Barata Cichetto: Poeta, Escritor, Webdesigner, Editor
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terça-feira, maio 23, 2017

Os Outros

Antes, até bem pouco tempo, éramos amigos. Ríamos de piadas, sentíamos nossas artes, discutíamos musica e literatura. Mas aí eles chegaram... Antes, até poucos meses até, éramos amigos, mesmo que nunca tivéssemos nos visto pessoalmente. E nos intimávamos a publicar poemas, listas de musicas e de discos. Mas aí eles chegaram... Antes, até éramos amigos, e nos visitávamos quando possível. E trocávamos artes, sentimentos e confidências até. Tínhamos nossas diferenças e as respeitávamos. Sabíamos que ser diferente é que faz a diferença. Respeitávamos essas diferenças, como deve ser. E nos caçoávamos uns dos outros por causa de alguma cagada, alguma besteira feita ou dita. Ríamos disso. Éramos amigos, afinal. Mas aí eles chegaram...

Mas aí eles chegaram, com suas mentiras, farsas, roubos, corrupção, e lhes disseram que ideologia é melhor que amizade, família, arte e tudo mais. Que todas as coisas das quais brincávamos eram sérias, que piadas eram ofensas de morte. E lhes mentiram sobre eles, sobre suas intenções. E lhes disseram que aquele que não concordasse com essas mentiras eram inimigos, que tinham que ser escorraçados, esquecidos, humilhados. Lhes mentiram, ensinaram errado a matéria, mudaram o sentido das palavras, lhes fizeram acreditar que o certo é o errado, que a sujeira é limpa, e que tudo vale em nome de seus propósitos. Aliás, fizeram-lhes acreditar que os únicos motivos, propósitos e certezas são os deles. E pior, que os seus - deles - propósitos são os seus. Fizeram-lhes acreditar neles e descrer de todos aqueles que discordam de seus pensamentos unicamente voltados ao poder. Compraram-lhes a consciência ao falar em nome dos pobres, lhes convenceram que deviam sentir em nome do povo, mesmo sabendo que vocês são o povo, não eles; distorceram fatos, incriminaram inocentes e transformaram assassinos em heróis. Lhes colocaram rótulos, lhes vestiram com os uniformes deles, fizeram-lhes brandir suas bandeiras, cantar seus hinos e dizer as palavras de (des)ordem que lhes transformou em ecos ocos. Fizeram-lhes acreditar que tudo que é dito é mentira se não for dito por eles. Ofereceram-lhes as desculpas por seus crimes e lhes eximiram de suas culpas contra crimes que eles próprios cometeram. Jogaram-lhe contra pais, irmãos, amigos, parentes, todos aqueles que poderiam lhes ser contra as mentiras deles e lhes deram justificativas para pilhar, quebrar, destruir em nome de uma revolução que jamais será sua, e que nem de fato é. E nunca será.

Enfim, eles chegaram. E não há mais poesia, nem listas de musicas, nem arte. Apenas tristeza e ódio. Doença. A eles pouco importa que sejamos inimigos, a eles interessa apenas o poder. E tudo é válido em nome dessa revolução que nunca irá ter fim, até que não sobre mais ninguém que possa pensar e agir contra eles. Eles lhes roubaram de seus amigos, prostituiram sua educação, sujaram suas mãos de sangue. Lhes fizeram mentir em nome de deles.

Antes, até bem pouco tempo, o inimigo era "eles", agora sou eu. E outros que ousam ainda refutar-lhes os intentos criminosos. Espero apenas, embora até minha esperança eles tenham roubado, que um dia meus amigos e todos aqueles que a mim são caros possam acordar e perceber os crimes que estão cometendo em nome deles. Crimes contra a humanidade. Mas se não acordarem, temo não mais pela perda da amizade que lhes dediquei, mas pelo desperdício de sentimentos. E se um dia a consciência lhes pesar, quando o negro futuro que eles lhes reservam surgir e não haver mais tempo de voltar atrás, fiquem com o consolo de tempos em que ainda acreditávamos em poesia, em arte, em musica.

Luiz Carlos Giraçol Cichetto, 23 de Maio de 2017



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