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13/07/2018

Tercetos Tortos de Primogênitos Mortos

Tercetos Tortos de Primogênitos Mortos
Barata Cichetto

1 -
Eu, que fui abortado antes mesmo da concepção
Neto de José o empreiteiro e de dona Conceição
Um feto eu não seria, mas apenas outra decepção.

Eu, que sofri dores do próprio parto, a dura rendição
Expulso dos seios, das bucetas e casas de prostituição
Sabiam que eu era o espelho de sua própria maldição.

Eu, que fui posto na rua sem nenhuma outra opção
Negado por seis vezes e enforcado sem condenação
Mas estar vivo era minha única forma de sonegação.

2 -
Eu, que fui maior antes de crescer, subi antes de descer
Jogado na rua vencia, mas sabia que não podia vencer
Pois jamais me permitiriam ter o que fazia por merecer.

Eu, que obedecia a tudo o que era proibido de obedecer
E desobedecia à lei dos belos e dos que queriam aparecer
E à margem do mundo, restava-me apenas o desaparecer.

Eu, filho de quem não conhecia, não podia me esquecer
Sabia de muito e nada mais, então, eu poderia conhecer
E assim fui escondido, antes do primeiro dia amanhecer.

3 -
Eu, que diante do tributal fui condenado sem direito
Agora grito que fazer o certo sempre foi o meu defeito
Não aquilo que eu queria, mas que tinha que ser feito.

Eu, que fui jogado às moscas por um inseto imperfeito
Busquei nas lendas meu futuro e no pretérito o perfeito
Sem saber que era preciso antes eleger um bom prefeito.

Eu, que escondido nas entrelinhas de um oculto sujeito
Tracei em linhas tortas o que foi chamado de preconceito
E eu nem sabia o que era a dor de andar nu e insatisfeito.

4 -
Eu, que das trevas fiz a própria luz, e do medo a coragem
Fui despachado na estação sem dinheiro, e nem bagagem
E ainda disseram que minha dor era uma imensa bobagem.

Eu, que dei de comer a porcos, e alimentado com lavagem
Sabia que ninguém é feito por semelhança a uma imagem
E que ninguém é passageiro, mas condutor de sua viagem.

Eu, que do trabalho fiz conduta, condenado por vadiagem
E enquanto minhas cicatrizes cresciam feito tosca tatuagem
O escolhido sorria sem que percebessem sua vagabundagem.

5 -
Eu, que não sou o bem, mas muito menos o mal encarnado
Tenho a energia do vento e a força herdada de um tornado
Encontrei a muita gente perdida, antes de ser abandonado.

Eu, que poderia ser um rei, fui deposto antes de entronado
Usurparam-me a coroa, fazendo-me de demônio condenado
E agora na partilha das almas, resto apenas como o finado.

Eu, que pela natureza pura sou impuro, sofro indignado
Por negação dura, vago pelas ruas por loucura dominado
E ainda cometo minha poesia morrendo de dor alucinado.


6 -
Eu, que sou apenas um predicado sem sujeito
Simples, composto e oculto, é do que sou feito
E nenhuma sentença determina meu conceito.

Eu, que não sou bala, confete, e nem confeito
Um pouco amargo, nada do que seja perfeito
Renego seu afago, nada que possa ser desfeito.

Eu, pretérito preterido do indicativo imperfeito
No travesseiro duro do passado busco o desfeito
Busco nas entrelinhas das frases ser do meu jeito.

7 -
Eu, que fui o meu próprio pai, a imagem e semelhança
Não pareço com ninguém qual ainda tenha lembrança
E sequer tenho olhos claros para ostentar como herança.

Eu, que a doença diverte feito um brinquedo desde criança
Fiz da morte a crença e a porcos dei de comer a esperança
Pisei nas sandálias de Deus e nunca dancei a mesma dança.

Eu, que tive o coração arrancado, empacoto minha mudança
E sem eira e nem beira, apenas o desespero tendo por fiança
Termino do jeito que comecei, como o alvo de uma matança.

8 -
Eu, que nunca fui enxergado feito ao glaucomatoso
E às cegas, sem ser pederasta, fui ser macho culposo
Soube pelas entrelinhas fofoqueiras que era famoso.

Eu, que teria desistido pela doença do mentiroso
Enxerguei às expensas da crente o ódio insidioso
Mas agora sinto que chegou a hora de ser o idoso.

Eu, que com a idade sinto um tumor gangrenoso
Abandono a cidade com o humor do monstruoso
Buscando fugir ao rumor e do meu circulo vicioso.

9 -
Eu, que uma peste fui feito em forma de gente
Soterro meu coração nas sepultura da serpente
E na morte encontro a sanidade de um doente.

Eu, parte homem, parte espírito de um indigente
Nunca encontrei abrigado nas asas de um parente
E agora, encontro na morada o sol independente.

Eu, que sempre fui eu, apenas outro ser diferente
Deixo para trás toda a injustiça, parca e demente
E traço meu destino, seguindo sempre em frente.

12/07/2018

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