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25/06/2018

Viver é Fatal!

Viver é Fatal!
Barata Cichetto

Eu queria acordar pensando que foi um sonho. Que durou sessenta anos. Queria olhar no espelho e enxergar um rosto de criança, escovando os dentes de leite, depois colocar as calças curtas, a camisa branca, os suspensórios de couro, e por fim a gravatinha azul, presa com elástico e com apenas uma lista indicando primeiro ano escolar.
Queria sair pelas ruas correndo e comendo tardiamente o lanche não devorado no recreio, e até tomar um homérico tombo numa rua de terra do bairro quase sem casas. Queria ficar satisfeito em saber que tudo aquilo que vivi nos últimos sessenta anos tenha sido apenas um sonho, e que eu ainda tenha esses mesmos para construir uma vida.
Queria andar pelas ruas do centro da cidade, com pressa para entregar pacotes e envelopes de uma loja de peças da Rua Florêncio de Abreu, depois andar pela Paulista recém-ampliada, soltar camisinhas cheias de ar, feito bexigas, pelas janelas do prédio, sobre o telhado de dois casarões dos tempos dos barões do café.
Queria pensar que tudo foi um sonho, que todas essas coisas que eu vivi, eu ainda não vivi. Queria acreditar que ainda tenho que viver tudo isso, ainda. E o que é melhor, viver tudo isso de forma melhor e diferente. Queria pensar que acordei hoje de um sonho de sessenta anos. E viver tudo de novo. Ainda ter tempo, ainda ter muito tempo. 
Acontece que a vida não é sonho, nem bem, nem ruim. Não é sonho. A vida é real, tão real quanto podemos entender e sentir por realidade. A vida é fatal.
E na fatalidade do viver, corro ao espelho e velho um rosto enrugado debaixo de cabelos e barba brancos, não há mais dentes de leite, apenas dentadura. E não há mais uniformes escolares, nem caminhos de office-boy. Há o cansaço, há a amargura de quem sempre procurou o ser, não o ter. Há a textura na pele como marcas e provas de que nada foi um sonho. Tudo é real. Tão real quanto se possa sonhar.
25/06/1958

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