Barata Cichetto: Poeta, Escritor, Webdesigner, Editor
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sexta-feira, setembro 07, 2012

Divagações de Um Burro Sobre a Independência do Brasil

Divagações de Um Burro Sobre a Independência do Brasil
Luiz Carlos Barata Cichetto
O titulo desta imagem deveria ser: "Vergonha Brasileira" ou "Vergonha de Ser Brasileiro"


Sim, sou um Burro. Também conhecido por "Asno" embora meu nome  original seja um tanto pomposo: “Equus Africanus Asinus”. Também chamado de "Jumento", "Jegue", "Jerico” e outros nomes que o Bicho-Homem sempre associa com a falta de inteligência e de capacidade mental.

Sou um mamífero que caminha sobre quatro patas, tenho focinho e orelhas compridas e sou utilizado desde tempos pré-históricos como animal de carga e montaria. Minha mãe é a “Mula” e meu pai o “Cavalo”, coisa que tem gerado por todas as minhas gerações, um crítico problema de identidade.

Mas sou um Burro e tenho servido ao Bicho-Homem, carregando suas tralhas e seu peso por caminhos e trilhas que a linhagem de meu pai não seria capaz. Sou forte, sou rijo e sou, conforme algumas definições, teimoso. E sou teimoso porque não me detenho por nenhum obstáculo, determinado a cumprir minha missão.

O Bicho-Homem, em determinados países, chama seus dicionários como "Pai dos Burros", porque sem mim estariam iletrados, mas conforme falam, meu pai é um Cavalo, portanto, nem sequer aí é dado justiça a mim.

Ao Bicho-Homem chamar com meu nome a alguém é uma ofensa mortal, pois o estaria associando a um indivíduo pouco inteligente, estúpido, teimoso, ignorante, com pouco entendimento, “sem conhecimento geral nem criatividade”. Coisa que decerto não sou, pois se, como admiti anteriormente, sou teimoso por natureza, essa teimosia é por minha determinação e força em vencer obstáculos, não em insistir em coisas que não são de meu conhecimento, ou em atos contra minha própria natureza.

Até mesmo a História do Brasil me defenestrou, me humilhou e colocou em meu lugar a carregar nos ombros o "libertador", a figura do meu pai, que de fato não teria capacidade nem resistência para subir uma Serra carregando um Bicho-Homem, mesmo sendo ele o filho querido de um Rei. Ainda mais que aquele era um tanto bem alimentado e prepotente. E prepotência pesa muito sobre os ombros de um Burro...

Esqueceram de mim na história. E olhem que eu ainda fiquei ali, ao lado dele, enquanto ele cobria uma de suas fêmeas antes da jornada, e também fiquei ali ao seu lado enquanto ele soltava seu estrume bem próximo às margens plácidas de um regato.

Poderia eu sentir-me honrado em ter transportado em meu lombo a bagagem e a bunda Real do Imperador Dom Pedrinho em suas jornadas em busca de foder as não tão nobres bucetas de suas concubinas, que acredito eu, o Burro, eram extremamente importantes à nação. Mas meu orgulho em carregar tão nobre carga não foi aceito nem entendido pelo artista da Corte, que ao copiar um quadro francês com intenção de retratar o heróico momento da Independência, esqueceu que eu também tinha importância na história e deixou de lado a minha figura.

Acho, por fim, que sempre fui muito importante à história do Brasil e tive papel importante em inúmeras de suas “guerras”, principalmente naquela que foi essencial à libertação do Brasil das mãos daqueles que hoje, à nível de troça, eles também chamam por meu nome. Uma guerra travada dentro de palacetes e casas de damas, e que foi ganha apenas por aquele príncipe garanhão, feito meu pai, que decididamente e indefinidamente transformou o Brasil numa pátria não de burros, que isso não sou, mas de idiotas, covardes e inúteis, que acreditam que tirar o Burro do quadro e colocar o Cavalo irá mudar sua história... E seu destino.

Eu não sou Burro!

Outras Reflexões do Burro:

Não sou desprovido de inteligência, apenas não tenho "consciência de espécie". Acaso a tivesse, acaso tivesse eu noção da minha força, decerto não admitiria a dominação por uma espécie fraca quanto a do Bicho-Homem.

Nasci no Brasil e portanto sou definido como "brasileiro", mas nenhum orgulho tenho disso. Aliás, o que sinto é uma imensa vergonha.

Não sei escrever, nem ler. E se soubesse eu deixaria de ser Burro? Decerto que não, pois a "burrice" - olhem que absurdo, criarem um substantivo feminino associado a mim -, não é extinta apenas pelas letras, mas pelo acumulo de experiências culturais, pessoais e sociais.

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A maior parte dos países do planeta tiveram suas independências conquistadas depois de guerras sangrentas, sangue de irmãos... Mas a do Brasil depois de uma trepada e uma cagada às margens plácidas de um rio, declarada por um príncipe playboy... E querem que as coisas sejam diferentes por aqui! Pensem nisso!

Seria a Marchinha "Dom Pedrito", gravada em 1949, composta por Djalma Esteves  e Célio Monteiro e gravada pelos Trigêmios Vocalistas, no mesmo ano, uma critica à "nossa" independência???

"Lá vem o Dom Pedrito,
Montado num burrico,
Cantarolando voi,
No rancho há muito vinho,
Há doce e salgadinho,
E a Chica se casou. (...)
Arte-Montagem Por Barata Cichetto

4 comentários:

  1. Não por acaso, o apelido-nome de guerra de um popular ex-presidente nosso, rima com o da mãe do nosso simpático (e injustiçado!) burrico. Sofremos e sofreremos as consequências da "inteligentice" do sindicalista.

    Mas, cabe lembrar que o nosso bravo jerico foi merecidamente homenageado por Luiz Gonzaga, que lhe deu todas as honras, entre elas, a de que o jumento é nosso irmão-ão-ão-ão...

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    1. Bem lembrado, meu amigo. Luiz Gonzaga, foi poderia estar em duas das minhas listas, a de subestimado e superestimado. Subestimado, primeiro quando sua boa obra, como uma das musicas "de protesto" mais contundentes que já foram feitas "Vozes da Seca", é praticamente desconhecida. E Superestimado por ter ficado conhecido pela maioria como brega, autor de musicas de gosto duvidoso. Luiz Gonzaga é um ótimo exemplo sobre essa questão. No mais, pegando o gancho de outra postagem, "Pena não ser burro, não sofria tanto", frase de Raul Seixas... Tudo se converge, meu amigo Genecy, no país da "burrice" premiada. Obrigado pelos comentários.

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  2. Essa frase do Raul grudou no meu subconsciente para nunca mais sair. O efeito é certeiro. E isso de certa forma tem a ver com a índole acomodada do brasileiro, que sofre, reclama, e depois resolve tudo no carnaval.

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    1. Sim, Genecy! E ela foi um dos motes do texto Reflexões de Um Burro Sobre a Independencia do Brasil... Muitas das frases de Raul Seixas ficaram impregnadas na mente da gente, sim!

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