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terça-feira, outubro 01, 2013

O Pai, O Filho e o Espírito Santo

O Pai, O Filho e o Espírito Santo
Luiz Carlos Barata Cichetto

(Sobre a matéria indicada pelo historiador e escritor Viegas Fernandes da Costa, uma "quase entrevista" com Raduan Nassar, feita por Fernando Gaioto. )

A muitas pessoas, a descoberta de Raduan Nassar abriu as portas da literatura. Meu caso não é um nem outro, pois li Lavoura Arcaica não tem muito tempo. Achei realmente um trabalho esplêndido em todos os sentidos. Agora, fico aqui, depois de ler essa matéria do Alexandre Gaioto, em duas coisas: a que se devem duas coisas: primeira o culto a ele; segunda, o porque de ter largado a literatura. E me preocupa a primeira mais que a segunda. O culto se deve ao fato de Raduan ter largado a literatura, ao filme?

As pessoas gostam de mistério e escritores misteriosos. E como ele nunca deixou claro porque largou tudo, aumenta mais o interesse. Não há dolo, mas enxergo isso como mais uma peça nesse quebra cabeças imenso montado sabe-se lá por quem a fim de se manter um "status quo". Uma peça curiosa, mas uma peça. Parecida com aquela que transforma a quase todos os poetas mortos na juventude em gênios, mesmo que não passem de rabiscadores de letras. Muito me preocupa isso, sim, pois existem muitos poetas, escritores, artistas de uma forma geral, que não desistiram de sua arte, que não se mataram... Continuam por ai, envelhecem, adoecem, trabalham em empregos medíocres para sobreviver e criar filhos, a quem não é dada uma oportunidade, se não de culto, ao menos de sobrevivência. Falo sim por mim. E por uma série enorme de outros que produzem bons trabalhos mas continuam vivos e ativos, sem despertar interesse nas pessoas, a não ser em um pequeno, muito pequeno grupo delas.

Agora um fato que me chamou a atenção nessa excelente matéria: tirando e desculpando o deslumbre juvenil do "entrevistador" perante um ídolo, ele conseguiu brilhantemente coloca em cena um personagem que muito me interessou: o filho de Raduan. Sereno e solicito, aparentemente não concorda com o pensamento do pai com relação ao autor de Lavoura Arcaica. Uma voz ecoando, sem carga de piedade, sem arroubos de arrogância, mas firme e respeitosa à figura paterna. A mim, a grande personagem dessa matéria é ele.

E a mim, ainda o grande mistério não é o fato de Raduan Nassar ter abandonado a literatura, mas sim, por que cultuam os que desistem, os que se matam, os que morrem cedo e não aqueles que insistem, sobrevivem e se recusam a morrer. Sem mérito oiu demérito à qualidade artistica de nenhum deles. Uma frase, atribuida a Raul Seixas dis mais ou menos o seguinte: a sociedade mata seus poetas para depois os cultuar. Isso é morbidez e crueldade. E creio estar nas raízes desse culto a moral cristã, que elege santos mortos, enquanto dos vivos exige apenas sofrimento e entrega. aliás, não creio nisso, estou certo disso, dessa cristianização inconsciente até. É preciso morrer, de preferência sob muita dor e sangue, quanto mais dor e sangue melhor, para se alcançar o Éden. E como Paraíso entenda-se ser cultuado pelos vivos. Mortos não precisam de culto, os vivos sim! E não falo necessariamente sobre adoração, mas reconhecimento. Nenhum ser humano (ou não humano, caso prefiram os religiosos) merece adoração, mas todos merecem respeito. E um artista, mais que isso: reconhecimento.

Que os mortos permaneçam em suas sepulturas, que os que se escondem, que continuem escondidos, mas que os que lutam, que buscam seu reconhecimento, que trabalham e sobrevivem não precisem morrer e ou desaparecer misteriosamente para que tenham suas obras valorizadas e reconhecidas. Em outras palavras: enterrem os mortos e selem as cavernas dos reclusos. E escutem os vivos.

Matéria de Alexandre Gaioto: http://alexandregaioto.blogspot.com.br/2013/09/o-silencio-de-raduan-nassar.html

01/10/2013

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