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01/08/2018

Em Casa de Barata Não Entra Lobisomem

Em Casa de Barata Não Entra Lobisomem
Barata Cichetto


Aquele a quem (nunca) chamaram de pai, nem de filho, não mora mais ali. Nem aqui. Mora acolá, na Morada do Sol.  Não mora mais na arte que construiu, não mora na escultura; não mora mais onde suas mãos calejadas e sangrentas construíram. Não mora mais no seu sonho, não mora mais lá, no pesadelo. O poeta que nunca leram não escreve mais lá, apenas algumas manchas do seu sangue estão esparramadas pelas paredes e pingados pelo chão. Misturadas às lágrimas. Deixei cada pedaço de madeira, cada prego e cada parafuso para trás. Fui escorraçado, pisoteado e humilhado - não pela primeira vez, mas juro que pela última - Ali podem encontrar meu primeiro quadro pintado, na parede. Ali podem encontrar quilos e quilos de papel e papelão, besteiras de decoração, pedaços de coração, e também alguns nacos da minha carne e dos meus músculos que rasgaram.  Não, o poeta que nunca leram, o poeta que nunca entenderam, não morreu, nem foi ao Inferno. Nem voltou. E agora sabe que o Inferno tem muitas paredes, e o Demônio caras diferentes. E mil dentes. Há o Inferno e existem os outros. São coisas distintas. Doravante, seguirei. Irei. Serei. Sempre sozinho como sempre fui, de fato. Mesmo que não esteja só. Trago comigo minhas filhas felinas, aquelas que sempre entenderam o que é liberdade, que sempre souberam o que é lealdade, que sempre souberam me olhar com carinho e respeito. Que sabem reconhecer cada gesto que faço. Minhas gatas não são comunistas, entendem de afeto, de reconhecimento e de merecimento. Aquele cantor que nunca ninguém escutou, agora calado, não lhes cantará uma canção. Ele já não tem coração. Nem adoração. Desfigurado, o poeta ludibria a própria morte. Esguicha sangue do corte. E resvala na beira do precipício. Não há caminho por onde não se possa andar. E aquele homem, que nunca foi distinto, que nunca usou um distintivo de autoridade, já não mora mais, não namora mais. Não chora mais. Morar e chorar rima com sonhar. E aquele que pediu socorro se cala. Diante de seu silêncio. A nova geração herdará a merda. Tudo se herda! E sem perda não há ganho. Dividir para conquistar é a tática marxista. De Karl e de Zuckemberg. Não quero preces. Nem foices. Nem martelos. Quero apenas o que é meu. Foi assim que ensinei. Foi assim que vivi. Foi assim que aprendi. E surpreendi. A mim mesmo por não saber ganhar. Perdi sem ser perdedor. Meus heróis estão na Academia. Brasileira de Letras. Na Feira de Paraty. Ou são membros da quadrilha. E eu, numa ilha. Náufrago que queima agora as ultimas caravelas.Não tem retorno. Nem rendição. Apenas a conquista. Ou a morte. Com sorte um império. É sério. Não sei mais rir. Nem chorar. Não lembro mais como se faz. Só quero que esqueçam. Deixem de procurar. Rasguem a certidão. Foi morrendo que aprendi a ser homem. Aquele a quem nunca escutaram, de quem reclamaram falar demais agora se cala. E Tudo o que foi criado foi destruído; toda a fidelidade traída; todo o trabalho prostituído. Dos envelopes pelas ruas, projetos de brinquedos, à poesia e pintura. Todos os meus heróis morreram ou foram para a Academia. O resto também me ignora como eu ignoro a eles. Quem precisa de construtores? De sonhos ninguém. Quem precisa de poetas? De poesia ninguém. Quem precisa de mim? Eu preciso. E dedicarei minha vitória e minha derrota àqueles que nunca precisaram de mim. Arrombaram a porta dos meus sonhos. Não precisava, eu lhes daria a chave. Um rei continua sendo rei sem um palácio. Lembrem-se disso quando chorarem. Saudades é coisa de capitalista; comunistas não sentem saudades. Só maldades. Mas eu tenho amigos comunistas que sentem saudades de mim. E eu deles. Invadam a minha construção. É sua herança e minha satisfação. Construí sobre a Terra. E a Terra não tem dono. Proprietário é o que constrói. E eu construí. Exerçam seu direito de herança, e façam o que eu não fiz: derrubem as paredes, taquem fogo na madeira. Incendeiem tudo. Eu lhes dou permissão para invadir. Pilhar. Destruir. Restaurem a dignidade. E ao restarem farpas, matem os lobos. Não uivem na esquina em vão. Entre o vão e a plataforma há um anão. De olhos claros e cabelos brancos. Anão moral. Impotente e preguiçoso. Coloquem um velho bêbado na cadeira de rodas e o empurrem ladeira abaixo. Há tipos e tipos de velhos. Inclusive velhos porcos, daqueles que acham que são humanos. São esses os piores. Não poupem suas balas. Prefiram as de hortelã. Atirem para matar. De rir. Ademais, não lhes dou o endereço, nem o código de endereçamento postal, nem o de barras. De chocolate. Visitem a mansão dos mortos, enquanto queimo nos portos as caravelas. As caravanas que passam atropelam os lobos. Pedras que rolam viram poeira. E eu continuo sem beira, nem beira. À beira. Do cais. Cães que ladram. Cães de guerra. Selvagens da Terra. Acordem, crianças, que não há mais onde pisar. A terra não aguenta mais seu peso. Deixem que afundem. Em Agosto. Cuspiram em meu rosto. E a contragosto fiquei calado. E em Setembro, se ainda lembro, serei falado. Até Outubro serei alado. E depois jamais será o antes. Nunca mais. Deixem seus recados após o sinal. Tu-tu-tu-tu...
28/07/2018

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