percebi que uma das mães, uma mulher bela, magra e de cabelos vermelhos, segurando duas meninas bochechudas e ranhetas, me olhava de um jeito diferente, enquanto o marido gordo e suarento engolia de uma bocada só um pacote de bolachas. 

Minha esposa, ao lado distribuía sorrisos aos netos e aos filhos dos outros e aquela mulher distribuía seu sorriso apenas a mim, indiferente aos pedidos de macdonaldis das crianças e das bolachas do obeso. Nas mãos um par dos meus famosos livros infantis e no olhar uma expressão que eu não conseguia entender. Curiosidade? Desejo? Admiração? As três coisas? Nenhuma delas? Não, tinha algum significado aquela expressão, mas eu não conseguia entender.

Acordei com o olhar fixo daquela mulher nos meus olhos. 

Tornei a dormir. Tornei a sonhar.

A mulher agora não segurava os filhos pelas mãos, mas tinha em cada uma delas um exemplar de "A História do Incrível Tom Vermelho e Seu Incrível Gato Matapum". Seus cabelos tinham mudado de cor, do vermelho ao negro e ela estava completamente nua. Pelada no meio dos livros e ninguém parecia notar. O gordo-bolacha agora era um magrelo-com-cara-de-rato e brincava em um canto com as meninas bochechudas. Minha mulher continuava ali ao lado distribuindo sorrisos às crianças e contando-lhes passagens da minha história infantil. “O Incrível Tom Vermelho e Seu Incrível Gato Matapum” era, enfim, um sucesso. 

A ex-mãe e atual pelada agora sorria com os seios e balançava os quadris ao sorrir. Os cabelos lhe caiam pelos ombros e de repente ela tinha um par de gatos, as minhas gatas, sobre eles. Elas miavam e a mulher também. Elas ronronavam e ela também. As três arreganhando os dentes, não ao luar, mas à lâmpada fluorescente da livraria. 

O que faria Tom Vermelho, o personagem principal do meu livro, naquela situação? Mas ele não saberia mesmo o que fazer, pois ele era apenas um astronauta, e astronautas de histórias infantis são sempre tolos e ingênuos. São sempre coloridos, bondosos e heróicos. Não, Tom Vermelho não saberia o que fazer. E muito menos o Gato Matapum. Este então, era apenas um gato que tinha esse nome porque adorava pular sobre a bunda de Tom Vermelho quando este, deitado, soltava peidos estelares. E era como bem convém em uma história infantil, um gato mágico, com poderes sobrenaturais dados por um feiticeiro bondoso. 

Nenhum dos dois personagens poderiam me ajudar sobre o que fazer com aquela mulher e acordei sobressaltado novamente. Fui ao banheiro, urinei e abracei minha mulher que nem poderia supor que eu, naqueles sonhos, estava sendo cortejado por uma mulher nua que tinha em seus ombros as minhas gatas. Aliás, uma delas agora pulara sobre minha cabeça e assim tornei a adormecer. 

E lá estava eu novamente, mas o lugar agora não era uma livraria, mas a minha casa, embora a mobília e os cômodos não fossem o que eram de fato. Eu sabia que ali era a minha casa. E que aquela mulher não era mais uma estranha, mas era ao mesmo tempo a minha mulher. Ao meu lado, em pé, Tom Vermelho em seu uniforme espacial rubro sorria para mim e o Incrível Gato Matapum, enrolado sobre sua cabeça tinha um olhar enigmático, deitando a cabeça de lado, sem tirar aqueles olhos enormes de mim. A mulher se debatia e escorregava em minha direção, olhos pregados em mim e eu não sabia ainda o que fazer. Estava nu agora e sentia muito frio. 

Acordei gelado, pelado e descoberto. Ao lado, minha mulher murmurava algo dormindo e pensei e acordá-la, mas desisti. Pensei em me masturbar pensando naquela mulher do sonho, mas também desisti. Pensei em levantar e fumar um cigarro, mas queria dormir novamente e voltar aquele sonho. Queria saber seu final. O que eu faria com aquela mulher? Faria sexo com ela? O que aconteceria com Tom Vermelho e seu Incrível Gato Matapum do meu famoso livro infantil? 

Sentei na cama e acendi um cigarro. Dormi sentado e tornei a sonhar. Aquele mesmo sonho, a mesma mulher e todos os outros mesmos personagens, os do meu livro e os do meu sonho. Estavam todos ali agora, juntos. Mas naquele momento o Incrível Tom Vermelho era eu e o Incrível Gato Matapum era uma única mulher, ao mesmo tempo a estranha e a minha. 

Éramos agora apenas dois personagens dentro de um sonho e não havia mais os livros, nem os autógrafos, nem as livrarias. Os gordos-bolacha, os magrelos-com-cara-de-rato e as crianças ranhetas tinham desaparecido. Nada mais. Apenas eu, o Incrível Tom Vermelho e Seu Incrível Gato Matapum  e a Mulher, numa história sem fim, sonhada e acordada, acordada e sonhada. 

Não existia nenhum gato, nenhum astronauta de uniforme, nenhuma mãe carente e desejosa. Apenas nós, homem e mulher, dentro de um sonho. E Tom não era mais vermelho, o Gato não era mais um gato, e ninguém era Incrível. E ficamos ali, dentro daquele sonho, sozinhos e abraçados, nus e sorridentes, como que posando para uma fotografia estampada nas nuvens. 

Nunca mais acordei!

E assim termina a "A História do Incrível Tom Vermelho e Seu Incrível Gato Matapum".

Nunca mais escrevo histórias infantis!

Nem sonho!

Ou acordo!


24/09/2012

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