Barata Cichetto: Poeta, Escritor, Webdesigner, Editor
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sexta-feira, outubro 26, 2012

Cavalos Não Fazem Revoluções


Cavalos Não Fazem Revoluções
Luiz Carlos Barata Cichetto
"Existem apenas duas classes sociais, a dos que não comem e a dos que não dormem com medo da revolução dos que não comem." - Milton Santos. 

A frase acima, que brotou na minha cabeça com o primeiro lampejo da manhã, provocou uma torrente de lava. Uma quente torrente de pensamentos, alguns confusos pela profundidade da mesma, outros claros pelo mesmo motivo. 

Infelizmente não descobri as circunstâncias e quando frase foi dita ou escrita, o que seria de fundamental importância para sua total compreensão. Mas, separemo-la do tempo, isolando-a no contexto e época atuais, pois se a analisarmos dentro do contexto anos 60 ou 70, ela teria diretamente uma relação com a época da Ditadura Militar, e daquela crença dos "guerrilheiros" de que as massas um dia se levantariam contra a tirania militar, o que aliás nunca aconteceu. Mas analisando pelo ponto de vista atemporal, deslocada em qualquer tempo, e trazendo-a para os dias correntes e a luz dos acontecimentos que nos cercam neste principio de segunda década do terceiro milênio, seu significado muda completamente. Entretanto, os contextos históricos não podem e não devem ser desprezados quando se trata de uma declaração de alguém que foi atemporal e proprietário de uma cultura com poucos similares nestas terras. 

Frases como esta são reprisadas e exibidas em redes sociais com alarde por aqueles que se consideram revolucionários, sem, no entanto pararem e pensarem em seu significado real, sobre o que ela representa na prática ou na história. E se hoje, vivemos um caos, principalmente nas grandes cidades, com organizações criminosas disputando o poder a tapas e a balas podemos dizer que a frase de Milton está correta? Sim e não!

Se pensarmos na população concentrada nas periferias das grandes cidades, abandonada em barracos sem infraestrutura, ganhando salários miseráveis quando muito, vivendo em péssimas condições de sobrevivência como os "que não comem", sim, a frase estaria correta. Desamparadas pelo Estado, usadas como massa de manobra por políticos e humilhados de todas as formas, estas pessoas se bandearam para o lado que lhes era mais próximo e que lhes dava abrigo e segurança: o lado do chamado crime organizado, e se são estas pessoas, que ameaçam "o que não dormem", que seria na concepção do conceito imposto na frase do geógrafo brasileiro, os "poderosos".

Mas a resposta seria não se pensarmos que isso não se trata de nenhum tipo de revolução, mas sim de uma guerra pela sobrevivência, nunca uma revolução. Uma revolução é pautada por ideais e objetivos claros e comuns, é embasada e sustentada por uma causa comum, clara e definida. Seria o descaso do Estado com essas pessoas a causa determinante? Isoladamente sim, mas no geral não se trata de uma "causa", mas de uma desculpa. Em outras palavras, a revolução é comunitária, mas a guerra é individual. E o que temos são apenas guerras individuais travadas por vezes em grupos, sem objetivos claros, sem ideais e que causam apenas uma autêntica barbárie social, visto que entre essas duas classes a que se referem Milton Santos existe uma terceira, que no fim é quem paga a conta, ou seja, a que realmente não dorme, com medo das outras duas.

Essa bipolaridade de Milton, a parte toda sua vivência e cultura, me parece um tanto simplista se entendida literalmente, sem o contexto exato em que foi proferida. Mas como foi ela a base desta análise, continuo a analisá-la isoladamente, posicionando-a no atual cenário brasileiro.

Então pensemos: quem são "os que não dormem"? Num entendimento imediato e simples, seriam os milionários e os políticos, os poderosos que comandam o mundo. E será que eles realmente não dormem com medo dos "que não comem"?  Não creio, pois têm de muito a certeza de que todo o aparato de segurança os protegem. E quando falo em aparato, não me refiro apenas ao mais aparente, como forças militares e policiais, mas também aos aparatos muito mais eficazes e eficientes da propaganda, das mídias, que os protegem com uma invisível barreira. As ilusões são transformadas em realidade, empacotadas em belos embrulhos e entregues "aos que não comem" sob a forma de leis protecionistas, segregacionistas, e privilégios. Puras ilusões.

E a ilustração disso seria aquela de se pendurar uma cenoura na frente de um cavalo deixando que ele a persiga o dia inteiro sem nunca alcançar. A busca dessa "cenoura" é o maior fator de proteção. E assim "os que não comem" têm a ilusão de que um dia comerão e passam a defender aqueles que, diariamente colocam aquela cenoura na sua frente. A guerra é declarada não contra aqueles, mas contra outros cavalos para que mais dessa cenoura imaginária lhes pertença. E isto é uma guerra, nunca uma revolução.

Mas o terceiro ponto desse triangulo, que a frase de Milton Santos despreza, não é nem o dos cavalos que não comeriam, nem a dos fazendeiros fornecedores de cenouras imaginárias que não dormiriam, mas o daqueles que projetam e constroem celeiros,  aram a terra e plantam e colhem a cenoura. Enfim, daqueles que realmente produzem com o suor de seus rostos ou matraquear de seus neurônios tudo o que os outros dois disputam. E estes são os que de fato não dormem. E não dormem porque são obrigados a fornecer mais e mais cenouras aos primeiros para que criem suas ilusões, e não dormem por medo de terem suas plantações devastadas pelos iludidos cavalos ensandecidos, e principalmente não dormem por medo de serem massacrados por mostrarem aos cavalos que jamais alcançarão aquela cenoura. São estes, portanto, inimigos tanto de uns quanto dos outros.

Temos portanto não duas, mas três figuras metafóricas na história: o fazendeiro, o cavalo e o agricultor. E não tenho duvidas de que o agricultor é de fato aquele que não dorme. Ou como no velho dito popular, dorme de olhos abertos, com um olho no fazendeiro e o outro no cavalo. E acredito que não preciso lembrar ao distinto leitor de que nem fazendeiros nem cavalos fazem revoluções.

Para Saber Mais Sobre Milton Santos: http://miltonsantos.com.br/site/

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