Barata Cichetto: Poeta, Escritor, Webdesigner, Editor
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quarta-feira, outubro 10, 2012

Tarde Demais!


Tarde Demais!
Luiz Carlos Barata Cichetto
Madonna


Criei filhos, ensinei mulheres, treinei cachorros. Fiz parto de gatos, tratei de coelhos e limpei bosta de pombos em cima do forro. Trabalhei feito burro, sustentei família e bebi feito um gambá. Não uso drogas, mas fumo feito um Camelo. Nunca fui cowboy nem fora da Lei. Fumo Marlboro e gosto de dormir até tarde, quando consigo. Gosto de usar cabelo comprido, e o dever cumprido nem sempre é notado. Errei na mão, troquei as bolas e os pés pelas mãos. Sou destro e tenho nariz grande. Politicamente incerto, incorreto, escrevo torto por linhas certas. Politicamente falando, sou anarquista, ou nem isso porque não suporto nenhum “ista”, nem artista, nem egoísta. Um dia sonhei em ser escritor e acordei todo cagado. Bati em portas de editoras, ninguém lá dentro. Nunca abriram. Que sou neurótico e erótico, paranóico e pouco heróico, todos já sabem. Talvez seja esquizofrênico, mas estou anêmico por falta de dinheiro. Canso depois de três quilômetros e os cigarros me dão falta de ar. Aprendo rápido e não sei ensinar ninguém a contar... Histórias... Minhas poesias são compridas, ilhas de sentimentos dentro de um mar de sangue.  Quando era adolescente queria ter comido todas as mulheres do bairro. Bati muita punheta, comi muita buceta e sonhei com a Madonna. E hoje, depois de 54 anos, 40 de poesia, queria uma tranquila aposentadoria. Jogar dominó na praça, de pijamas e chinelos, esperando um enfarto fulminante. Cuidar de pássaros, de galinhas e de porcos. Apenas cuido dos últimos. Sou racista: não suporto a raça humana! Nunca conto até dez e nem até três. Deixei a escola por causa de uma buceta. Ah, a Maysa era gostosa e me ensinou a Matemática do desejo. Quanto a Geografia aprendi pelas ruas e nunca terminei o colegial. A História é apenas a história. Nunca li tantos livros quanto queria e nunca menos do que podia. Troquei discos por livros e livros por discos e carreguei nas costas o peso do ideal. O ideal mesmo é ter grana e mandar o mundo inteiro se foder. Queria ser burro! E sou! Não quero glória, apenas reconhecimento. Não quero a fortuna, apenas a sobrevivência honesta, ganha com aquilo que sei fazer, ou apenas com aquilo que ainda consigo. E quanto a meus filhos, eu os orientei no caminho do pensamento livre e do questionamento. E se eles não tem consciência disso é porque eu acertei. A consciência chegará depois, com o tempo e com a ausência e a saudade. A consciência sempre chega tarde demais. Agora, deixe-me dormir que amanhã não demora a chegar e ainda tenho que explicar porque ainda não consegui pagar meu aluguel. Ontem acordei tão tarde que já era hoje. Ou será que hoje acordei tão cedo que ainda era ontem? Não sou cronista, nem jornalista. Não sou formado nem conformado.  Ah, sou artista?  No mundo de hoje não há lugar para velhos safados, apenas para jovens assexuados que fazem sexo como quem vai à feira comer pastel. Ah, quase não existem feiras também. O Facebook nada mais é que uma pastelaria digital. Carne ou queijo? Estou recolhido, encolhido em minha solidão. Tenho medo da rua, medo de tudo. Deixem eu comer meu pastel sossegado enquanto olho meninas de shorts curtinhos mostrando a bunda na ponta da feira. Sou o "Aqualung" da feira de sábado, "olhando menininhas com más intenções".”Greasy fingers smearing shabby clothes... Spitting out pieces of his broken luck”.  Minha sorte arruinada, minha morte arruinada. Não tenho mais sonhos enquanto a feira é desmontada e os feirantes vão embora dormir. A cabeleireira retorna ao salão, a funcionária do bar para trás do balcão. A feira acabou e eu não comi nenhum pastel. Mas não como restos de sábado da feira, quero o supermercado  de segunda a sexta-feira. Aos domingos quero estar no Parque, fumando e pensando e seguindo a canção. “Somos todos soldados, armados ou não”. Torquato morreu e sua poesia ficou, aos brados os outros cantam a sua canção. E o bardo apodreceu na terra. A guerra não é contra o povo, mas não existe povo no mundo que hoje seja digno de ser liberto de alguma ditadura, pois estão todos aquartelados em troca de uma dentadura... Postiça...  Ontem sonhei que era um dos Carlos, o Lamarca, o Marighella ou o Prestes. E estava a beira de libertar o povo da ditadura. Minha Coluna tinha marchado milhares de quilômetros e eu, cansado, sentei para descansar nos braços de Olga. Acordei com minha mulher pedindo pão e café e eu não tinha dinheiro para comprar. Sentei na frente do computador e cai de cara no teclado. Minha mãe conta que a história do meu nome era por causa de Prestes, mas meu pai era um Getulista. Duras pendengas familiares. Traição e loucura, fui condenado ao ostracismo na Ilha das Flores. Dores nas juntas por causa da pauladas. Mas não são torturadores militares que espancam minhas costas. São civis, homens e mulheres que diariamente traem sua consciência em troca de uma liberdade que sabem que jamais irão encontrar. Traem ao preço de nada, portanto. E arrebentaram meus dentes, que custo aos pedaços quando tusso a fumaça do cigarro que insisto em fumar. Não sou cronista, nem escritor, sou poeta. Cronista é jornalista, escritor é profissão e eu sou apenas um poeta, rabujento e tosco em busca de um Sol que nunca consegui alcançar. Na vida tudo é pessoal, mas nem tudo é intransferível. E por incrível que pareça, nem tudo é vida. E nem tudo é esperança. Há a morte! Ainda há esperança, portanto.


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