Barata Cichetto: Poeta, Escritor, Webdesigner, Editor
Todos os Textos Publicados Têm Direitos Autorais Registrados no E.D.A.
Reprodução Proibida!

terça-feira, setembro 18, 2012

A Senha


A Senha
Luiz Carlos Barata Cichetto
Foto: http://www.zawaj.com/askbilqis/placing-hand-on-quran-for-not-smoking-again/
"Certa palavra dorme na sombra / de um livro raro. / Como desencantá-la? / É a senha da vida / A senha do mundo." - Carlos Drummond de Andrade, citado por Joanna Franko

Acendo um cigarro, o pensamento misturado à fumaça. Nem sei a diferença entre a fumaça e meu pensamento. Alguém bate a minha porta. Por que, sempre que estou querendo pensar alguém bate a minha porta? Ninguém consegue pensar com batidas na porta... Quem ousa atrapalhar o meu pensar e o meu fumar? “Seria o corvo de Poe?”, penso em meio a uma gargalhada nervosa. Seria um cobrador ou alguém simplesmente perdido querendo encontrar seu caminho? Cobradores telefonam e ninguém perdido bateria em minha porta. Seria uma drogada qualquer, uma ex mulher, ou um filho que não lembra mais meu endereço? Enfim, quem seria o ser que ousa perturbar meu sossego? Esqueci das contas, das dívidas e dos desejos e nessa hora queria apenas fumar e pensar. Decido permanecer ali, quieto, esperando que o visitante inesperado e não convidado se vá. Desapareça no ar feito a fumaça do meu cigarro. Ah, as portas... Nunca gostei de portas, nem de fechaduras ou de trancas ou de dobradiças. São monstros que fecham, que isolam, que impedem. Mas agora me sinto confortável atrás da minha, com meu visitante chato que insiste em bater. Fico quieto, em silêncio total, apenas com o som da respiração, soltando a fumaça do cigarro. Paro de pensar, pensamentos são barulhentos. Quem sabe ele, ou ela, desiste. Não quero saber de visitas, gente me incomoda com sua conversa importante, seus problemas e seus vícios e seus amores ganhos ou perdidos. Não me interesso mais por amores alheios, nem pelos meus. Penso em gritar para que aquele inconveniente se vá, desapareça, suma na imensidão da noite, mas não consigo. Ah, se não fosse o conforto e a segurança daquela porta eu estaria perdido. Ainda bem que lembrei de fechar aquela porta. Nunca fecho. Tenho facilidade em abrir portas, mas uma dificuldade imensa de fechá-las. E é assim o que ocorre com as portas para dentro de mim. Destranquei um monte delas nos últimos tempos. A chave era a dor e não o amor. O amor sempre me fechou todas as portas, ao contrário da dor. Amores podem ser boas chaves para abrir portas externas, mas às internas apenas a dor tem o segredo. E contemplei tudo o que existia por trás delas. Encantei-me e decidi ficar por ali, extasiado com as cores das paredes, com os quadros e com as marcas. Arte, paixão e dor, histórias infinitas. Não consigo e nem quero sair. Quero ficar e contemplar para sempre o que existe atrás daquelas portas. Não consigo trancá-las por dentro e então alguém pode querer entrar, da mesma forma que esse alguém que agora bate e insiste que eu lhe abra. Talvez seja minha mulher, com sacolas de mercado nos braços, cheias de sonhos domésticos e uma infinidade de coisas que não me causam prazer... Nem dor. É, é provável que seja ela e, portanto eu tenho que abrir. Mas não quero. Quero ficar aqui, sentado, olhando a fumaça do meu cigarro desaparecendo no ar feito eu mesmo. Sou fumaça? Cigarro queimando nos meus lábios enquanto meu pensamento arromba as portas da percepção para dentro um universo desconhecido dentro de mim mesmo? Na infância minha mãe falava que em tal deus sempre batia a nossa porta e era preciso deixá-lo entrar. Mas também foi ela quem me ensinou a não abrir a porta para estranhos desconhecidos. Poderia ser esse tal? Esse não é, com certeza, porque a mim não é nem estranho nem desconhecido. Simplesmente não é! Penso em levantar, abrir a porta e dizer àquele que bate, que não perturbe o meu pensar, que não incomode o meu fumar. Mas a nuvem de fumaça do cigarro ou da minha confusão mental me cega e não consigo chegar. “Qual é a senha?”, penso em perguntar. A senha é "dor". È sempre a mesma senha, é sempre a mesma dor. E a única senha que abre as minhas portas agora. Sinto-me fraco, cansado e com uma sensação de inexistência, mas com esforço levanto, vou até a porta e a abro. 

Lá fora apenas a escuridão da noite e nada mais.

18/09/2012

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Respeite o Direito do Autor e Não Esqueça de Deixar um Comentário. É Importante o Retorno, o Sentimento do Leitor.