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24/12/2016

"...E Assim Se Fez Simples" de Ismenia Brandi (Ou Parece Que Foi Ontem Quando Éramos Simples Seres Humanos Simples)

"...E Assim Se Fez Simples" de Ismenia Brandi (Ou Parece Que Foi Ontem Quando Éramos Simples Seres Humanos Simples)
Barata Cichetto
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Dia de Natal, data que não foi escolhido, mas que calhou, de eu ler o pequeno volume presenteado pelo amigo Dimitri Brandi, escrito por sua tia Ismenia Brandi.

"...E Assim Se Fez Simples" é, segundo a definição impressa na própria capa que ostenta um desenho da autora datado de 1984, um livro de crônicas. Um pequenino volume de 42 páginas, sem data de lançamento informada, mas que provavelmente foi feito nos anos mil novecentos e oitenta. As marcas de ferrugem nos grampos de metal e o titulo do livro com letras escritas a mão apenas em preto, dão um ar ainda mais "vintage" ao volume.

Dia de Natal, por coincidência (?) E logo o primeiro texto do primeiro capítulo intitulado "Crônicas de Natal" já desperta uma emoção que nenhum filme natalino, nenhuma estória familiar são capazes de despertar num ateu convicto como eu.

"A Chegada" é uma "crônica poética", uma "proesia", para usar um termo mais "moderno". "O ar estava faiscante de poesia concreta. Nada era luz ali", escreve a autora que nos conduz com suas palavras a uma sensação de tristeza pela perda da simplicidade. Um lamento, mas cheio da esperança - falsa a muitos - que permeia o Natal. "E muito antes de a poesia ser um jeito ilógico de ver a vida, ela já era o que mostrava sua beleza." Ismenia acreditava poesia, na esperança do Natal e na beleza do silêncio.

Na segunda crônica, datada de 1962, a autora torna a falar em silêncio, mas desta feita de forma mais bem humorada, sem deixar as visões poéticas de lado, como nas duas seguintes, escritas ainda na década de sessenta do século passado, seguidas por outras crônicas e poemas escritos na de setenta.

"O Sentido da Vida", escrito em 1975 é de uma beleza impar, e conclui: "É neste momento que temos de ter a coragem de parar e sentir nosso vasio. De onde poderá surgir todas as respostas."

A crônica seguinte, que dá título ao livro "...E Assim Se Fez Simples", relata um encontro com um senhor que participou da Guerra, e que fez das flores de seu quintal a forma de manter-se feliz num mundo cheio de guerras declaradas ou veladas. Aliás, as formas de se manter dentro de um estado de felicidade momentânea, a única possível, lidando com as coisas mais simples, se repetem em outras crônicas e poemas de Ismênia. E até mesmo na poesia concreta que aparece no livro, estilo muito em voga entre os poetas da década.

Simplicidade é que norteia a escrita do livrinho, fruto de uma época em que ainda se acreditava nela. A busca por esse modo simples de ver a vida, herança de uma guerra que ceifou vidas e deixou traumas nos sobreviventes.

Ao terminar de ler "...E Assim Se Fez Simples" de Ismenia Brandi, o que nos abate é uma melancolia profunda. Não é saudosismo, mas saudade. Da gente mesmo. E uma sensação de que algo deu errado, que cometemos erros fatais nos anos seguintes, para que tenhamos chegado à segunda década do terceiro milênio com tanta amargura, tanto desamor e tanta intolerância. Onde erramos?

Talvez um dos nossos maiores erros foi o de não termos acreditado em nossas esperanças e em contrapartida nos prostrarmos aos sonhos alheios, nem tão puros, nem tão simples. Nos perdemos. Nos isolamos. E agora, que tudo é tão complicado e triste, perguntamos a nós mesmos e uns aos outros: quem somos?

Seria possível ainda um mundo com a simplicidade que Ismênia Brandi tratou a vida em suas crônicas e poesias, há quarenta, cinquenta anos? Sim, é possível! Depende de nós.

Parece que foi ontem, quando éramos simples seres humanos simples. E "crahshshsh /  É melhor que nada"... Um dos mais simples e instigantes e sinceros poemas que li. Digno de uma musica simples, de acordes minimalistas e poucos segundos de duração.

Resenha crônica escrita ao som de uma versão acústica do "álbum branco" dos Beatles.

Luiz Carlos Giraçol Cichetto
24/12/2016


14/12/2016

Apresentação a "THUNDERSTRUCK - Enterrem meu coração no túmulo de Bon Scott - Dimitri Brandi"

Apresentação a "THUNDERSTRUCK -  Enterrem meu coração no túmulo de Bon Scott - Dimitri Brandi"


Ultimamente, particularmente no Brasil, saíram inúmeros livros definidos como "Romance Rock", o mais recente é o do amigo Dr. Walter Possibom, intitulado "Um Brilho nas Sombras". Mas não tenho conhecimento de nenhum "Romance Metal". Ao menos não tinha até receber os originais de um texto escrito por Dimitri Brandi, advogado e vocalista/guitarrista da banda de Death Metal Psychotic Eyes, com a proposta de edição pela "Editor'A Barata Artesanal".

A começar pelo titulo, homônimo de uma música da banda que pode ser considerada uma das precursoras do gênero,o AC/DC, o livro é ponteado por trechos, citações e referências. Nele, todos ou quase todos os personagens apreciam o estilo, que efetivamente é mais que trilha sonora, ponto de convergência da história.

Como estilo que abrange todas as mentalidades, desde as mais "retrogradas" até as mais "progressistas", além de aninhar todas as tendências tanto na questão política, quanto na sexual, o Metal representa exatamente tudo aquilo que seus seguidores concebem: a falta de uma linha de conduta, um manual de instruções. O Metal é livre disso, ao menos para os que o compreendem. As classificações e subclassificações, como o próprio termo, ficam para serem usadas apenas com intuito didático.

E é assim nesse que denominei de "O Primeiro Romance Metal do Brasil", onde todos os personagens, além da citada ligação com o gênero, representam pessoas relativamente jovens, que vivem num mundo assolado por guerras e polarizado por ideologias e teologias. Um mundo onde é preciso se fazer ser visto e entendido de uma forma, as vezes, mais brutal.

Todos os personagens apresentados, aliás de forma dinâmica e sem longos discursos de apresentação, são representantes da atual sociedade. Gays, lésbicas, filhos adotivos de duas mães, transexuais, etc.. Todos lutando contra o preconceito, especialmente no mais cruel campo de batalha que existe: a própria mente. Todos estão vivendo essa era conturbada, tensa e intensa de ainda inicio do Século XXI. Todos vivem seus traumas, suas angustias e, a seu jeito, os enfrentam.

Todos vivem? Bem, nem todos "vivem", pois o personagem principal da história, morre logo ao inicio do livro, mas continua a fazer sua narrativa, numa referência direta a um dos maiores escritores brasileiros, Machado de Assis. Aliás, o livro é repleto de referências a outros autores, sem no entanto soar pedante ou arrogante.

Ademais, quem espera que um texto, escrito por um advogado e músico de Metal, cujo personagem principal é um morto, e entremeado por citações e trechos de músicas do estilo, e cujos demais personagens não são nada ortodoxos, seja uma leitura pesada, de difícil assimilação e com enigmas indecifráveis, está totalmente enganado. O livro é de leitura fácil, embora não linear, onde todos os elementos de um romance estão presentes, mas, como espelho da atual sociedade, dispensam detalhes que nada acrescentam.

Ser um editor alternativo tem suas vantagens, como a de conseguir ler, antes mesmo do prelo, um trabalho tão interessante. E quando as máquinas pararem, e os primeiros acordes impressos desse livro vierem a publico, estou certo que a maioria irá concordar comigo.

Luiz Carlos Giraçol Cichetto, Escritor e Editor Artesanal, Domingo, 18 de Setembro de 2016

"Não Há Um Deus Senão o Homem."

"Não Há Um Deus Senão o Homem."
Barata Cichetto
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Tentando pensar, lembrando dos ciclos históricos, que talvez expliquem muita coisa. Ou não. É um erro pensar que a história nos ensina. O mesmo erro que coloca historiadores num patamar elevado não merecido na maioria das vezes. História não ensina nada. Mas, ao pensar sobre isso, relembrando as décadas de 60 e 70, quando a maior parte dos países sulamericanos estava sob regimes militares, e de repente - não maximizem o valor da "luta popular" - deram lugar à quase em todos os mesmos países, regimes de semi ou pseudo esquerdas. Agora, a nível mundial, inclusive nesses, tende a governos de semi ou pseudo direita, incluindo a maior nação do mundo até agora. Percebemos paralelamente a isso, um crescimento absurdo de teocracias e antagonismos baseados em extremismos religiosos.
O que pensar? A maior parte das pessoas precisa de lideres, de messias, de salvadores, de guias e gurus. A maior parte dos seres humanos, por preguiça ou insegurança, necessita ser guiado, conduzido. E esse, a meu ver, foi a causa do fracasso de todas as experiências comunitárias, desde o inicio do mundo. Não ficarei citando exemplos históricos, pois como escrevi acima, a história não nos ensina nada, ou não nos fazer mudar o rumo. Está lá apenas para registrar os fatos. Como um jornal velho. E não há incoerência no fato de eu estar citando antigas experiências comunitárias, sejam elas de qualquer cunho ideológico, pois essas experiências estão ai, na frente dos seus olhos. E a quem mora em periferias especialmente tem diante de seus olhos. Nem é preciso ligar a televisão.
A maioria das pessoas precisa de lideres. Elas confiam e esperam deles a resolução de todos os problemas. Desde uma cesta básica, uma dentadura, um passe de ônibus, sua saúde, seu emprego. Querem que tudo lhes venha com o menor esforço possível. E confiam em lideres que lhes dê esse conforto. Mas e quando essa confiança falha? Quando as pessoas percebem que esse conforto ao qual acreditam ter direito, embora fora pago por seus próprios esforços sob a forma de impostos, por exemplo -  falha? Quando esses salvadores não o salvam, quando esses gurus não lhes guiam, quando esses lideres não os lideram, quando... Quando se percebe que o fator humano falhou, buscam fatores extra-humanos... Alguns passam a acreditar em sociedades secretas que os mantém as coisas como estão, outras acreditam em seres de outros planetas que traçaram desde há muito os destinos do nosso planeta e por tabela em nossos destinos em particular. Mas a maioria, descrente dos homens, se voltam a deidades...
No Brasil, estamos diante de uma crise moral, política, e de caráter, com lama e merda saindo de todos os buracos conhecidos. Diariamente noticias sobre outro e outro político (salvadores, gurus, mantenedores de nossas necessidades) envolvido em falcatruas e roubalheiras. As pessoas se sentem enganadas, claro. Mas da mesma forma que políticos, temos noticia de roubalheiras e falsas promessas por lideres religiosos, pessoas sendo enganadas, vilipendiadas, humilhadas por seres que vivem no luxo e na riqueza enquanto seus mantenedores se mantém na pobreza... A exata mesma relação.
Então, qual o motivo de as pessoas se revoltarem contra políticos e não contra lideres religiosos?
O motivo é simples: lideres religiosos representam a deidade, perfeita e absoluta, que na falta do humano, irá dar todas as suas necessidades, de um jeito ou de outro, sem maiores esforços. O preço que pagam, mesmo sabendo estar sendo enganados, vale a pena, segundo eles. Afinal, "deus fala" pela boca daquele ser. E se ele é falho - roubando e enganando os seguidores - é porque assim a deidade o permite.
Percebam que é tudo do mesmo jeito, que as coisas funcionam exatamente iguais.
E enquanto os seres não perceberem que, se deixarem de preguiça e de querem tudo sem maior esforço, não precisarão de lideres, de gurus, de mentores, salvadores. Não precisarão das esmolas desses cidadãos. O preço pago por esperar dos outros o que não tem vontade ou capacidade de ter por conta própria está sendo pago, e a preço alto, nesses dias. O futuro começou... Ou o futuro acabou? "Não há um Deus senão o Homem."

Publicado também no Facebook, em 14/12/2016
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