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10/01/2019

Polímata: Homem do Mundo


Polímata: Homem do Mundo
Luiz Carlos Cichetto

"Seria muito bom  / Seria muito legal / Se cantor ou compositor / Pudesse ser ator ou jogador de futebol..." - Benito de Paula - "Assobiar e Chupar Cana"


É difícil á geração acostumada a facilidades tecnológicas, às frivolidades lógicas, e à inutilidades afetivas, entender o que é um Polímata[i]. Aliás, a maior parte da geração nascida no final do século passado, sequer conhece o significado do termo, mas aí é outra questão.

O "Homem da Renascença[ii]", um modelo de versatilidade que procurava ir muito além de um simples fazer alguma coisa razoavelmente, buscando fazer muitas coisas excepcionalmente, foi praticamente extinto. Facilidades e interesses políticos espúrios o aniquilaram.

Há um claro interesse, especialmente aos pregadores do coletivismo, em que tal modelo de ser humano desapareça, afinal, pregam a "igualdade" e, portanto, uma pessoa que se sobressaia a partir do exercício de inúmeras artes e ofícios, é simplesmente uma prova farta de que seu sistema não funciona. E nesse rol podemos incluir todos os vendedores de ilusão ligados à teorias marxistas-comunistas-socialistas, que pregam a quebra de autoridade como paradigma com intuito de atingir seu intento.

Leon Battista Alberti[iii]disse: "um homem pode fazer todas as coisas que quiser", considerando assim que o Homem é um ser forte e ilimitado em suas capacidades, e que deveria abraçar todo o conhecimento e desenvolver as suas capacidades ao máximo. E há muitos exemplos de tais pessoas, especialmente até o século XIX, exemplos que diminuem em escala gigantesca, a partir da segunda metade do século XX, e que tendem a desaparecer no atual. O maior deles, sem dúvida foi Leonardo Da Vinci.[iv]

Outro belíssimo exemplo de polímata é Michelangelo[v], fartamente conhecido como pintor e escultor, mas que foi também arquiteto e poeta, entre outras coisas. Um exemplo disso é o poema abaixo reproduzido.

Para Dante Alighieri [1545]

Desceu do céu e, em trajo de mortal,
após o inferno e o reino piadoso,
só contemplou Deus todo-poderoso,
pera nos dar de tudo a luz real:

estrela que em seu brilho essencial
o ninho onde nasci fez luminoso;
nem fora dom o mundo tam danoso:
só tu, que a criaste, havias de ser tal.

Digo de Dante, que inda pouco amiúde
as obras lhe conhece o povo ingrato,
que só aos juntos falta ter saúde.

Mas fosse eu ele! Com tal fado nato.
no áspero exílio seu, e co a vertude,
daria ao mundo o mais feliz retrato.

Michelangelo: Cinquenta Poemas, Ateliê Editorial (2008), Tradução Mauro Gama

No Brasil, pessoas como Dom Pedro II, José Bonifácio e Santos Dumont são exemplos claros de polímatas de séculos passados, mas um dos poucos recentes, Enéas Carneiro[vi], foi ridicularizado, afinal, a ideologia de esquerda cada dia mais presente, através do marxismo cultural nas escolas e meios de comunicação, precisa aniquilar com qualquer forma de exemplo contrário.

Foi graças especialmente à polímatas que atingimos o grau de desenvolvimento tecnológico e social atual, mas o ser humano do século XXI, em sua arrogância e prepotência, acredita que as coisas sempre foram assim, que tudo sempre funcionou dessa forma, e particularmente os comuno-socialistas acreditam que tudo foi fruto do "coletivo", numa clara má fé em ignorar propositalmente o significado do termo, e mais especialmente tentando demonstrar que não existe um "individuo", num ato de des-humanidade que vai contra o princípio básico da própria existência humana.

O polímata, ou "Homem da Renascença" é um ser capaz de atuar, e bem, em várias áreas, muitas vezes distintas, empregando apenas e tão somente esforços próprios, contribuindo assim para o "coletivo". Claro que nem todos os "produtos" tem exatamente o mesmo nível de excelência, mas todos conservam sempre uma qualidade acima da média, já que tal indivíduo sempre prima pela qualidade de seu trabalho.

Claro que tal espécie de ser humano acaba por se tornar um perigo iminente aos que querem nivelar todos os seres humanos num patamar único, preferencialmente baixo, para que possam assim ter o controle total. É a única forma de se implantar seu amado coletivismo, e através dele alcançar seus intuitos nefastos. É por tal razão que a primatia é desestimulada nas escolas e em qualquer meio de comunicação.  O "protagonismo" na educação é um exemplo claro, pois estimula a "participação social", transformando a criança num ser apenas como parte de uma sociedade, deixando de lado qualquer iniciativa de protagonismo efetivo, ou seja, o indivíduo como estrela de seu próprio espetáculo. Ayn Rand[vii], no célebre "A Nascente[viii]" ilustra bem isso: "E somente porque viveu para si próprio é que o criador pôde conquistar as coisas que são a glória da humanidade. Essa é a natureza da conquista.".

Ademais, a existência de pessoas com multiplicidades intelectuais e artísticas, e que tenham capacidade de produzir prédios e máquinas, tão bem quanto escrevem poemas e fazem pinturas, que produzam ideias e pensamentos tão bem quanto cálculos matemáticos, que conheçam tão bem leis quanto literatura, que joguem futebol tão bem quanto projetam um avião, e que, enfim possam servir de influência e motivação a outras, incorre num perigo aos que tem sede de poder absoluto, pois naturalmente essas pessoas seriam líderes naturais, que criariam outros líderes naturais, assim por diante, o que faria ruir, de fato, as estruturas baseadas no líder imposto à força ou por mecanismos fraudulentos.

A existência desses "superseres", que em princípio seriam tratados assim, mas que depois, baseado em dois outros pilares da existência humana, que são a competição e a vaidade, num ato natural passariam a ser imitados e superados, criando assim uma cadeia criativa infinita, que traria benefícios incalculáveis a toda a humanidade. Acontece que os pregadores da mentira da igualdade seriam rapidamente desmascarados e, portanto agem com eficiência para desestimular.

A partir do início do século XXI, ainda dentro da primeira década, a criação das chamadas "redes sociais", foi, digamos, a pá de cal sobre o túmulo do polímata. Seu mecanismo de funcionamento instiga e premia a todos, baseado da premissa básica do "coletivismo", que nesse caso significa que todos tem a mesma voz ativa, fazendo com que, aquele que por esforço, dedicação, maior capacidade, até mesmo por predisposição genética, seja colocado na mesma baia dos preguiçosos, aproveitadores e insanos, que nunca ergueram um dedo sequer para melhorar intelectualmente. A decorrência inequívoca é o desestímulo dos primeiros e a arrogância dos segundos. Quem ganha com isso? Claro que quem criou o sistema, ou seja, a máxima que diz que no jogos quem ganha no final é sempre a banca, que tem que fingir que, no jogo, as chances são iguais a todos. Quem perde com isso? Primeiro perdem os jogadores, mesmo os que têm a ilusão de ganhadores, segundo e pior, perde a humanidade inteira.

Falando em jogos sujos (embora todos os jogos os sejam, mas alguns mais sujos que os outros), a existência de seres polímatas é também uma ameaça à parte burra do capitalismo, já que não há interesse algum em que se tenha apenas um desses, com atividades polivalentes de qualidade geral média alta. A esses interessa mais ter meia dúzia de medíocres, com qualidade geral medíocre, criando assim, segundo eles, um mercado maior, além do que, diminuiriam com isso a capacidade de negociação, aumentando ainda mais seus lucros.

Robert Root-Bernstein[ix],  professor de fisiologia na Michigan State University já foi agraciado com a bolsa MacArthur Fellowship, conhecida como uma “bolsa para gênios", diz que "criatividade não precisa ser limitada a uma única disciplina embora certamente possa ser", refletindo em seus estudos que compreender a polimatia pode ajudar a fornecer um novo modelo para promover uma educação mais inovadora.

Em contraponto a isso, seguidores de Paulo Freire[x], cuja doutrina educacional é baseada em pilares do comunismo, e tendo como influenciadores Karl Marx e Antonio Gramsci[xi], ao propor, desde a tenra infância o antagonismo, incentivando entre outras coisas não apenas a luta de classes como também a divisão social, resulta na quebra de autoridade, nesse caso representado pelo professor, que nesse ponto é colocado do lado do "opressor", gerando assim uma série de eventos que chegam até a violência física. A pedagogia da libertação, em resumo, propõe e estimula a mesma coisa que afirma combater: a divisão para oprimir ("nós contra eles"), a invasão cultural (já que parte de premissas externas), a conquista (o paternalismo), e por fim a manipulação (ao tentarem assegurar que a sua é a única forma válida, não dando oportunidade a que o aluno tenha outra forma de pensar a não ser aquela).

Claro que dentro de uma estrutura educacional dessas, que foi implantada aos poucos desde aos anos 1970 no Brasil, qualquer forma de polimatia é desestimulada, e até mesmo punida, já que, por natureza, ao transitar por diversas áreas, o polímata decerto confrontaria fatos e argumentos, usando inúmeras áreas de conhecimento, e fatalmente desmontaria tal falacioso sistema educacional, que serve não a uma sociedade, mas a uma causa, e que forma não um cidadão, mas um ser que passará a não buscar seu próprio crescimento individual, e com isso conquistar mais e mais espaço dentro da sociedade, mas partir da premissa de que pode ter tudo o que quiser, já que todos são iguais, sem precisar esforço, e agir com violência até, para ter o que não lhe pertence por incompetência ou preguiça.

Por fim tal ser, produto dessa educação criará um ódio profundo a todos aqueles que, por esforço próprio, dedicação e busca de oportunidades, conquistou algo que ele não tem. Em outras palavras, esse sistema muda apenas o nome do "opressor", quando a única forma de "libertação" é a de dentro para fora, e se dá através do crescimento intelectual, dando assim as armas para que um ser humano possa escolher a quem servir, ou por quem quer ser servido, desde que haja consentimento das partes.

Outrossim, muito da forma "antiga" de educação também tinha falhas monstruosas. Na minha época de "ginásio", no inicio dos anos 1970, tínhamos matérias como "Práticas de Escritório" e "Técnicas Comerciais", destinada a "formar" funcionários de escritório, bancários, coisas assim, além de aulas de "Religião" (Católica) e "Educação Moral e Cívica".  As aulas de Música e Filosofia foram retiradas, o que denota uma intenção clara de inibir artes e pensamento crítico. As matérias eram ensinadas por professores que aplicavam castigos físicos no maus alunos, e eram até mesmo incentivados pelos próprios pais.

Então, confrontando as duas formas, resumidamente, saímos de uma educação voltada para alvos errados, formando empregados, e com professores que batiam em alunos, para uma também voltada para alvos errados, formando capachos políticos, e com alunos batendo em professores. Ambas se baseiam no especialismo e na superficialidade. Uma preparando o aluno para servir ao sistema capitalista, como subalterno e escravo, e o outro para servir a um coletivo socialista, também como subalterno e escravo. E parece-me que a preparação de um ser humano para servir a si mesmo antes de servir a outros senhores não entra na conta desses "pensadores". Um Homem preparado para servir a si mesmo, com certeza servirá melhor ao conjunto da sociedade do que um manipulado para servir a outrem, pois esse será de fato um ser liberto. E quando se sentem livres, os seres humanos por natureza tendem a criar, produzir mais, beneficiando assim toda a humanidade.

Por que razão os responsáveis pelos rumos da educação não dirigem os métodos para a criação de seres humanos dignos, capazes, sim, de fazer suas próprias escolhas, uma educação voltada ao empreendedorismo, ao conhecimento amplo, incentivando todas as formas de pensamento individual?  Seria pedir demais que se encorajasse a polimatia? Ou seja, um sistema educacional que não restringisse um ser humano a uma mera capacitação, mas que ampliasse suas possibilidades desde o berço, explorando ao máximo sua capacidade.

Antes de um "ser social" ou um "animal político", como definiu Aristóteles[xii], somos seres humanos, unos, individuais. Todos gostam de ser chamados por seus nomes, todos gostam de ser notados, todos gostam de se sentir melhor. E é essa coisa chamada vaidade que gera a competição, tão combatida por coletivistas, mas que no fim foi o que trouxe a humanidade até o patamar em que nos encontramos, inclusive com a tecnologia usada para tentar provar que somos todos iguais. É a competição a mola mestra da evolução humana, é a competição a razão de ser da humanidade, desde a concepção, na corrida dos espermatozoides. Renegar a competição e principalmente negar o mérito aos melhores competidores é um crime contra a própria humanidade. É como se todo organismo humano resolvesse que todos os espermatozóides seriam iguais e portanto deveriam ter o direito de chegar ao mesmo tempo e fecundar o óvulo, ou ainda, que nenhum espermatozoide chegaria ao óvulo antes de outro. Com o tempo a própria estrutura do organismo deixaria de produzir espermatozoides, como no processo decorrente da vasectomia. Então, em palavras mais simples, destituir a competição do ser humano e condená-lo à extinção.

Com efeito, a polimatia cria, indubitavelmente, uma maior independência do indivíduo em relação a tudo que lhe serviria de amarra, portanto, um efetivo valor de liberdade. Em situações extremas, quando mais conhecimento uma pessoa tiver sobre a maior quantidade de coisas possíveis, menor será sua margem de erro, portanto menor seu risco. Até mesmo guerrilheiros valorizaram tal premissa, incitando seguidores a terem conhecimentos diversos, reduzindo as chances de serem apanhados, como o próprio Carlos Marighela[xiii], que coloca entre as prerrogativas de segurança a multiplicidade, em seu "Mini Manual do Guerrilheiro Urbano"[xiv]. Morto pelas forças de segurança do Regime Militar, ele pode também ser considerado um polímata, já que era político, guerrilheiro, poeta e professor.

Um dos fatores preponderantes a extinção do "Homem da Renascença", claro é a velocidade dos tempos e as necessidades inerentes a uma sociedade cada vez mais exigente, em que tudo tem que ser rápido e objetivo, e portanto, especializado. Mas há outros fatores. O cérebro humano tem, como nossos discos de computador, espaço determinado, e suas "gavetas" tem capacidade de armazenamento limitadas. Então, o que tínhamos há cem anos para guardar nessas gavetas e processar nesses cérebros? Efetivamente muito menos coisas que temos atualmente.

Não existiam tantas distrações, que é o que piora tudo. Por exemplo, coisas como televisão, e todas as milhões de distrações que ela proporciona, computadores, celulares, apelos urbanos em geral, carros e uma infinidade de coisas modernas que exigem a atenção, processamento e arquivamento no cérebro acabam por saturá-lo com coisas que, no fim, são efetivamente inúteis, fazendo com o espaço que poderia ser usado para construções intelectuais importantes, criações artísticas, e outras que poderiam efetivamente resultar em aprimoramento e crescimento humano sejam relegados a segundo plano. Ou nenhum.

Ser um polímata, claro, exige muito esforço físico e intelectual, além de uma disposição febril ao aprendizado e a correr riscos, em áreas que, em princípios podem ser muito diferentes entre si. Mas a maior exigência, sem dúvida, é a disciplina, para poder priorizar, separar e organizar cada informação e dispensar qualquer informação ou parâmetro que não seja essencial. Ela será a responsável por priorizar cada atividade e definir o que entra em que momento. A disciplina será uma espécie de "personal trainer" do cérebro.

Muitos perguntarão qual é a utilidade de um polímata no século XXI, quando temos poderosa tecnologia capaz de armazenar informações em capacidades além do cérebro humano, quando temos tudo ao alcance dos dedos, dos olhos e ouvidos. Em termos mais simples: por que tenho que saber muitas coisas se tem a Internet? Minha resposta é simples, e dou como exemplo o livro "Farenheit 451", escrito por Ray Bradbury[xv]ainda na década de 1950. Na história, em um futuro fictício, os livros foram proibidos e quem portasse um seria penalizado severamente, mas um grupo de pessoas tinha, cada um em sua cabeça, um trecho de um livro, sendo que isso acabava formando uma rede humana absolutamente fantástica, pois essas pessoas tinham o compromisso de passar adiante seu conteúdo. Podem ponderar que tal rede, mesmo que usemos todos os seres humanos do planeta atualmente, seria insuficiente para armazenar todo o conteúdo do conhecimento humano, guardados em computadores monstruosos ao redor do mundo. Mas pense na importância, na relevância de toda essa informação, pense que a maior parte desse conteúdo é absolutamente dispensável ao ser humano, e que de fato, ele ficaria muito bem, obrigado, sem isso. Essa conclusão é a resposta da pergunta sobre a utilidade da polimatia.

Por fim, muitos questionarão o presente artigo, muitos se insurgirão contra conceitos apresentados, e especialmente, muitos colocarão em dúvida minha capacidade de fazê-lo, já que não tenho qualquer formação acadêmica em filosofia ou educação, áreas mais afeitas ao tema. Aliás, quando souberem que por banco escolar tenho apenas o Ensino Fundamental, muitos gargalharão e ridicularizarão minhas propostas e análises. E não me importo, por que sei que não foi feito a essas pessoas o presente, não foi feito para pessoas fechadas dentro de academicismos, preconceitos e dogmas, que não enxergam no acumulo intelectual e na pura e boa experiência humana. Essas fatalmente jamais entenderão, colocarão dúvidas e obstáculos, tentarão a todo custo a desmoralização, a demonização. Então, claramente jamais entenderão um polímata, e o valor real que ele significa para a sociedade em geral.

A desmoralização e desvalorização da experiências pessoais, especialmente daqueles que a acumularam de formas tão diversas, como é meu caso, é uma praxe na atual sociedade, principalmente por aquelas que se deixaram inocular por mentiras ideológicas. Afinal, uma experiência pessoal precisa ser ignorada e ridicularizada, pois ali se encontra a prova viva contra uma mentira que é contada aos mais jovens. O que resta, então a um Homem da Renascença em pleno século XXI senão ser deixado à morte?

Desde garoto sempre tive interesses diversos, e uma capacidade de aprendizado enorme. Nunca precisei ser coagido, sequer incentivado a ir a escola, e também nunca precisei ser, nem me senti, pressionado em provas. Tudo era muito natural. Fui crescendo e ampliando meus leques. Profissionalmente fui de "Office Boy" a Analista de Qualidade, de Desenhista Mecânico a Projetista de Brinquedos. Tive também umas duas dúzias de outras profissões distintas, e sempre buscando a capacidade e resultado plenos. Ocupei posições importantes em grandes empresas, desde responsável por informação e artes e até engenharia. No campo das artes, andei por todos as áreas da literatura, da poesia ao texto técnico, conto e da crônica ao ensaio musical ao romance. Dediquei-me a artes plásticas fazendo esculturas em madeira, posteriormente pintura; criei centenas de projetos de arquitetura e executei alguns deles. Com exceção aos serviços brutos de alvenaria, realizei todos os inerentes à construção civil, como eletricidade, hidráulica, carpintaria e marcenaria; ademais organizei eventos públicos, criando desde o texto de contratos até a elaboração de artes, escrevi letras de musicas e criei vídeos, milhares de programas e três emissoras de webradio, três revistas impressas e uma dúzia de digitais.. Num determinado momento criei uma editora, onde fazia todo o trabalho, da editoração a capa, da costura e colagem dos miolos até a venda. Construi cerca de duzentos sites de Internet, sem nunca ter feito um curso em qualquer dessas áreas. Minha polimatia, portanto, sempre foi acompanhada do autodidata. Sempre tive a necessidade urgente de aprender mais e mais, e coisas diferentes, e sempre me dediquei plenamente a cada atividade desenvolvida, e sem qualquer espécie de modéstia falsa, estou certo de que o resultado final é de ótima qualidade, certamente com exceções.

Desde muito jovem tomei o prazer pela leitura, que substituiria todos os outros prazeres normais da idade. Interessado por assuntos diversos, me dediquei durante a maior parte dos meus sessenta anos a inúmeros assuntos, especialmente os ligados às artes e à filosofia. Li muito dos grandes filósofos antigos e modernos, sem entretanto nunca me fixar em nenhuma corrente, e principalmente sem me preocupar em guardar nomes e datas. Sempre acreditei que o importante na filosofia era estudar, depois juntar tudo num liquidificador mental e então colocar algumas pitadas de raciocínio próprio e só daí tentar chegar alguma conclusão, que aliás, poderia ser mudada com a chegada de novas ideias e informações, e assim por diante.

O interesse particular pelo assunto filosofia, junto com minha disposição em aprender e apreender coisas diferentes sempre misturando áreas tão distintas como cálculos de engenharia, métodos de controle de qualidade, sistemas de administração de empresa, poesia, pintura, marcenaria, escultura, tecnologia, fez com que minha visão sobre o mundo e suas coisas fosse cada vez mais profunda, e eu me sentisse cada vez menos sábio, procurando sempre ir além e além, e além, misturando todas essas experiências em busca de um único resultado. Daí meu interesse pelo assunto. Daí, como resultado final o presente texto, que longe de ter a pretensão de ser um tratado sobre o assunto, longe da arrogância de afrontar pensamentos estabelecidos, mas usando de todo o meu desejo de ponderar e questionar tudo aquilo que seja sacralizado e instrumentalizado, especialmente pela política, cuja único objetivo é de escravidão. E quanto mais conhecemos, quanto mais soubermos realizar, quanto mais estejamos dispostos a aprender, maior será a realização enquanto ser humano. E real será a liberdade, baseada na independência do indivíduo, que é algo único em todo o Universo.

Jamais me sentiria um ser humano completo se houvesse me dedicado a uma única área de atuação, tanto que, ao contrário da maioria da pessoas que conheço, nunca tive, mesmo em criança, um objetivo, um desejo em ser qualquer coisa especifica. Meus "sonhos" sempre mudavam, e foram de Jornalista a Advogado, de Empresário a Jardineiro, e passando por uma série de outras profissões. E talvez até por isso, nunca tenha me disposto a cursar uma faculdade, coisa que possivelmente engessaria minha predisposição. Claro que, dentro de uma sociedade que cobra alto de quem não tem uma especialidade única sacralizada por um diploma universitário, o preço pago foi muito alto, fazendo com que as benesses me fossem sempre negadas e renegadas, como o presente texto possivelmente será, pois afinal o "Homem da Renascença" está há muito fora de moda, e é um ser que atrapalha a todos os intentos de poder de todos os espectros políticos.

O "Homem da Renascença" está morto. O polímata, o Homem do Mundo jaz sob os escombros da modernidade., onde possivelmente também jaz o próprio conceito de humanidade.

05/01/2019





[i] Polímata, segundo a definição clássica, é uma pessoa cujo conhecimento não está restrito a uma única área. Em termos menos formais, um polímata pode referir-se simplesmente a alguém que detém um grande conhecimento em diversos assuntos. Muitos dos cientistas antigos foram polímatas.
[ii] Renascimento, Renascença ou Renascentismo são os termos usados para identificar o período da história da Europa aproximadamente entre meados do século XIV e o fim do século XVI.
[iii] Leon Battista Alberti (Génova, 18 de Fevereiro de 1404 - Roma, 25 de Abril de 1472) foi arquiteto, teórico de arte, humanista, filósofo da arquitetura e do urbanismo, pintor, músico e escultor.
[iv] Leonardo di Ser Piero da Vinci, ou simplesmente Leonardo da Vinci (Anchiano, 15 de Abril de 1452 - Amboise, 2 de Maio de 1519), atuou em diversas áreas, como pintor, escultor, arquiteto, engenheiro, matemático, fisiólogo, químico, botânico, geólogo, cartógrafo, físico, mecânico, inventor, anatomista, escritor, poeta e músico. Entre outras coisas, além de ter pintado o quadro mais famoso do mundo, a "Mona Lisa", e a "Santa Ceia", concebeu ideias muito à frente de seu tempo, como o escafandro, o helicóptero, tanque de guerra, o uso da energia solar, uma calculadora, o casco duplo nas embarcações, e uma teoria rudimentar das placas tectônicas.
[v] Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni (Caprese, 6 de Março de 1475 - Roma, 18 de Fevereiro de 1564), mais conhecido simplesmente como Michelangelo foi um pintor, escultor, poeta e arquiteto florentino, considerado um dos maiores criadores da história da arte do ocidente.
[vi] Enéas Ferreira Carneiro (Rio Branco, 5 de Novembro de 1938 - Rio de Janeiro, 6 de Maio de 2007) foi médico cardiologista, físico, matemático, professor, escritor e político.
[vii] Ayn Rand, nascida Alisa Zinov'yevna Rozenbaum, São Petersburgo, 2 de Fevereiro de 1905 - Nova Iorque, 6 de Março de 1982), foi escritora, dramaturga, roteirista e filósofa norte-americana de origem judaico-russa, mais conhecida por desenvolver o sistema filosófico chamado de Objetivismo, e por seus romances, entre eles "A Nascente", "A Revolta de Atlas" e "Cântico".
[viii] A Nascente("The Fountainhead") Romance filosófico publicado em 1943. Com mais de 6 milhões de cópias vendidas no mundo inteiro, tem como protagonista o jovem arquiteto Howard Roark, que não aceita submeter o seu trabalho às convenções do meio.
[ix] Robert Root-Bernstein (7 de Agosto de 1953) é professor de fisiologia na Michigan State University.
[x] Paulo Reglus Neves Freire (Recife, 19 de Setembro de 1921 - São Paulo, 2 de Maio de 1997) foi um educador, pedagogo e filósofo brasileiro.
[xi] Antonio Gramsci (Ales, 22 de Janeiro de 1891 - Roma, 27 de Abril de 1937) foi um filósofo marxista, jornalista, crítico literário e político italiano. Escreveu sobre teoria política, sociologia, antropologia e linguística. Foi membro-fundador e secretário-geral do Partido Comunista da Itália. Criou a corrente de pensamento "Gramscismo" prega a mudança da cultura na sociedade em direção ao socialismo para mais tarde poder ser feita uma revolução comunista e através dela assumirem o poder.
[xii] Aristóteles (Estagira, 384 a.C. - Atenas, 322 a.C.) foi um filósofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande.
[xiii] Carlos Marighella (Salvador, 5 de Dezembro de 1911 - São Paulo, 4 de Novembro de 1969) político, poeta, guerrilheiro e escritor brasileiro e, a partir de 1964, um dos principais organizadores da luta armada contra a ditadura militar brasileira. Chegou a ser considerado o inimigo "número um" da ditadura.
[xiv] Trecho: "Um conhecimento de química e da combinação de cores, a confecção de selos, o domínio da arte da caligrafia e de copiar letras em conjunto com outras habilidades são parte da preparação técnica do guerrilheiro urbano, que é obrigado a falsificar documentos para poder viver dentro de uma sociedade que ele busca destruir."- Capítulo 3. Preparação Técnica do Guerrilheiro Urbano, por Carlos Marighella, 1969.
[xv] Ray Douglas Bradbury (Waukegan, 22 de Agosto de 1920 - Los Angeles, 6 de Junho de 2012, escritor americano que atuou como romancista e contista primariamente de ficção-científica e fantasia.