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15/07/2018

Non Dvcor Dvco

Non Dvcor Dvco
Barata Cichetto


Eu nasci há sessenta anos, em São Paulo, uma cidade que na época ainda não era um gigante engolido pela ganância das oportunidades, uma espécie de New York de terceiro mundo. 
A cidade de São Paulo, nos anos cinquenta, que tinha completado quatrocentos anos de existência, ainda mantinha a predominância de imigrantes europeus, particularmente italianos, espanhóis e portugueses, mas começara a ser desenhada como uma cidade multicultural, que se tornou logo depois.
Filho e neto de paulistas e paulistanos, todos descendentes de italianos, cresci vendo essa cidade se tornar de poética á imunda.  A migração e imigração descontrolada fez a cidade perder seu charme, sua ousadia e sua poesia. Tornou-se uma cidade suja, emporcalhada e, para mim, perdeu tudo o que eu considerada valoroso.
Recentemente tomei um choque, com um fato que me aconteceu, ao entrar numa padaria para tomar um café: o balconista, com um sotaque nordestino carregado, me perguntou de onde era o meu sotaque. Só respondi que era daqui mesmo, mas me senti sinceramente desconfortável. E isso me fez pensar, analisando também outras coisas, que minha "mãe" já não me queria nos seus braços.
Observo há tempos, que todos os valores que sempre foram caros a paulistas e paulistanos, se perderam no meio de tanta cultura "externa". O próprio café, que sempre foi um orgulho paulista, que era servido forte e meio amargo, em copos de dose, passou a ser servido de acordo com o gosto nordestino, fraco, doce e em copo americano cheio, coisa que é absolutamente horrorosa.
Sob muitos pontos de vista, tendo pensamentos e atos progressistas, mas em outros, me reconheço como conservador, e creio que esse é meu ponto de equilíbrio. Há coisas que precisamos conservar, sim. Determinados valores que nos ligam às raízes, que são parte de nossa construção como ser humano. 
A decorrência disso, é que passei a me isolar dentro de casa. Sair, pegar ônibus e metrô virou uma tortura. A sujeira e a violência impregnada nas pessoas, que reagem sobre seus direitos, mas esquecem de reagir com a mesma força com seus deveres não é uma prerrogativa de São Paulo, mas dada a sua cultura plural demais, toma ares de quase esquizofrenia. Se alguém, como já aconteceu comigo, estiver parado do lado esquerdo numa escada rolante do metrô, é ofendido e maltratado, como se estivesse cometendo um crime contra os direitos humanos. Numa cidade como essa, todo mundo berra por seus direitos, desde o seu lado na escada, de pichar propriedade alheia, cagar na rua e ser, especialmente, violento.
O fato é que cansei da "mãe", cansei da "puta", cansei de ser maltratado dentro da minha própria casa. Quero de volta minhas raízes, quero de volta a minha paz. Coisas que sei que neste lugar nunca mais encontrarei. Alguns caminhos estão abertos, algumas portas se abrem. Não sei ainda onde essas portas e caminhos me levarão, mas uma coisa é certa: deixo essa terra. Non dvcor dvco. Longe daqui.

09/07/2018

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