Barata Cichetto: Poeta, Escritor, Webdesigner, Editor
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terça-feira, novembro 12, 2013

Resenha - Super Peso Brasil - 9/11/2013


Super Peso Brasil
Metalmorphose (RJ), Stress (PA), Centúrias (SP), Taurus (RJ) e Salário Mínimo (SP)
Convidados: Jack Santiago (ex-Harppia), Vitor Rodrigues (Voodoopriest, ex-Torture Squad), Luiz Carlos Louzada (Vulcano), Lucky Luciano (X-Rated, ex-Metalmania) e André Góis (Desaster, ex-Vodu)
9 de Novembro de 2013, Sábado
Local: Carioca Club

Sair de casa, encontrar amigos, falar sobre Rock, beber cerveja, ver e ouvir sua banda tocar e ainda de quebra alguma "ficada". O espírito dos concertos de Rock sempre foi esse. Harmonia e amizade... Por ai. Mas há um bom e certo tempo esses fatores não aconteciam. Ao menos não em conjunto, quando se trata de apresentação de bandas brasileiras. Mal organizados, em lugares apertados, escuros e sem o menor conforto, sempre em horários durante a madrugada. E isso, aliado ao desinteresse de muitas bandas foi criando um estado de coisas que não era bom para ninguém. Ao menos não a artistas e publico, que é para quem deve ser bom. Para o produtor ou produtores, claro que com raras exceções, só é bom quando rende muito lucro.  Um evento de tal natureza, é claro, precisa dar resultados financeiros. E duvido que da forma que eram feitos, até isso acontecia. Na maior parte por culpa deles próprios.

Quando fiquei sabendo do Super Peso Brasil, confesso que fiquei receoso de mais um fiasco dessa natureza, mas ao tomar conhecimento de que estaria por trás disso seria Ricardo Batalha, literalmente um batalhador das coisas do Rock no Brasil fiquei muito mais tranquilo. E com o passar do tempo, ao saber do lugar e do envolvimento das bandas e do publico em geral, até mesmo dentro das redes sociais, a desconfia se dissipou totalmente. Mas e como seria? O publico de fato apareceria? Restava essa duvida.

No sábado, deixei o extremo leste e fui até a estação de trem de Guaianases. Já ali, uma pequena surpresa: ao meu lado no trem um garoto boliviano, de cerca de uns dezesseis anos, trajado com um visual metal e usando uma camiseta dos Beatles e óculos redondos de John Lennon. Em principio achei estranho, mas o garoto parecia sentir-se muito bem e é isso o que importa. Seguimos juntos até certo ponto e nos dispersamos pois tive que parar na metade para resolver um assunto urgente. Mas ao chegar à porta do Carioca Clube, em Pinheiros, lá estava meu amigo, sorridente e feliz. Com certeza, aquele simples encontro já me deu certo alívio. Era apenas um solitário garoto, mas que vinha de longe para participar.

O Carioca Clube é uma casa de espetáculos onde se apresentam artistas de qualquer tendência ou gênero musical, mas logo na chegada, pude avistar um grupo de pessoas na calçada. Fiquei apreensivo pois achei pequeno, mas ainda eram menos de quatro da tarde... Eram pessoas de todas as idades, trajados de formas diferentes, uns curtos outros longos, uns brancos outros pintados. E até ausentes. E entre aquelas pessoas, que bebiam nos bares próximos, conversavam alegremente e fumavam, juntamente com alguns dos músicos que dentro de pouco tempo estaria sobre o palco, parecia haver um clima de total harmonia e amizade. Autógrafos em discos antigos de vinil eram muito comuns, abraços, fotos. Uma tietagem saudável.

Sabia que naquele dia decerto encontraria amigos que não via há bom tempo, e outros que conhecia apenas por perfis de redes sociais. Alexandre Quadros, velho amigo de Internet, de Mogi Mirim foi o primeiro. Adriano Coelho, que também fazia parte do "staff" da organização, outro. O próprio Ricardo Batalha também. Ricardo Ravache, hoje do Centúrias, mas que também já apresentou um programa de Rock Progressivo na Stay Rock, dá autógrafos e posa para fotos .Os minutos iam passando, as pessoas chegando, os músicos chegavam e ficavam pela calçada dando autógrafos, entrevistas, posando para fotos. Fico na porta papeando com Fabio Makarrão do Kamboja. Jack Santiago, Ex Harppia aponta na calçada em frente e é cercado por um grande numero de pessoas na chegada. Jack é um sujeito muito simpático, tranquilo e trata sempre os fãs com carinho.

Quando meu companheiro de Stay Rock Brazil, o musico Adilson Oliveira chegou entramos. Faltavam poucos minutos para o início. Na entrada aquele sempre desconforto por revistas de seguranças mal encarados, mas isso, infelizmente é algo necessário nos dias de violência e malandragem que vivemos. No palco, os mestres de cerimônias, Ricardo Batalha, Walcir Challas, dono da lendária Woodstock, e Marcelo Pompeu, do Korzus para apresentações e sorteios de uma guitarra. Está iniciado o Super Peso Brasil.

A primeira a se apresentar é a banda carioca Taurus. Walcir desce do palco e se posiciona a nossa frente, mais ao fundo do salão. Havíamos marcado uma entrevista com Roosevelt Bala do Stress e conversamos com ele sobre isso. que com a gentileza que lhe é peculiar, foi até os bastidores e nos traz as coordenadas.

A banda Taurus foi formada no Rio de Janeiro em 1985 e já gravou quatro discos. O set list da apresentação do Super Peso Brasil, que foi iniciado com "Fissura", faixa titulo de seu mais recente CD, passeou por todos os discos da banda e em "Mundo em Alerta" teve a participação de Luiz Carlos Louzada, vocalista do Vulcano, se encerrou com "Massacre", do primeiro disco, com boa parte do público cantando junto e com direito a um riff de "Heaven and Hell", que enlouqueceu a platéia. Após a apresentação, conversamos com Otávio, vocalista da banda que nos disse estar muito contente com o retorno da banda, e que infelizmente, a cena de Metal ser praticamente inexistente no Rio de Janeiro.

Aliás, falando em intervalos e conversas, é digno de nota o espaço existente no Carioca Clube, uma área aberta, onde se pode fumar e principalmente, para onde sempre um musico da banda que acabava seu show se dirigia para entrevistas e bate papos com os fãs e amigos. Muito legal, entre as apresentações músicos e publico se juntarem, beberem, conversarem, num espaço totalmente aberto. E fomos encontrando amigos, músicos de outras bandas que estavam ali para prestigiar o evento, conversando e tomando nossas cervejas.  Dentre esses amigos, o fotógrafo Leandro Almeida e o jornalista Sergio Alberto Bauchilione, que eu não via há mais de dez anos, desde quando eu realizava eventos de Rock na Fofinho.

A segunda banda a subir ao espaçoso palco foi o Centúrias, outra histórica banda que iniciou carreira nos anos 80, e que contava na época as baquetas de Paulão Thomaz, atualmente da Baranga e Kamboja. Nesta nova formação, um retorno depois de alguns anos de inatividade, a banda conta com Nilton "Cachorrão" Zanelli no vocal, Ricardo Ravache no baixo, Roger Vilaplana na guitarra e Júlio Príncipe na bateria.  O grupo apresentou um repertório calcado nos álbuns "Ninja" (1988), "Última Noite" (1986) e da coletânea "SP Metal" (1984), além da nova "Inúteis Palavras". O show contou com a participação de André Góis da banda Desaster.

Mais um intervalo de cigarro, cerveja e papo com as pessoas do publico e músicos presentes na área "cigarrettes" do Carioca. E esse foi especial, muito especial, pois encontramos com Jack Santiago. Um momento de emoção pura e sincera, de ambas as partes. Confesso que fiquei muito emocionado com as palavras dele com relação a minha pessoa e pelo fato dele, imediatamente após ter recebido das mãos do Adilson a camiseta da Stay Rock, vesti-la, posando inclusive para fotos de outros amigos que ali estavam. Jack Santiago é um gentleman, uma pessoa que enxerga muito além de apenas riffs de guitarras. E nesse intervalo ainda outro prêmio: um amigo que infelizmente não consegui guardar o nome e ao qual peço desculpas, disse ser ouvinte de meu programa, e citou uma fala minha quando da morte de Lou Reed. O salário do ano está pago.

Retornando ao recinto de show, aliás, muito bem  projetado e dividido, e nesse momento bem lotado. Nesse momento encontro outro outro amigo e músico, o baixista da banda Cracker Blues, Paulo Kruger. A a próxima banda a se apresentar são os cariocas da Metalmorphose, outra das bandas seminais da cena brasileira com seu Heavy Metal tradicional. Criada em 1985, quando gravaram um split com a histórica banda Dorsal Atlântica. Como era previsto pelo ideário do evento, também tocaram suas musicas clássicas, incluindo um cover de "Satã Clama Metal" do Azul Limão, já que o vocalista do Metalmorphose, Tavinho Godoy, integrou essa no final dos anos oitenta. O show da Metalmorphose contou com participação de Lucky Luciano (X-Rated, ex-Metalmania).

Outro fato a ser narrado e elogiado, foi o cumprimento à risca dos horários marcados para as apresentações. Começaram e terminaram nos horários previstos. A duração dos shows poderia ter sido um pouco maior, mas, entendendo-se as razões, perdoa-se. Aliás, com raras exceções em detalhes que não comprometem, toda a organização do Super Peso foi muito boa, outra coisa muito rara por estas paragens. Os intervalos necessários foram seguidos, os tempos das apresentações. Muito bom, pois não existe nada mais irritante que shows que atrasam em, muitas vezes, horas. Isso demonstra respeito ao publico, a casa e aos artistas.


E em falando em tempo, passávamos agora da metade do evento e mais uma vez na área aberta da casa, um grupo de "senhores" de cabelos grisalhos me chama: falam sobre o fato de que o Rock não tem idade e coisas assim. Estão todos na faixa dos quarenta e poucos anos e quando declino minha idade, todos riem. Junto ao grupo, um homem acompanha a tudo atento. E nesse momento ele entra na conversa e arremata, puxando pela mão o filho, de cerca de uns seis anos: "Nós temos que continuar a espécie..."  Todos concordamos.

Os primeiros acordes do próximo show e corro para dentro. É a vez da banda Salário Mínimo. Uma chuva de papel picado e os acordes de "Delírio Estelar". O Salário Mínimo é uma das mais antigas da cena paulista, tendo começado ainda no final dos anos 1970, mas apenas em 1987, lançaram seu primeiro disco intitulado "Beijo Fatal", que, entre as oito faixas incluía um cover da banda que revolucionou os anos 70 no Brasil: Secos & Molhados com a música "Rosa de Hiroshima", que não foi tocada. Em compensação, clássicos da banda como "Dama da Noite", "Noite de Rock", "Anjos da Escuridão", Beijo Fatal" foi cantada em coro por quase toda a platéia presente. Emocionante isso, cerca de 1200 pessoas (publico estimado), cantando junto com uma banda brasileira. E dá-lhe chuva de papel picado. Quase no final, adentra ao palco Jack Santiago, que integrou o Harppia no disco "A Ferro e Fogo", e ao lado do Salário Mínimo cantou a faixa "Salém, a Cidade das Bruxas". O publico foi ao orgasmo, cantando em uníssono um dos maiores hinos do Rock nacional do Brasil. E para finalizar o set com chave de ouro, a não menos emblemática "Jogos de Guerra".

Nesse momento, quando saia em direção à área de tietagem e papo aberto do Carioca, encontro o jornalista Marcelo Moreira, do Combate Rock e trocamos um papo rápido. É, nem tão rápido, mas com gosto de "precisamos continuar essa conversa outro dia." O Marcelo bem lembrou a parte final em sua resenha no Combate Rock: "'E ainda dizem que o metal nacional não tem público, que a galera não se renova', comemorava o jornalista e escritor Luiz Carlos Barata Cichetto."  Realmente, estava mesmo comemorando o clima, o fato de que o evento tinha dado certo, que as pessoas tinham comparecido. Estava mesmo feliz e comemorando, pensando que o trabalho todo do Ricardo Batalha e das bandas que fizeram aquele evento tinha sido um sucesso. Feliz por estar em um evento bem organizado, numa casa decente, em horários corretos, banheiros limpos... Enfim... E feliz até com a tal de "Double Beer". Afinal, duas cervejas de lata por cinco pratas é extremamente decente e justo. Ainda mais numa casa como aquela.

Mas ainda tinha mais e para encerrar o Super Peso Brasil, a mais lendária banda da história do Heavy Metal Brasileiro: Stress, banda que, desde a distante Belém do Pará, ainda em 1982 incendiou o mundo com sua musica. Muita gente desconhece ou erra propositalmente ao contar a história do Metal no Brasil e não reconhecer a importância e o pioneirismo dessa banda. A Stress é considerada na Europa como a primeira banda de Thrash Metal do mundo. Em 2004, o selo alemão Die Irae lançou o primeiro disco do Stress, em vinil e em CD, com um detalhe: nas lojas da Alemanha, Estados Unidos e Japão, o disco traz estampado na capa: "The first thrash metal band in the world". Mas, se depender do publico presente no Carioca Clube, naquele dia 9 de Novembro de 2013, esse injustiça com o Stress foi corrigida.

E assim, Roosevelt "Bala" Cavalcante no vocal e baixo, Paulo Gui na guitarra) e André Lopes Chamon na bateria iniciam a explosiva apresentação da banda com "Heavy Metal", seguida da velocíssima  "Mate o Réu" e em seguida outro grande clássico da carreira da banda "Flor Atômica", faixa-título do segundo disco, de 1985. Logo após, Vitor Rodrigues (VoodooPriest, ex-Torture Squad) adentra ao palco para cantar "Sodoma e Gomorra", do primeiro álbum, de 1982.  E quase ao final da apresentação a banda executa uma musica nova chamada "Heavy Metal é a Lei". Tenho a impressão que o set do Stress foi mais curto que os demais, talvez pelo fato de que o evento tinha hora certa para terminar. Em função disso, a banda encerrou sua apresentação, mas sem antes preparar-nos uma imensa e grata surpresa: Bala chama todos as bandas ao palco, para juntas executarem "Brasil Heavy Metal", música-tema do documentário de mesmo nome. Muita gente canta junto e ao terminar, todos os músicos perfilados, saúdam o publico. é simplesmente indescritível! Nesse momento eu estava ao lado do palco e comecei a olhar bem nos rostos das pessoas que estavam ali. Havia alegria, satisfação, emoções puras, fortes e boas. Como se todos ali estivessem sentindo a mesma coisa. E se essa "mesma coisa" foi a que eu senti, foi a mais pura sensação de alegria por estar presente em uma celebração, como se ali, depois de tantos anos, uma fênix estivesse renascendo das cinzas. Exagero meu? Talvez, mas o tempo, apenas ele dirá se aquele dia foi ou não a data de renascimento do Rock e Metal no Brasil.

As luzes se acendem, o show acabou. Ficamos por ali, eu e Adilson Oliveira ainda conversando com algumas pessoas. Na tal área aberta ainda encontro o grande cantor Percy Weiss a quem presenteio com meu livro "Patrulha do Espaço no Planeta Rock". Fotos, abraços e retornamos. Perto da porta Adilson conversa com dois garotos da banda "Muqueta na Oreia", cujo disco já me chamou a atenção logo de cara. O nome "Blatta", que significa "Barata"...  Um papo rápido e saio zanzando pelo salão, observando o trabalho de desmontagem do palco. Aprendi a gostar disso desde quando era manager da Patrulha do Espaço. Mas num dado momento, passa por mim um cidadão usando uma camiseta que tinha me chamado a atenção anteriormente. A estampa oficial de uma turnê de Ian Anderson. Elogio a camiseta, falamos sobre bandas prediletas, tudo muito rapidamente até cair em Syd Barrett.. Falo do meu livro.... E ele: "espera aí, como é teu nome?"...E ele estende a mão num gesto rápido, firme e amistoso: "Prazer, eu sou o Toninho da Brigade!" Levei um susto, pois apesar de conhecer toda a trajetória da revista não tinha a menor idéia do rosto dele. Uma grata surpresa, mesmo.

Saímos conversando quando os seguranças "gentilmente" nos pedem para sair. Na calçada encontramos o amigo fotógrafo oficial do Super Peso, Rhadas Camponato que também está muito contente com o resultado. E ainda China Lee e ficamos a recordar nosso ultimo encontro, há cerca de dez anos num show do Salário na Led Slay. A alegria nos nossos olhos é intensa, a sensação de uma missão cumprida em conjunto por um exército sem fronteiras. Na outra extremidade da calçada avistamos Roosevelt Bala, marcamos a entrevista que havíamos combinado para outro dia, tiramos algumas fotos e saímos, eu e Adilson em direção ao Metrô que nos levaria de volta à Zona Leste de São Paulo, com a nítida sensação de alma lavada. Ainda olhei a procura do amigo boliviano, aquele com visual de metaleiro e camiseta dos Beatles...

Luiz Carlos Barata Cichetto

Homenagem feita a mim pelo amigo Alexandre Quadros


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