Barata Cichetto: Poeta, Escritor, Webdesigner, Editor
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terça-feira, julho 02, 2013

Arquíloco - Há Mais de 30 Anos

Arquíloco - Há Mais de 30 Anos

A primeira lembrança de um poema escrito por mim, ao menos com uma forma que se parecesse com um, foi em 1973. Lembro bem o ano, pois estava ainda no "ginásio" e nutria uma paixão platônica por uma piranha. É, piranha, aquela a quem todos os moleques da escola tinham comido dentro do banheiro em sua imaginação, mas que de fato e de direito só era mesmo comida por um professor de português. E diante disso, além de comê-la dentro do banheiro sujo da minha imaginação, eu a comia com a caneta. 

Eram tempos pesados, de chumbo e sangue, debaixo das botas de uma ditadura militar que insistia em transformar um país em caserna. A América Latina inteira cumpria o papel e pessoas sumiam, eram torturadas e mortas, com o medo e a revolta calada para a maioria das pessoas era sinônimo de sobrevivência. E foram nascendo, uns após outros, poemas cada dia mais tristes, infames e carregando com eles, em seu gene, um cromossomo perigoso.

Eu tinha quatorze, quinze anos, quando os primeiros poemas nasceram. Eu não sabia o que era ser pai. E nunca usei camisinha. A caneta ejaculando um esperma vermelho (nunca gostei de usar caneta azul para escrever poemas, pois eram era sacralizadas para uso na escola) garranchos em pedaços de papel, que eram desvirginados à força. O papel agora não era mais uma virgem. Nem eu, pois logo após esse processo eu perdia minha virgindade (sempre achei estranho esse termo aplicado) para uma puta do Edifício Século XX, na Avenida São João, quase esquina com a Ipiranga, que ainda não tinha virado musa caetanóstica.

Um dia porém, chegou até mim, a mais bela e folgosa das amantes em quem pus os olhos e os dedos: uma legitima Olivetti Valentine, vermelha. E agora a sensualidade e a furia de meus poemas tinham encontrado a parceira perfeita. E assim foram centenas de trepadas, de gozos nas madrugadas de téc tec tec sobre a mesa da cozinha. Eu, Valentine e minha imaginação e sentimento. 

Cartas a poetas mandadas por correio era a unica forma de comunicação. A "imprensa nanica", como eram conhecido o pessoal que, tentando furar o cerco das barricadas, visíveis ou invisíveis se comunicava com suas Olivettis, Remingtons e outras máquinas de guerra. E assim conheci uma série de soldados, de trincheiras e lutei uma série de combates.

No final dos anos 1970, tinha uma série imensa de poemas, a maior parte versando sobre putas e amantes filhas delas, sobre o desgosto de estar vivo, sobre desejos não satisfeitos e toda uma série de questionamentos e denuncias que um "garoto" de vinte e poucos anos de idade tem. Todos eles transformados em poemas.

Foi quando conheci um casal de amigos que eram militantes nessa área, quase profissionais, pois mantinham, além de seus estoques de publicações, um armamento com enorme poder destruidor, enorme poder de fogo: um mimeógrafo à álcool. E foi numa casa da Alameda Franca, em São Paulo, que depois de duas noites girando a manivela daquela máquina que reproduzia num azul horroroso, as letras grafadas em stencils que tinham sido gentil mas furiosamente escavados por minha querida Valentine, que nasceu Arquíloco, meu livro de poemas.

O nome era de um poeta grego, do Século VII Antes de Cristo, sobre o qual eu tinha lido uma frase que dava conta de que o pai de sua amada teria se matado após ler seus versos ameaçadores. Arquíloco era, além de poeta, um soldado e as lutas e guerras eram seu tema preferido. E dele, além de uma citação de Nietzsche e outra de um livro sobre Satanismo, davam o mote sobre o que eu pretendia naquele momento. O nome grafado na capa era Carlos Cichetto. Abolira o Luiz, pois considerava que assim ficava mais "poético".

Era o inicio de 1981, Lennon tinha sido assassinado e naquele momento parecia mesmo que qualquer sonho tinha acabado. Ao menos para mim tinha, pois logo depois, todos os meus poemas, incluindo referencias e citações, como no jornal Diário Popular, elogiosos à ele, foram tragados pela bocarra de uma lata de lixo enferrujada. Era o fim, talvez...

Quinze anos depois comprei um scanner. O único exemplar daquele livrinho que sobrevivera estava nas mãos de minha mãe que insistia em guardar. Pedi a ela no intuito de reproduzir. As letras azuis estavam se apagando, mas eu não tinha coragem de olhar para aquilo, viver novamente aquele momento. Tudo o que eu tinha escrito parecia não ter mais sentido e cheguei a ter vergonha do escrevera. E isso, aliado à preguiça de scanear oitenta páginas quase ilegíveis foi arrastando essa recuperação.

Mas até ontem, um dia gelado e molhado, neste inverno de 2013, quando eu já completara 55 anos e mais de 40 depois dos primeiros poemas, acordei com a meta de era preciso fazer isso. E depois de um dia inteiro de trabalho, consegui transformar em imagem todas aquelas páginas, muitas parcialmente ou totalmente ilegíveis. Cinquenta poemas divididos em 5 partes. Muitos são mal escritos, muitos são horríveis, mas todos são retratos de uma época que embora tão distante e incompressível para muitas pessoas, foi a que considero de maior importância no meu desenvolvimento intelectual. Acredito que todos que ultrapassaram meio século de existência, considerem a época em que tinham metade disso a melhor. Mas fora isso, os anos 1970 foram de fato os mais criativos da história recente da humanidade. Disso não tenho dúvidas.

Apresento a seguir, as páginas digitalizadas desse livro, como um bau mofado e cheio de coisas inúteis, mas com a esperança de que entre elas exista algo de algum valor a alguém. nem que seja apenas a mim mesmo.

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