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17/07/2018

Esgoto

Esgoto
Barata Cichetto


Aquele que nunca é convidado a uma festa, nunca pode ser acusado de chegar atrasado. Já em um velório, não é possível culpar o morto. A festa acabou. O velório é na porta ao lado. Deixem suas mensagens no livro preto de visitas. E mantenham suas consciências tranquilas. Não me convidaram para a festa que deram. Não foram na festa que eu dei. Não os convido para o velório, então. Fico sozinho. Com os vermes e as velas. Tirem as rosas do meu caixão. Detesto todo tipo de rosas. Incluindo adálias e margaridas. E outras flores fedorentas, com cheiro de morte e solidão. Deixem os vermes. São meus convidados. Estão dentro de mim há tempos. Convidem as chamas. As damas também, menos as das camélias, que essas são flores também. Roubaram tudo o que eu tinha, roubaram até o que eu não tinha. Queriam tudo. Ficaram sem nada. Por que a única coisa que eu tinha era a mim. E me roubaram de mim. Me deixaram sem eu. Agora sou apenas um deus, um anjo do inferno. Meu caralho é minha lança e enfio no seu rabo. Não geme. Não grita. Cala a boca e me esquece. Não desce do ônibus. Continua seu caminho. Não olha para trás. Não me ligue. Não ligo. Não digo. Não diga. Não diga alô. Nem adeus. Não digo adeus. Não estou morto. Não sou morto. Mortos são todos que roubam de mim meu direito de ser. O que sou. Apenas o esquecimento será sua herança. Não busque na lembrança minha imagem. Que por semelhança é torta. Não ore. Não chore. Não adore. Sua sorte não é sua. É emprestada. Devolva. E pague os juros. Sua casa não é sua. Sua bunda não é sua. Devolva as calcinhas que roubou do varal da vizinha. Devolva o que roubou. Não a mim. A mim não precisa. Nada do que me roubou tinha preço. Empreste. Jogue. Queime. Engula. Morra. Escorra. Essas sentenças são tão extensas, e tão pouco extensas, mas foram feitas pelas minhas crenças. Se crê há. Se há crê. E se nada há, nada há de se perder. Nunca me perdi. Nunca perdi nada que não pudesse encontrar. Não me roubaste nada que eu não pudesse lhe dar. Não deixo lágrimas sobre a terra. Deixo apenas um nada enorme que jamais poderá preencher o buraco enorme que há no seu caráter. Não deixo nenhuma culpa atrás da porta. Pode arrombar a porta da minha casa. Pilhe o suor esparramado no chão, mas não se esqueça da maldição. Que nem todo o sangue podre poderá apagar. Não revise meus texto. Enfie no rabo seu pretexto. Foda-se o contexto. O sol é minha morada. Lá estou indo. Fique na tua escuridão.

17/07/2018

15/07/2018

Non Dvcor Dvco

Non Dvcor Dvco
Barata Cichetto


Eu nasci há sessenta anos, em São Paulo, uma cidade que na época ainda não era um gigante engolido pela ganância das oportunidades, uma espécie de New York de terceiro mundo. 
A cidade de São Paulo, nos anos cinquenta, que tinha completado quatrocentos anos de existência, ainda mantinha a predominância de imigrantes europeus, particularmente italianos, espanhóis e portugueses, mas começara a ser desenhada como uma cidade multicultural, que se tornou logo depois.
Filho e neto de paulistas e paulistanos, todos descendentes de italianos, cresci vendo essa cidade se tornar de poética á imunda.  A migração e imigração descontrolada fez a cidade perder seu charme, sua ousadia e sua poesia. Tornou-se uma cidade suja, emporcalhada e, para mim, perdeu tudo o que eu considerada valoroso.
Recentemente tomei um choque, com um fato que me aconteceu, ao entrar numa padaria para tomar um café: o balconista, com um sotaque nordestino carregado, me perguntou de onde era o meu sotaque. Só respondi que era daqui mesmo, mas me senti sinceramente desconfortável. E isso me fez pensar, analisando também outras coisas, que minha "mãe" já não me queria nos seus braços.
Observo há tempos, que todos os valores que sempre foram caros a paulistas e paulistanos, se perderam no meio de tanta cultura "externa". O próprio café, que sempre foi um orgulho paulista, que era servido forte e meio amargo, em copos de dose, passou a ser servido de acordo com o gosto nordestino, fraco, doce e em copo americano cheio, coisa que é absolutamente horrorosa.
Sob muitos pontos de vista, tendo pensamentos e atos progressistas, mas em outros, me reconheço como conservador, e creio que esse é meu ponto de equilíbrio. Há coisas que precisamos conservar, sim. Determinados valores que nos ligam às raízes, que são parte de nossa construção como ser humano. 
A decorrência disso, é que passei a me isolar dentro de casa. Sair, pegar ônibus e metrô virou uma tortura. A sujeira e a violência impregnada nas pessoas, que reagem sobre seus direitos, mas esquecem de reagir com a mesma força com seus deveres não é uma prerrogativa de São Paulo, mas dada a sua cultura plural demais, toma ares de quase esquizofrenia. Se alguém, como já aconteceu comigo, estiver parado do lado esquerdo numa escada rolante do metrô, é ofendido e maltratado, como se estivesse cometendo um crime contra os direitos humanos. Numa cidade como essa, todo mundo berra por seus direitos, desde o seu lado na escada, de pichar propriedade alheia, cagar na rua e ser, especialmente, violento.
O fato é que cansei da "mãe", cansei da "puta", cansei de ser maltratado dentro da minha própria casa. Quero de volta minhas raízes, quero de volta a minha paz. Coisas que sei que neste lugar nunca mais encontrarei. Alguns caminhos estão abertos, algumas portas se abrem. Não sei ainda onde essas portas e caminhos me levarão, mas uma coisa é certa: deixo essa terra. Non dvcor dvco. Longe daqui.

09/07/2018

13/07/2018

Tercetos Tortos de Primogênitos Mortos

Tercetos Tortos de Primogênitos Mortos
Barata Cichetto

Eu, que fui abortado antes mesmo da concepção
Neto de José o empreiteiro e de dona Conceição
Um feto eu não seria, mas apenas outra decepção.

Eu, que sofri dores do próprio parto, a dura rendição
Expulso dos seios, das bucetas e casas de prostituição
Sabiam que eu era o espelho de própria sua maldição.

Eu, que fui posto na rua sem nenhuma outra opção
Negado por seis vezes e enforcado sem condenação
Mas estar vivo era minha única forma de sonegação.

Eu, que fui maior antes de crescer, subi antes de descer
Jogado na rua vencia, mas sabia que não podia vencer
Pois jamais me permitiriam ter o que fazia por merecer.

Eu, que obedecia a tudo o que era proibido de obedecer
E desobedecia à lei dos belos e dos que queriam parecer
E à margem do mundo, restava-me apenas desaparecer.

Eu, filho de quem não conhecia, não podia me esquecer
Sabia de muito e nada mais, então, eu poderia conhecer
E assim fui escondido, antes do primeiro dia amanhecer.

Eu, que das trevas fiz a própria luz, do medo a coragem
Fui despachado na estação sem dinheiro, nem bagagem
E ainda disseram que minha dor era somente bobagem.

Eu, que dei de comer a porcos e alimentado com lavagem
Sabia que ninguém é feito por semelhança a uma imagem
E que ninguém é passageiro, mas condutor de sua viagem.

Eu, que do trabalho fiz conduta, condenado por vadiagem
E enquanto minhas cicatrizes cresciam feito tosca tatuagem
O escolhido sorria sem que percebessem sua vagabundagem.

Eu, que não sou o bem, mas muito menos o mal encarnado
Tenho a energia do vento e a força herdada de um tornado
Encontrei a muita gente perdida, antes de ser abandonado.

Eu, que poderia ser um rei, fui deposto antes de entronado
Usurparam-me a coroa, fazendo-me de demônio condenado
E agora na partilha das almas, resto apenas como o finado.

Eu, que pela natureza pura sou impuro, sofro indignado
Por negação dura, vago pelas ruas por loucura dominado
E ainda cometo minha poesia morrendo de dor alucinado.

Eu, que diante do tributal fui condenado sem direito
Agora grito que fazer o certo sempre foi o meu defeito
Não aquilo que eu queria, mas que tinha que ser feito.

Eu, que fui jogado às moscas por um inseto imperfeito
Busquei nas lendas meu futuro e no pretérito o perfeito
Sem saber que era preciso antes eleger um bom prefeito.

Eu, que escondido nas entrelinhas de um oculto sujeito
Tracei em linhas tortas o que foi chamado de preconceito
E eu nem sabia o que era a dor de andar nu e insatisfeito.

Eu, que fui o meu próprio pai, a imagem e semelhança
Não pareço com ninguém qual ainda tenha lembrança
E sequer tenho olhos claros para ostentar como herança.

Eu, que a doença diverte feito um brinquedo desde criança
Fiz da morte a crença e a porcos dei de comer a esperança
Pisei nas sandálias de Deus e nunca dancei a mesma dança.

Eu, que tive o coração arrancado, empacoto minha mudança
E sem eira e nem beira, apenas o desespero tendo por fiança
Termino do jeito que comecei, como o alvo de uma matança.

25/06/2018

Viver é Fatal!

Viver é Fatal!
Barata Cichetto

Eu queria acordar pensando que foi um sonho. Que durou sessenta anos. Queria olhar no espelho e enxergar um rosto de criança, escovando os dentes de leite, depois colocar as calças curtas, a camisa branca, os suspensórios de couro, e por fim a gravatinha azul, presa com elástico e com apenas uma lista indicando primeiro ano escolar.
Queria sair pelas ruas correndo e comendo tardiamente o lanche não devorado no recreio, e até tomar um homérico tombo numa rua de terra do bairro quase sem casas. Queria ficar satisfeito em saber que tudo aquilo que vivi nos últimos sessenta anos tenha sido apenas um sonho, e que eu ainda tenha esses mesmos para construir uma vida.
Queria andar pelas ruas do centro da cidade, com pressa para entregar pacotes e envelopes de uma loja de peças da Rua Florêncio de Abreu, depois andar pela Paulista recém-ampliada, soltar camisinhas cheias de ar, feito bexigas, pelas janelas do prédio, sobre o telhado de dois casarões dos tempos dos barões do café.
Queria pensar que tudo foi um sonho, que todas essas coisas que eu vivi, eu ainda não vivi. Queria acreditar que ainda tenho que viver tudo isso, ainda. E o que é melhor, viver tudo isso de forma melhor e diferente. Queria pensar que acordei hoje de um sonho de sessenta anos. E viver tudo de novo. Ainda ter tempo, ainda ter muito tempo. 
Acontece que a vida não é sonho, nem bem, nem ruim. Não é sonho. A vida é real, tão real quanto podemos entender e sentir por realidade. A vida é fatal.
E na fatalidade do viver, corro ao espelho e velho um rosto enrugado debaixo de cabelos e barba brancos, não há mais dentes de leite, apenas dentadura. E não há mais uniformes escolares, nem caminhos de office-boy. Há o cansaço, há a amargura de quem sempre procurou o ser, não o ter. Há a textura na pele como marcas e provas de que nada foi um sonho. Tudo é real. Tão real quanto se possa sonhar.
25/06/1958

08/06/2018

Burnout

"A síndrome de Burnout (do inglês to burn out, Algo como queimar por completo), também chamada de Síndrome do esgotamento profissional, foi assim denominada pelo psicanalista nova-iorquino  Herbert J. Freudenberger, após constatá-la em si mesmo, no início dos anos 1970. A definição é de um estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional."

"Burnout", é o segundo volume de contos escrito e editado por Barata Cichetto. São 25 contos, a maior parte totalmente inéditos e alguns escritos especialmente para a edição. Mostrando por que muitos de seus amigos o chamam de "Lou Reed Brasileiro", mesmo não sendo musico, ou de "Buk de São Paulo", o autor destila as mazelas e a solidão não apenas poética, falando de sexo, poesia e Rock'n'Roll, suas maiores paixões.
O livro estará a venda apenas em bancas de jornal da cidade de São Paulo, oferecendo assim uma oportunidade de bons ganhos a jornaleiros, uma classe de pequenos empresários que vem sendo destruída com a Internet.
Em Setembro de 2018.


28/05/2018

Íntegra do Texto do Livro "Barata: Sexo, Poesia & Rock'n'Roll"


 Íntegra do Texto do Livro "Barata: Sexo, Poesia & Rock'n'Roll", da Editor'A Barata Artesanal. Texto registrado no Escritório de Direitos Autorais.




 Barata:
Sexo, Poesia e Rock’n’Roll
(Uma Autobiografia Não Autorizada)

2012

Luiz Carlos “Barata” Cichetto


Manual de Consulta Sobre Mim Mesmo
Queria tanto falar sobre os livros que li, durante a maior parte do tempo, em um tempo que passou por cima de minhas costas feito um elefante de ferro. Foram milhares, estou certo. Mas deles pouco recordo, apenas títulos e autores. E não deveria ser assim, dos livros deveríamos lembrar tudo e esquecer os autores. É a prova de que estão errados aqueles que pregam que o que importa é a obra e não o autor. A vaidade humana é maior que tudo e nos restam apenas os nomes, sejam eles sob a forma de títulos ou autores de livros, discos, casamentos, transas... Ficam nomes, somem histórias e idéias. As pessoas morrem, mas as idéias não? Ficam frases soltas, foguetes lançados ao espaço, nomes de filmes... Nomes, nomes, nomes... Nomes são títulos e títulos são chagas, são marcas...
Enfileirados nas estantes, os livros mostram apenas os títulos e os nomes, mas sua alma permanece escondida. As estantes mostram nomes, apenas e nos contentamos em olhar os títulos dos livros que lemos um dia... Ou que nunca leremos. Livros perfilados numa estante, pessoas perfiladas nas ruas. Os livros na estante exibem nomes nas lombadas, mas as pessoas não exibem seus nomes nos rostos. São anônimos, sem nomes nem títulos. Dentro delas, escondidas, guardas, fechadas como em um livro guardado na estante, as histórias e as idéias.
Porra, não somos nomes nem títulos, somos histórias e idéias, somos livros, somos discos. Mas, espremidos feito livros em uma velha estante de madeira, com a lombada rota onde não se podem ler nem nomes nem títulos, ficamos parados, inertes e sem utilidade.
Acaso, como nos personagens do livro Farenheit 451 de Ray Bradbury, somos todos Homens-Livro, cada um lembrando um pedaço de um livro? Sim, guardamos dentro de nossas páginas histórias alheias, e por horas, do mesmo jeito que um livro tem gravado em si histórias dos outros e não conhece sua própria história, nos esquecemos de nós, de nossas histórias e contamos aquelas que nos contaram, que escreveram em nossas páginas. Somos sim, Homens-Livro, guardando pedaços de histórias alheias. E, portanto urge, que cada ser humano escreva seu próprio livro, contando sua história e suas idéias, para que ela não conste apenas nos outros livros de histórias alheias. Escritas da forma que quiserem.
E é esta a razão principal de eu ter escrito minhas memórias, que eu chamei de "Autobiografia Não Autorizada". Porque minha própria história, dentro da minha mente que envelhece, cansada, começa a ser apagada, como um velho livro em que as letras começam a sumir. E não admito que outros contem minha história em suas páginas, porque cada ser humano é sua própria história e suas próprias idéias. Nem bem, nem mal. Apenas História e Idéias.
E quem sabe, num futuro próximo, quando eu não lembrar mais de mim, de minhas histórias e de minhas idéias, possa a esse livro recorrer, como um manual de consulta sobre mim mesmo.
Luiz Carlos Barata Cichetto
20/04/2012


Introdução
Quando eu comecei a escrever este texto, a intenção era ser um artigo curto sobre shows de Rock que eu tinha estado. Algo sucinto e cronológico. Começara a ter certa dificuldade em lembrar desses fatos e então decidi escrevê-los, com o intuito maior de deixar registrado, para que além disso, caso no futuro minha memória definhasse definitivamente, eu tivesse algo para lançar mão em minhas recordações. Quem sabe ao redor dos netos, quem sabe à beira da morte... O Rock era o pano de fundo, o gancho e o fio condutor dele. Apenas isso.
Mas a memória humana é algo muito estranho e outros fatos começaram a brotar de algum canto escuro e esquecido da minha mente e comecei a lembrar de coisas que há muito não faziam mais parte do meu consciente. E assim nasceram essas memórias, recheadas de relatos e impressões, não apenas sobre Rock, mas também dois outros dois itens que ao menos a mim, formam uma Trilogia Essencial: a Poesia e o Sexo.
São relatos de cerca que 40 anos, a partir do momento da minha descoberta primeiramente do Rock, passando pela Poesia e por último o Sexo, até chegar aos dias de agora. Relatos francos, sinceros e realistas, sem frescuras nem rodeios.
Este texto é o meu primeiro texto em prosa a alcançar o “status” de livro e foi escrito em cinco dias. Toda a prosa que escrevi até hoje, milhares de texto estão sob a forma de crônicas e ensaios. Sempre resisti à prosa desta forma, por preguiça ou receio. E sempre preferi a Poesia, que acredito ser ainda a mais simples, mas a mais forte das expressões literárias.
Embora basicamente siga um fluxo cronológico, este livro tem suas viagens no tempo para frente ou para trás, dependendo das circunstâncias e do momento. E embora eu procure seguir e ser fiel aos fatos e datas, em muitas oportunidades poderei estar cometendo enganos, fruto de uma memória que agora teima em não lembrar de muitas coisas. E imploro ao leitor mais atento ou mais bem informado que informe de eventuais falhas históricas, principalmente com relação a nomes e datas. Escrevo este apenas de memória, tendo feito questão de não procurar informações externas... Por motivo pratico nenhum, apenas por querer que o texto seja um relato fiel... Ao menos fiel à minha memória....

§1
Minha geração foi uma das mais malditas de todos os tempos. E se não de todos os tempos, ao menos a maldita das malditas do Século XX. As gerações nascidas na primeira metade do Século criaram o rádio e a televisão, fizeram ou participaram de duas guerras mundiais e inúmeras revoluções culturais e artísticas ao redor do mundo. Evoluíram a medicina, os esportes, a política e as artes em geral. E foram essas gerações que criaram o Rock'n'Roll, uma espécie de filho bastardo do Blues com o Folk, como querem alguns historiadores, ou do o Jazz, como desejam outros. E principalmente, a geração nascida da Guerra (a Segunda Guerra Mundial) deu ao mundo gênios das artes e particularmente do Rock, como Janis, Syd Barrett, Hendrix, Pete Towshend, Zappa... Menos por acaso e muito certamente por terem sido gerados e trazidos ao mundo a meio a tanto medo, angustia e temor, essa geração carregou o mundo ao seu mais alto grau de evolução cultural e artística. Ao menos por um tempo, ao menos até serem mortos ou engolidos por uma guerra diferente daquela que os vira nascer, uma guerra em o que o importa não é quantos mortos resultam de uma ação, mas sim de quanto se ganha com ela.
Então, uma geração nascida entre 10 e 15 anos após o término daquele conflito que condenou milhões de seres humanos à morte e a humilhação supremas, surge a minha maldita geração. Em principio seria mais fácil nascer sem o temor de bombas e tiros sobre a cabeça, mas o temor dentro do qual nascemos era... O temor do "nada".  E particularmente no Brasil, terra sem nenhuma herança cultural forte, sem nenhum passado de lutas, um dos poucos países do mundo cuja "independência" não fora conquistada pelas armas, mas sim pela atitude vaidosa de um pseudo-imperador mulherengo, aquela geração nascida a partir da segunda metade dos anos 1950 até a primeira dos 60, fora determinada como a geração do medo... De tudo. Essa geração nasceu junto com o Rock'n'Roll, que pressupunha a luta por "igualdade, liberdade e fraternidade", mas logo aprendeu que essas coisas tinham sentidos distintos, em dois momentos da história: 1 - Proibidos, 2 - Comercializáveis.
A Geração Maldita, termo que doravante usarei ao me referir a minha geração, que hoje, nos primeiros anos da segunda década do Século XXI atingiu meio século de existência, era jovem demais para ter ido á Woodstock, por exemplo. Mas se tornou velha e dependente demais das sementes plantadas naquela fazenda americana, em 1969. No Brasil, essa Geração Maldita foi criança e adolescente alimentada pelo chumbo dos fuzis, o aço das baionetas e as porradas na boca dadas por "soldados armados, fardados ou não", como cantara Geraldo Vandré. Todos nós, aliás, apenas "caminhando e cantando e seguindo a canção... Braços dados ou não". Tínhamos apenas a herança de um sonho que não construíramos, tínhamos apenas a missão de continuar uma "guerra" na qual não tínhamos dado um tiro sequer. Em 1º de Abril de 1964, quando a maioria de nós ainda estava no Grupo Escolar, militares meteram o pé na porta de uma democracia já combalida e começaram a carregar um país inteiro, na época de cerca de uns 70 milhões de pessoas, a uma realidade de mentiras, dor, tortura e medo.
E crescemos assim, no medo, na angustia, na proibição de tudo, na educação fraudulenta e podre baseada nas estruturas mais doentias das mentes militares, com um ufanismo enfiado literalmente garganta abaixo. Corria muito sangue pelas ruas, daqueles que se dispunham, até mesmo com o risco de suas próprias vidas, a lutar contra aquilo... Mas nós, nós da Geração Maldita éramos apenas crianças, e de nada sabíamos, nem podíamos saber. Então, o que restara àquela Geração? Rock, apenas o Rock... Ao menos àqueles de classes menos favorecidas, pois a chamada MPB, queiram, gostem ou não, sempre foi elitista e nunca Popular, sempre refletiu os desejos e sentimentos de uma Classe Média. Uma classe que no Brasil sempre foi sinônimo da Síndrome das Varizes, ou seja, sempre pensou tinha sangue azul quando era mesmo portador de varizes. E o Rock dizia que era igual a nós. E não nos restava outro caminho a não ser... Segui-lo.

§2
Realmente não sei precisar quando foi que comecei a ter interesse por música... Por Rock, entretanto, tenho algumas referências históricas e temporais. A Música sempre foi o melhor veículo para se conduzir mensagens, propagar sentimentos e emoções. A impressão que tenho é que ela, a Música existia mesmo antes da própria humanidade... E acho que foi ela a criadora do ser humano, e não o contrário... Portanto acredito que se existe um Deus é a Musica, e se existe um Messias, o nome dele é Rock'nRoll.
E a Musica dentro de minha família existia sob a forma ainda de discos de 78 RPM que reproduzidos numa vitrola gigantesca enchia a sala com as vozes de Vicente Celestino e Nelson Gonçalves, além de óperas e cantores italianos, escutados por meu pai e da musica sertaneja (a real, ou ainda chamada de "moda-de-viola), por parte de minha mãe e avós paternos. Mas eram os anos 1960 e logo as vozes dos Beatles e da Jovem Guarda começaram a tomar lugar dos “cantores do rádio”. O perigo então se tornou iminente naquela humilde habitação da Zona Leste de São Paulo... E então, junto com Creedence chegaram outros... E outros e outros... Até que o perigo aumentou quando eu descobri minhas próprias estações de rádio, como a Difusora e a Excelsior...
Ainda no final dos anos 1960, ter uma TV em casa era luxo, imagine mais que uma. E então começaram as disputas familiares: Meus pais querendo assistir ao Silvio Santos na TV Paulista, antecessora da Globo em São Paulo. E eu queria mudar de canal, colocar na Record e  assistir aos "cabeludos" da Jovem Guarda e depois Perdidos no Espaço. Tenho ainda em minha lembrança uma imagem de Roberto Carlos saindo dos estúdios da emissora e tendo as roupas rasgadas pelas fãs que o esperavam na porta.
Um dia, um primo mais velho comprou um gravador "Crow" (ou seria "Crown"?) mono e com ele algumas fitas cassete... Jamais esquecerei a primeira fita que vi e escutei: "Joe Cocker"... E se minha memória não trai, 1970/1971. Revista Pop, comercial da calça US TOP, o primeiro “jeans” fabricado no Brasil (“liberdade é uma calça velha, azul e desbotada, que você pode usar do jeito que quiser). 1972 e meu primeiro emprego... Solas de sapatos gastas e o dinheiro do taxi pago pela empresa embolsados e devidamente trocado por um gravador Aiko, também mono... E posteriormente fitas cassete virgens, BASF, TDK... C60, C90... Um cabo feito por algum conhecido "gênio da eletrônica" e as fitas e discos dos amigos copiadas... O compartilhamento não era feito em apertar de teclas, mas de mão em mão, sem pudor nem crime.

§3
No principio de 1970, inicio do período de aulas, onde eu cursava a 2ª Série do ginásio, que hoje seria a 6ª série. Travei amizade com um camarada de nome Airton que gostava muito de desenhar. Um dia, num intervalo de aulas ele desenhava um retrato com lápis de cor azul escuro... Era uma mulher com a cabeça jogada pra trás e segurando um microfone... "Quem é?" "Janis Joplin, não conhece?" "Não!" "Ela morreu ano passado, cantava demais.". Paixão de primeira. Naquela semana, procurei um amigo que tinha muitos discos e perguntei sobre Janis. Ele esticou o braço, e de uma pilha no chão pegou um disco, "Kozmic Blues..." Colocou pra rodar... E acho que nem preciso contar sobre as sensações daquele momento...
1970 foi um ano intenso, dramático e emocionante. A mim, ao Brasil e ao mundo. No Brasil a Ditadura Militar atingia o auge da linha dura, com o General Médici tentando parecer popular posando para fotos simulando estar escutando futebol num rádio de pilhas. Era ano de Copa do Mundo e a maioria não tinha consciência dos fatos que aconteciam, tanto nos bastidores do poder, quanto da guerrilha que nesse ano sequestrara um cônsul e um embaixador em troca da libertação de presos políticos. Na metade do ano, o Brasil ganharia pela terceira vez a Taça Jules Rimet, que lhe daria direito a posse definitiva, se não fosse roubada da sede da CBF anos depois. 
Naquele ano, por algum motivo que não conheço, meus pais decidiram me matricular no Colégio Oswaldo Catalano, no Tatuapé, distante cerca de 8 quilometros de minha casa. E lá ia eu, no auge dos meus 12 anos, com uma mala pesada, lotada de livros e cadernos, à bordo de ônibus apinhados de gente. As finais da Copa, desde 1958, ano em que nasci sempre aconteciam nos dias do meu aniversário e naquele ano não fora diferente, mas no dia 21 de Junho, dia da final entre Brasil e Itália, a escola marcou a apresentação de uma quadrilha, com a obrigação de todos os alunos participarem. Eu sempre fui muito tímido e além do mais a parceira a mim destinada era uma horrorosa. Mas não tinha jeito. A tal quadrilha de festa junina aconteceu poucos minutos depois do término do jogo e nem pude, ao contrário da maioria, festejar. Aquilo foi um horror e ao que lembro errei todos os passos ensaiados para a tal dança. Sempre odiei essas coisas, e odiava aquela escola, pois apesar de seu uma escola pública, tinha entre os alunos uma maioria de filhinhos de papai. Naquela época, quando ter um carro era luxo, eu era um dos únicos a ir para casa a pé. Eram ricos a maioria... E verdadeiros bandidos, alguns... Lembro de uma dupla, Wagner e Jayme, que sentavam atrás de mim e passavam o tempo inteiro das aulas dando “estilingadas” com os dedos na minha orelha e tapas na minha cabeça. Uma dupla de marginais mesmo. Batiam em todos dentro da escola e chegaram a abusar sexualmente de um garoto de nome Wladimir, na frente de todos, no vestiário da educação física. Ninguém reclamava, ninguém fazia nada, pois dizia-se que eram filhos de gente “grande”.
E é claro que o inevitável aconteceu. Eu sempre fora excelente aluno e dois anos consecutivos, durante o primário, considerado o melhor aluno da escola, mas naquele ano, acabaria repetindo. E a justificativa da escola foi que eu era muito novo para estar na série seguinte. Mas aquele ano ficou mesmo marcado em minha memória por um fato que até hoje nunca consegui explicação.
Conforme relatei, sempre fui um ótimo aluno, sendo que até então nunca tinha faltado um dia sequer às aulas. Mas num sábado que era de reposição de aulas ou coisa parecida, decidi que não iria à escola. Chamei um amigo e como ficáramos sabendo da inauguração de um tobogã no Tatuapé fomos conferir. Pegamos um ônibus no bairro do Jardim Popular onde morávamos, em direção ao tal parque, mas eu me enganei e acabamos descendo alguns pontos antes, onde atualmente é a estação Tatuapé do Metrô. Caminhamos alguns metros pela Radial Leste e quando chegamos no inicio do Viaduto, avistei um garoto com uniforme do Catalano. O lugar na época tinha uma abertura nos muros da estrada de ferro que servia de passagem aos que vinham da parte de baixo, onde inclusive ficava a escola. No auge do meu dia de malandragem, decidi brincar com ele e me aproximei. “Cê estuda no Catalano?”, “Sim, estudo, sim!”, “Em que série?”, “Na 2ª. ‘O’.”, “Ah, não, nessa sala eu estudo e nunca vi você lá.”, “È que teve umas mudanças lá na escola hoje”. Eu e meu amigo continuamos nosso caminho ao tal tobogã, mas eu fiquei um pouco preocupado, certo de que ao chegar a escola na segunda-feira, existiriam mudanças, novos colegas de sala, essas coisas. Mas, ao chegar a escola na segunda-feira, nada! Nenhuma mudança tinha ocorrido, absolutamente nada tinha mudado. Os colegas, a sala, os professores eram os mesmos. Perguntei a algumas pessoas sobre o que ocorrera no sábado e todos foram unânimes de falar que nada, além de aulas chatas tinha acontecido. Passei os próximos dias, semanas, meses procurando aquele garoto, cujo rosto até hoje tenho em minha memória, mas nunca o vi naquela escola. O amigo que estava comigo ainda confirmou aquele encontro e eu cheguei a ir ao colégio em horário diferente do que estudava para procurá-lo. A única informação que tive é que naquele local teriam morrido muitas crianças, atropeladas por trens...

§4
Chegara 1973 e eu aos 15 anos... O dia era de carregar pacotes, envelopes, caixas, memorandos, pendurado nos ônibus lotados... À noite na escola, a rodinha começava a fumar e falar sobre Elton John, Creedence, Janis Joplin e ... Ah, não, não podia ser... Led Zeppelin... Led??? Hein? Isso! Led era algo como que o cume de uma montanha só atingida pelos deuses... E então, depois de mais algumas solas de sapatos, uma vitrolinha, de plástico Telefunken, também mono.... Uma caixa de biscoitos vazia e um alto falante arrancado de um rádio velho davam um reforço pseudo-estéreo no porão da casa do meu amigo... "Ah... Conhece esses caras? Quem? Slade! Slade??? É, Slade... Slade... Não... Então escuta esse disco, Slade Alive... Ah... Hein???! Puta que pariu, que som, quequeisso???!!!!".  E ali o perigo naquela humilde casa de subúrbio já não era iminente, era real. E foi naquele final de ano de 1973 que eu comprei meu primeiro disco de Rock: "Slade Alive!".  E muitos chegaram, muitos continuaram, muitos foram vendidos.. Mas todos, em sua essência, permaneceram.
1973 foi efetivamente o ano do Rock brasileiro. Nesse ano eu estava na 7ª série. Era o primeiro ano de uma reforma escolar que unia os antigos primário e ginásio. Eu tinha, portanto pulado da 2ª série para a 7ª de um ano para o outro. E nesse ano foi o estouro de um dos maiores, talvez o único real fenômeno do Rock do Brasil, o Secos & Molhados, uma mistura de Glam Rock, Psicodélico, MPB, Musica Portuguesa e uma centena de outras influências. Alcançou todas as mídias, tocando incessantemente no rádio, aparecendo na TV, jornal, revistas. Embutindo em suas letras criticas veladas à Ditadura Militar e belas poesias, a banda decerto foi a mais representativa do Rock brasileiro de todos os tempos. O Secos & Molhados rompeu fronteiras e tinha, além do trio principal, uma banda de apoio formada entre outros pelo argentino Willy Verdaguer e o guitarrista irlandês John Flavin, que viria mais tarde integrar a primeira tripulação da Patrulha do Espaço. Chamaram muita atenção até mesmo de empresários estrangeiros, a ponto de, segundo algumas matérias de jornal da época serem cogitados a lançar carreira internacional cantando em inglês. Segundo essas matérias, um empresário americano os procurou para o que seria um projeto que deflagraria na banda Kiss. Diante da negativa ele teria dito: "Os ingleses fizeram os Beatles, nós criamos os Monkees, agora vamos criar uma banda igual a vocês."  Lembro que por volta de 75  saiu uma matéria na Folha de São Paulo falando sobre isso. Em 2003 fiz uma entrevista com Gerson Conrad para A Barata e perguntei sobre isso e ele confirma essa história. E ainda com relação a isso, no inicio de 1975 entrei numa loja de discos e vi um disco exposto. "Disco novo do Secos & Molhados?", perguntei ao vendedor. "Não, é uma banda americana nova, o Kiss." As semelhanças eram imensas entre aquele primeiro disco do Kiss e o segundo e derradeiro do Secos & Molhados. Gene Simmons quando perguntado sobre isso sempre negou, mas nunca acredito em coincidências, primeiramente nesses casos. O fato é que, naquele final de ano de 1973, o amigo secreto da escola tinha um presente comum: a gente dava de presente um disco do Secos & Molhados e recebia outro. Foi uma autêntica febre.

§5
A Led Slay era uma criança habitando um antigo empório... E minha morada e namorada de fim de semana.. E no auge dos meus 15 para 16 anos um presente, o maior dos presentes que os deuses do Rock, a quem eu começara a cultuar me dariam: "Alice Cooper no Brasil". O real primeiro show de uma banda de Rock por estes lados.. Janeiro de 1974, depois de dormir a porta do Anhembi, ser quase massacrado e ficar a cerca de uns 500 metros do palco e não conseguir ver absolutamente um milímetro da ponta da cauda de Kachina fui pra casa feliz e orgulhoso... E no dia seguinte sentia-me tão bem, que depois do trabalho como continuo do Banco Commercio e Indústria de São Paulo, de paletó e gravata, fui parar num puteiro da Avenida São João...
De fato, aquele dia de Janeiro de 1974 era o da minha “inauguração” de macho. Embora tivessem existido algumas brincadeiras eróticas, totalmente inocentes, com algumas primas e vizinhas, sexo ainda algo que eu desconhecia. É importante lembrar que naqueles tempos os meios de informação eram totalmente exíguos e proibidos. As revistas eróticas não podiam mostrar as duas partes da bunda e os mamilos tinham que ser raspados e, tanto nelas quanto nos filmes eróticos, exibir pelos pubianos era totalmente proibido. As cenas de sexo eram apenas sugeridas. A “Educação Sexual” da Geração Maldita era feita por intermédio dos proibidos “Catecismos”, pequenas revistas, mal impressas e desenhados, basicamente de autoria de um tal “Zéfiro” , que eram vendidas às escondidas por jornaleiros que as escondiam em fundos falsos de pisos da banca. Os mais endinheirados podiam comprar revistas “suecas” coloridas, vendidas no mesmo esquema “criminoso”.
E então, lá fui eu, em direção à Avenida São João. Em frente ao conhecido como “Prédio da Pirani”, que tinha incendiado pouco tempo antes, as putas ficavam encostadas chamando aos clientes. Entre elas, Dalma, uma mulata de corpo liso, brilhante e cabelos cortados rentes, bunda grande e minúsculos peitos. Minutos depois estava eu, no 20º andar do Edifício Século XX, um prédio que abrigava quitinetes que eram alugadas e usada pelas “meninas da rua”, completamente pelado, vermelho e tremendo que nem tomate ao vento. Tateando aquele corpo moreno na quase total escuridão. A procura da buceta. É, eu nem sabia direito onde era... Ela percebeu minha inexperiência e tratou de guiar aquele moleque magrelo e desajeitado pelos caminhos do prazer. E que prazer! Talvezpor ter percebido que eu era um “cabaço”, Dalma se esmerou em seu trabalho, dando tudo o que tinha para mostrar o quão deliciosos eram os prazeres da carne. E garanto que conseguiu. A partir daquele dia, a Avenida São João, quase esquina com a Ipiranga seria meu lugar preferido e, mesmo antes de Caetano compor “Sampa”, muitas coisas aconteceram em meu coração, e em outras partes do meu corpo, nas suas calçadas mijadas, prédios imundos e esquinas tortas lotadas de putas.
A partir daquele final de mês, o perigo do Rock tomou outras formas, dentro daquela humilde... O dinheiro do meu pagamento no Banco, sempre e totalmente entregue a minha mãe passaria a ter, digamos, desfalques substanciais, transformados em LPs e Compactos... Além de revistas como Rolling Stone (a edição brasileira que durou pouco e era dirigida pelo genial filósofo Luiz Carlos Maciel), POP e posteriormente a melhor de todas de todos os tempos, a Rock, a História e a Glória, editada por Ana Maria Bahiana, Tarik e Okky de Souza e Ezequiel Neves (que na época assinava como Zeca Jagger e nem sabia que um dia Cazuza apareceria em sua vida, achando que o Made In Brazil era o Rolling Stones brasileiro)...
E foi nessa época em que a maior banda de Rock do mundo surgiu... Hein?? Não, não estou falando de Led Zeppelin (esta sim uma das maiores), ou Pink Floyd (com certeza a maior). Estou falando da "Porta de Emergência". Não conhece? Ah... Não lhe culpo não... Essa banda seria a maior banda de Rock do mundo, acaso houvesse existido. Como qualquer roqueiro que se preza, eu também criei minha "banda imaginária". O nome eu tirei das minhas andanças de ônibus e a formação consistia em: Eu Mesmo hora na guitarra e voz, hora no baixo, outras apenas na voz, meu amigo Gordo na Bateria e ah, quem mais aparecesse ou fosse imaginado para as outras "posições". Cheguei até a compor uma música (completinha) que tinha um refrão: "Eu quero uma saída/preciso de uma porta/saída de emergência/porta de emergência".. E ai entrava um "riff" de guitarra. Um Rock bem pesadinho, mas que nunca foi tocado em lugar nenhum por uma simples questão: nenhum de nós nunca aprendeu a tocar nenhum instrumento... E essa banda se desfez... Antes mesmo de existir...

§6
Nesses anos começaram a acontecer de fato apresentações de artistas internacionais, como Rick Wakeman. Com sua Viagem ao Centro da Terra na integra, em 1975 no horroroso Ginásio da Portuguesa de Desportos. Rick Wakeman estava no auge da carreira, ao lançar discos absolutamente irretocáveis, como “As Seis Esposas de Henrique VIII” e “Arthur” e acabara de lançar o que seria considerado por muitos como sua obra prima, o disco “Jornada ao Centro da Terra”, baseado num livro de Julio Verne. No Brasil existia um lance chamado de Projeto Aquárius, uma pífia tentativa de tentar aproximar as pessoas da musica erudita. E para uma das apresentações daquele ano, tinham cogitado a banda Yes. Mas como essa banda inglesa tinha o cachê alto demais, optaram por Wakeman, que tinha feito parte dela e que estava sendo muito bem aceito pelo publico em sua carreira solo. Foram realizados dois shows em São Paulo e um no Rio de Janeiro, no Estádio do Maracanã. Todos com repertórios diferentes. O que presenciei, foi a segunda apresentação em São Paulo, onde Rick, trajado de um manto branco brilhante, longos e louros cabelos criando frisson na mulherada, e acompanhado de sua banda e ainda a Orquestra Sinfônica Brasileira, regida pelo Maestro Isaac Karabtcheviski e o Coral da OSB, tocaram na íntegra a Viagem de Arn Sacknussen. Para a parte narrada, traduzida em bom português, foi chamado o ator, dono de uma voz poderosa, Paulo Autran, que fez a narração sentado em uma espécie de trono, de vime.
Tento ser fiel às minhas lembranças... E o simples fato de buscar em minha memória por elas é por horas, um exercício extremamente doloroso, embora prazeroso. E dizem os estudiosos da mente humana que dor e prazer são irmãs gêmeas, no que concordo plenamente. E o cérebro humano sempre usa da associação e nas lembranças é ela quem nos proporciona o fio condutor para chegarmos a um resultado. Então: Rick Wakeman > Dor > Prazer > Gêmeas = Cristiane, irmã gêmea de Cristina, ambas conhecidas por Cris, era estudante de medicina e adorava a dor. A irmã era prostituta e acredita-se, adorava o prazer. E ambas eram fanáticas por Rick Wakeman. E foi por estar contando sobre o show do instrumentista inglês que eu presenciara, foi que acabei tendo um caso com a primeira das gêmeas. Muito magra e alta, ela usava óculos fundo de garrafa, que a principio a faziam parecer uma mulher feia. Puro disfarce, pois quando ela retirava os óculos, percebia-se que era uma mulher muito linda, com olhos doces e profundos. Mas o fato é que ela quase nunca os tirava, em parte por ser muito míope, em parte por ser aquilo uma atitude de pura sedução, de seu jogo de prazer... E dor.
A primeira transa com Cris foi no quarto que ela dividia com a irmã. As paredes cheias não de pôsteres de astros do Rock ou do cinema, mas de esqueletos, fotos da anatomia humana, detalhes de fígados, intestinos e outras escatologias. E ao som de “Arthur” de Rick Wakeman transamos. Ela se recusava a retirar os óculos, dizia que jamais os tirava, a não ser pra dormir ou tomar banho. E eu transaria com ela até trajada de astronauta ou de escafandro. Não tinha um fio de pelo em todo o corpo, a não ser cabelos, cílios e sobrancelhas. E mesmo assim muito ralos, o que era um fator adicional de tesão. Depois de um delicioso primeiro ato, ela ficou em pé, retirou os óculos e quase gritou: “Agora sou eu que vou comer você!” Pulou em cima de mim e começou a morder meu pescoço, ombro, braços e pernas... Quase decepou meu pinto e minhas bolas. Deixei as coisas acontecerem e confesso que foi uma das melhores trepadas de minha existência.
Depois desse dia, saímos apenas mais umas três vezes, com ela repetindo esse “ritual”, com uma violência cada vez maior. Era impressionante como parecia mais e mais excitada proporcionalmente ao grau de dor que impunha. Um dia ela me chamou à sua casa. Eu andava um tanto preocupado com os rumos daquela “loucura”. Não por temer a dor e as conseqüências daqueles atos, mas, de fato por temer estar gostando demais daquilo. Sentei na cama e comecei a falar que queria acabar com aquilo e coisas assim. Ela estava de shorts bem curto e sentou sobre minha perna e começou um jogo de sedução. Sentia algo molhado em minha perna e então percebi que seu melado ultrapassava os limites da calcinha e do short e escorria pela minha coxa. Aquele dia fui parar em um Pronto Socorro, com dificuldade em explicar ao médico sobre que raça de cachorro tinha me mordido com tanta força... No ombro e nas costas...
Encontrei-a apenas mais uma vez, quando ela me convidou a ir até a Faculdade onde estudava. Tinha um trabalho que seria feito exatamente na área onde são estudados os cadáveres. Olhando para ela ali, com as mãos sujas de sangue, cortando pedaços de corpos, por trás daqueles óculos, senti um arrepio que percorreu minha espinha inteira. Dei as costas e desapareci. Afinal o limite entre o prazer e a dor é o que nos distingue... Do que mesmo? Poucos anos depois fui assistir “O Império dos Sentidos” e então compreendi melhor a “anatomia” da mente de Cristiane. Anos depois fiquei sabendo das gêmeas: a primeira Cris tinha se formado médica e tornara-se lésbica. A segunda teria sido morta por um cliente, numa briga por drogas.

§7
Segundo algumas fontes, a máquina de escrever foi inventada em 1714, mas só foi descoberta por mim cerca de 260 depois. E foi a maior invenção da humanidade até hoje. Nada se compara, àquele que gosta de escrever, ao telec-te-tec-tec dos tipos metálicos de letras invertidas presos à ponta de hastes também metálicas que, quando pressionadas as teclas correspondentes, são empurradas de encontro a uma folha de papel presa a um cilindro de borracha. O som é produzido pelo impacto no papel e é aumentado quando se deixa solta a haste feita para deixar o papel rente ao rolo. E era assim que eu gostava de datilografar, com essa haste solta para "amplificar" o som. E foi com esse instrumento que imprimi a maior parte dos meus escritos, poemas e contos até o final da década de 1980. Criei um dispositivo que consistia simplesmente de uma tábua apoiada nos dois braços de uma poltrona sobre o qual era colocada a máquina. As folhas de papel, no chão mesmo, ao lado do cinzeiro e da garrafa de café. Eram meus companheiros inseparáveis, a máquina de escrever, o cinzeiro e a garrafa de café. Minha máquina de escrever era um tanto diferente, tinha um "design moderno", era vermelha e tinha por nome original "Valentine", que eu traduzi para Valentina, que era o nome de uma bibliotecária por quem eu era apaixonado. Valetina, a bibliotecária, era meio gordinha, usava óculos fundo-de-garrafa, mas eu tinha um enorme tesão por ela. Era meu sonho de consumo: Sexo e Livros. E eu ia até aquela biblioteca quase todo dia, pegar algum livro e ver Valentina. Devorava os livros rapidamente para poder ir até a biblioteca. Devorava os livros e queria devorar a bibliotecária. Tinha sonhos eróticos, de transar com Valentina sobre uma pilha de livros, comê-la entre as estantes. Mas nunca cheguei a transformar em realidade o que lia nos livros de Henry Miller que pegava.
Entre poesias e contos, também criei um fichário que cabiam umas quinhentas folhas, onde era datilografadas e catalogadas letras de musica, sempre com um código ligado ao catálogo de discos. Todos os meus LPs eram codificados com um numero e letra e organizados com uma etiqueta adesiva colada no topo da capa. Então tinha que ficar com a "minha" Valentina mesmo. E assim, noites e noites apertava as teclas pretas com fúria, com tesão, imaginando que aquelas teclas eram os mamilos de Valentina, a bibliotecária, que aquele som era dos seus gemidos de prazer.... Um dia criei coragem e mostrei a Valentina uma de minhas poesias. Ela ficou vermelha feito a máquina de escrever, pois sempre escrevi coisas um tanto pesadas e fortes. E aquele era um poema com conteúdo erótico forte, decididamente inspirado nela. Valentina, a bibliotecária, baixou os olhos e não proferiu uma palavra. Entregou-me o livro que eu fora buscar ("Zero" de Ignácio de Loyola Brandão) e saiu, balançando aquela bundona por entre as estantes dos livros. Dois dias depois tinha lido o livro e fui devolver. Valentina não estava mais lá... Em seu lugar uma velhota horrorosa, magra e de cabelo loiro tingido... Nunca mais a vi. E durante anos fiquei pensando se fora minha poesia que expulsara Valentina da mim... A poesia era a culpada??? Nunca mais voltei àquela biblioteca e fiquei bom tempo sem escrever poesia. Valentina, a Máquina de Escrever, entretanto me causava outros prazeres, e até o dia que despencou de cima do meu dispositivo e despedaçou-se no chão, foi minha companheira de farras e orgias, regadas a café e cigarros e agora estava ali, no chão, em pedaços... E seria também a Poesia, a culpada daquilo?

§8
Nos idos de 1975, ao que me lembro, meu eterno amigo Gordo, me perguntou se já tinha escutado o Kaleidoscópio.. Não tinha, mas a partir daí, de segunda a sexta-feira eu ia dormir as duas da manhã, depois de terminado o programa. Com um rádio de pilha sintonizando a Rádio América, uma rádio pertencente à Igreja Católica, e ouvindo Black Sabbath, Supertramp, Yes, Genesis e brasileiros como Novos Bahianos, Platô, Walter Franco etc. Um parênteses aqui com relação aos termos usados: um agrupamento de músicos não era ainda chamado de "banda", que chegou depois, mas sim de "conjunto". Além disso, sempre uma voz pausada, o totalmente chapado Jacques ainda oferecia entrevistas com artistas "underground". Algumas das que jamais esqueci foram com o casal de poetas Nano e Gê, que eu logo eu viria a encontrar e conhecer Yara, filha deles e que fora a inspiração de uma das músicas do Walter. Nessas entrevistas também Valdir Zwetsch (Se não estou enganado, atualmente diretor de Jornalismo da Record), na época ainda um cabeludo jornalista que lançara um livro que eu adquiriria no lançamento na Livraria Brasiliense, da Rua Barão de Itapetininga, chamado “O Fabricante de Sonhos”.
O Kaleidoscópio foi o responsável pela minha queda de produtividade como "Office Boy" e "Arquivista", porque ir dormir as duas da manhã e acordar as 6 diariamente derruba qualquer um. Mas durante anos convivi com essa rotina, com exceção das sextas-feiras, quando colocávamos um rádio maior na calçada e ficávamos escutando até o fim, bebendo caipirinha e contando histórias. Exceto também um dia no mês, quando o Kaleidoscópio perdia audiência para as "Sessões Malditas" do Cine Metro, na Avenida São João, onde eram exibidos filmes de Rock, como "Janis", "Zabriskie Point", "Woodstock", etc. E para ali, onde hoje infelizmente é a sede de uma seita crente, ia eu. A galera era pirada, assistíamos aos filmes sentados no chão, todo mundo fumando e tomando umas dentro da sala de projeção mesmo, e depois saíamos e perambulávamos pelas ruas do centro até amanhecer. Nesses momentos surgiram poemas, musicas, namoros, transas, papos, amizades...
Cinema é um capitulo importante em minha história. Além das sessões malditas acima citadas, existiam inúmeras opções na época: O Cine SESC da Augusta era um espaço muito legal, que tinha uma área no fundo da platéia em que tinha um bar e gente podia comer, beber e fumar enquanto assistia ao filme, pois havia um vidro em toda a extensão que nos permitia ver a tela. Alto falantes eram espalhados pela área. Ali eu me lembro de ter assisto "O Fantasma do Rock", uma versão Rock do "Fantasma da Ópera" e "Joe Cocker e a Turma da Pesada" (The Mad Dogs and Englismen). Outro espaço fantástico era o Cine Biju, na Praça Roosevelt, um cinema bem pequeno, mas com uma programação enorme de filmes de arte. Foi lá que assisti em duas oportunidades "Corrida Contra o Destino" ("Vanishing Point"), além de alguns filmes de Godard (chatos), Glauber Rocha (idem) e Felini (não... esse genial). E mesmo no circuito comercial, as salas de cinema exibiam filmes de Rock, como Tommy, que eu assisti 27 vezes, quase todas no Cine Barão, e quase todas acompanhado de minha amiga lésbica Yaracy. Assistíamos à sessão e íamos pra lanchonete da Mesbla onde ficávamos até o fim da noite discutindo personagens, cantando musicas, analisando hipóteses para diversificações... Enfim...
Mas, além dos filmes de Rock eu assistia de tudo na tela. Trabalhava na recém inaugurada Nova Paulista, que tinha dezenas de salas e eu costumava ir de segunda a sexta diariamente a um cinema diferente, isso depois de jogar "Pinball", num dos muitos "Flipperanas" que ali existiam, na esteira da moda lançada por "Tommy". A Avenida Paulista sempre foi um marco da cidade e ali também se concentram inúmeras livrarias, como a ainda existente e gigantesca Cultura no Conjunto Nacional e outras menores onde eu adquiria livros e revistas como a "Rock, a História e a Glória”, "Musica do Planeta Terra" (do genial Julio Barroso) e tablóides como "Movimento", "Opinião" e “O Repórter”. De uma delas era particularmente assíduo, na entrada do recém inaugurado Edifício Sir Winston Churchill (quase em frente ao conhecido na época como o "Prédio da Gazeta" e hoje como "Prédio do Objetivo”) onde também ficava a dupla de cinemas "Gemini". Não recordo o nome da livraria, mas comprei ali muitas publicações "underground", como a Revista “Versus”, (a quem eu faria uma justa homenagem muitos anos depois colocando o nome numa publicação minha) e quadrinhos como "Rango" e "Fradim". Foi ali que tomei contato com o "Cogumelo Atômico", feito em Brusque, SC e cujo editor "Luis Tout Court" viria a ser um grande amigo, e parceiro em algumas das minhas coisas, como na edição do meu primeiro livro, mimeografado, de poesias chamado "Arquíloco" e do único numero do meu "jornalzinho" (não eram chamados de "fanzine", não), o "Pipoca".

§9
Durante particularmente toda a segunda metade dos anos 1970, aconteceram uma quantidade enorme de shows e festivais de Rock por todos os cantos. Era comum naquela época acontecerem em teatros, particularmente da Prefeitura, como o Paulo Eiró e Martins Penna, Teatro São Pedro, etc. Também no Ruth Escobar, onde assisti ao primeiro show do Joelho de Porco, o Teatro Bandeirantes, o Teatro da Praça, onde rolaram apresentações intimistas de Jorge Mautner e Walter Franco... E assim chegamos aos últimos anos dos 70 e no Ginásio do Ibirapuera acontece o "1º Concerto Latino Americano de Rock", com a estréia da banda Arnaldo e a Patrulha do Espaço e a banda de Cesar Camargo Mariano, além de O Terço e dos argentinos Leon Gieco, Nito Mestre e os donos da noite por aclamação: Crucis. Um Ginásio lotado urrando, dançando, pulando... Celebrando ao melhor dos espíritos do Rock'n'Roll, a irmandade... Não éramos latinos, éramos Roqueiros, éramos o mundo.
E naquela década criativa ainda aconteceria no Brasil a apresentação da banda Gênesis, que tinha perdido sua principal estrela Peter Gabriel, mas fez uma apresentação impecável, com Phil Collins segurando a onda dos vocais. A banda teve o apoio de outro baterista e foi a primeira vez que se viu um espetáculo usando laser nessas terras. E, sempre pedindo perdão a algum lapso de memória que venha a confundir datas e locais, lembro também de Refestança, com Gilberto Gil e Rita Lee, um único espetáculo que gerou um disco ao vivo e uma temporada de uma semana do Made In Brazil com Caio Flavio nos vocais e onde, num dos dias a ensandecida, hoje astróloga Tibet, arrancou a blusa e mostrou os peitos pra platéia...
Nem sei por que, mas os peitos da Tibet me lembraram a bunda de Sandra... Ah, a bunda de Sandra... Nunca fui daqueles caras tarados por bunda, de enxergar bunda em frutas e instrumentos musicas. Em frutas e instrumentos musicais eu enxergo, digamos outra parte da anatomia feminina. Claro que admiro uma bunda bonita, redondinha, arrebitada, essas coisas. Mas nada que me faça eleger como símbolo sexual uma mulher apenas pela sua bunda. Uma mulher é um símbolo sexual pela sua cabeça, ou seja, pela forma como ela pensa o sexo. Mas a bunda de Sandra foi algo que eu nunca pude explicar. O formato, o tamanho, a cor, o jeito que era balançada, enfim, uma bunda perfeita. Era uma puta de um dos inúmeros prédios da Rua Barão de Limeira, quase em frente ao prédio da Folha de São Paulo. Como era de costume, entrei subi os quatro andares de elevador e fui descendo pelas escadas. Ainda dentro do elevador, de porta pantográfica, tinha vislumbrado aquela bunda coberta com um curto short branco com estampas. Na descida ela chamou, falamos, combinamos, acertamos a tabela e fomos para o quarto. Eu não conseguia despregar o olho daquela bunda e claro que ela percebeu. Marota e profissional como convém a uma profissional do sexo, ela ofereceu a danada por algum dinheiro a mais. Aceitei de pronto, é claro, pois aquela bunda valeria cada centavo pago. E jantei aquele cu rosado de Sandra deliciosamente. Foi uma sensação maravilhosa, porque aquele cuzinho era, apesar de provavelmente muito utilizado, extremamente apertado... E estranhamente quente.. Quente até demais... Meu pinto ardia de tão quente.  Três ou quatro dias depois, quando estava deitado assistindo TV percebi o tamanho da conta que teria que pagar por comer a bunda mais linda do mundo: uma secreção que era o prenuncio de uma bela e ardorosa gonorréia. O tratamento com penicilina não deu resultado e por conta de comer a bunda de Sandra, fiquei um ano em tratamento, inclusive com exames altamente dolorosos. Ah, mas a bunda de Sandra, tão bela quanto as tetas da Tibet valeu cada agulhada e cada semana sem beber por conta de antibióticos.

§10
A televisão em minha infância tivera um papel muito importante... Dos desenhos e seriados no fim de tarde, eu começara agora a buscar programas sobre Rock na TV. E eles existiam, sim. O primeiro programa que lembro ter assistido foi o "Band XIII", na Bandeirantes. A memória é falha e lembro apenas de algumas cenas, que eram de uma banda a qual eu viria a ser um grande admirador: Jethro Tull. As cenas são de Ian Anderson com uma cabeleira imensa e "soprando" sua flauta. A cena me marcou a ponto de eu sair em busca de discos da banda e conhecer a biografia e letras. As letras do Jethro eram fantásticas e de certa forma contribuíram muito para minha formação intelectual. Nessa época conheci também, durante um show do Made no Teatro Martins Penna, na Penha, um amigo chamado Walter, que era fanático pela banda de Ian Anderson, tinha muitos discos deles e tinha o sonho de ir para Londres e usar um capote igual ao do ídolo. Mas, retornando aos programas roqueiros de TV, eles eram poucos e sempre duravam pouco tempo. Um deles, foi o "Papo Pop", na Globo, com Big Boy, o Sábado Som (aliás, muita gente se confunde, afirmando que Sábado Som era programa do Big Boy. Não era não. Sábado Som era uma produção de Nelson Motta e não tinha apresentador, apenas voz), e que em sua estréia apresentou a primeira parte do Pink Floyd At Pompeii.
Esse programa foi o que teve maior repercussão, mas existiram outros, como o TV2Pop Show, na Cultura, o "Balanço", que era diário, na Bandeirantes e o "Hallelluyah", na TV Tupi, que tinha na abertura a musica "The Wizzard", do Black Sabbath. Esse programa era apresentado por Silvio Brito e por um tal de Fábio Jr. (ele mesmo!) e apresentava artistas ao vivo. Lembro ali de apresentações do Made In Brazil e Novos Baianos.
Alguns outros programas me marcaram bastante, em televisão. Um deles foi um especial da Globo chamado “Ciranda Cirandinha”, que se propunha a mostrar o universo “jovem”, e tinha entre os atores, desconhecidos na época, como o mesmo Fábio Junior e Jorge Fernando. Era história de um cara chamado Joel, que pirava e deixava atônito seus amigos. No final, uma interpretação paranóica, neurótica da musica “Postal do Amor”, por Zezé Motta. A novela, na Bandeirantes, isso já no inicio dos anos 1980, “Os Adolescentes”, também tinha esse tom, mas acabou se perdendo e no final, o que seria um precoce debate sobre homossexualidade acabou perdido, terminando numa das coisas mais estúpidas, com um personagem afirmando sobre um outro que “seria” o alvo do debate: “Ele não é gay, ele é poeta.” Póóóóóóim!
E foi nessa época também que ficou marcado em minha cabeça que a mídia estabelecida mais popular tinha verdadeira aversão ao Rock, mesmo que depois, durante algum tempo tenha ganho muito dinheiro com ele. Uma matéria do “Fantástico” mostrava um método de um cientista para curar surdez em cachorros. O método consistia em... tocar Pink Floyd, associado a algumas outras coisas... E a matéria “cientifica” terminava assim: “Mas apenas cinco minutos, porque mais de cinco minutos de Rock, nem cachorro surdo agüenta...” Póóóóóóim 2!
Alguns anos depois a Globo transmitiria a apresentação do Kiss no Brasil e depois o Rock In Rio, quando o arremedo de jornalista e falso cronista do Pedro Bial fez o seguinte comentário, no meio da apresentação de Joe Cocker: “Como canta o velhinho!”... ...”Póóóóóóim 3!

§11
Em 1976 havia um enorme movimento cultural ao redor do Rock. Ao menos em São Paulo. Centenas de ótimas bandas faziam seus concertos em todos os lugares, da Tenda do Calvário ao Parque da Aclimação, do Teatro Bandeirantes ao Ginásio da Portuguesa, do Teatro Municipal.. Hein? Do Teatro Municipal?? É, sim! Duas das mais proeminentes bandas de Rock da época, quase lendas vivas, eram o Terço e Os Mutantes. E num dado momento desse ano, as duas se reuniram no palco do Teatro Municipal de São Paulo para tocar... Beatles.... Foi um alvoroço de gente, confusão na entrada e um bando de velhos encarquilhados criticando aqueles cabeludos tocando musica barulhenta em pleno palco sagrado do Municipal. E trajados com uniformes de "Seargent Peppers" se revezaram com seus repertórios próprios, para depois, na terceira parte do show, unirem os oito músicos e tocarem repertório dos Fabfour. Inesquecível, mesmo. Lembro de estar na primeira fila, bem a frente de Sergio Dias.. E da imagem da ponta muito fina da bota que ele usava bem a frente do meu nariz... Imagens, fotografias mentais que sobreviveram ao tempo...
Mas falando de bandas de Rock brasileiras, é interessante notar um fato muito importante. Embora na chegada do Rock a essas terras tenha sido sob a forma de "covers" (o primeiro Rock gravado aqui foi "Rock Around The Clock" de Bill Halley pela cantora Nora Ney), e posteriormente de versões, particularmente de músicas dos Beatles e outras bandas inglesas e americanas de sucesso, feito pelos expoentes da Jovem Guarda, o Rock feito e tocado nos clubes, bares e teatros e mesmo o Rock gravado, tinha letras em português, criações que, embora calcados no modelo original de assuntos cotidianos, como sexo, velocidade, bebida, eram cantadas em português. Quase todas as bandas que fizeram a história do Rock Brasil cantavam na língua que herdamos de Camões. Made In Brazil, O Terço, Mutantes, Golpe de Estado, Harppia, Secos e Molhados, Salário Mínimo, Patrulha do Espaço... Enfim quase que cem por cento delas compunham em português.  Até meados dos anos 80, sequer existia o termo "Cover".  E quando começou isso? Difícil saber a resposta, se é que existe uma. Mas existiu um fato gerador nisso e o que arrisco agora é apenas um palpite, baseado em fatos ocorridos e em observações pessoais.
Com a "moda" do Rock, deflagrada a partir do sucesso de apresentações do Queen, em 1981, Van Halen e Kiss, 1983 e posteriormente o Rock In Rio, em 85, a mídia e as casas e bares onde bandas e artistas se apresentavam, precisavam urgentemente suprir os ávidos ouvintes dessas bandas com algo que não fosse apenas o disco. E assim, alguns artistas também de olho na grana que isso representava, aliada a preguiça ou falta de talento para compor repertório próprio, embarcaram na canoa que passava naquele rio e que se imaginava desaguar num mar de tranqüilidade e prosperidade. Até então, sequer existia o termo "cover". E isso foi com certeza a pedra que começou a sepultar o Rock feito no Brasil, pois os espaços para as bandas "autorais" foram diminuindo gradativamente, até praticamente desaparecer num tempo menor que 20 anos. E diminuir e desaparecer da mesma forma que o publico e os cachês pagos a músicos...
Foi mais ou menos nessa época que conhecera uma revistinha chamada "Sarrumor", editada por Laerte Julio, que depois viria a ser conhecido por Laerte Sarrumor e fundaria a banda "Língua de Trapo". E começamos a trocar correspondência, que num determinado momento passou a ser respondida por um, na época, iniciante baixista chamado Luiz Antonio Domingues, que logo seria conhecido como "Tigueis", da Chave do Sol, Língua de Trapo etc. Em uma dessas cartas, Luiz me chamava a atenção a alguém que fazia um trabalho muito interessante que se apresentara num Festival da TV Cultura chamado, se não me estou enganado "Festival Universitário da MPB". O nome (conforme entendi pela grafia dele era "Amigo Barnabé"... Era Arrigo Barnabé, que lançaria logo em seguida um dos trabalhos mais criativos da época "Clara Crocodilo". Pouco tempo depois, Arrigo, acompanhado de uma banda da qual faziam parte entre outros Tetê Espíndola, Vânia Bastos e um time de músicos de uma competência extraordinária, fazia uma apresentação história num teatro da Rua Augusta... E é claro, com minha sempre solitária presença.

§12
Ao contrário da maioria das pessoas com quem convivia, nunca curti nenhum tipo de drogas. Experimentei maconha duas vezes, e além de não ter tido nenhum "barato", detestei o cheiro da erva e ficava enojado de ver aquela "bagana" toda babada, circulando entre os dedos e bocas de um monte de gente. As drogas químicas eram muito raras, porque caras, por essas bandas e eu também nunca precisei nem quis ficar louco artificialmente. Afinal, segundo alguns amigos meus, eu já nascera "doido". E uma das "desculpas" perfeitas que encontrei para não usar drogas e ao mesmo tempo não ser taxado de "careta" pelos amigos, estava na música "Alucinação", feita por Belchior. "A minha alucinação é suportar o dia a dia, e meu delírio é a experiência com coisas reais." Era 1976 e eu tinha 18 anos. E também foi graças a Belchior que eu conheci mais "malucas" que meus olhos e meu pinto penetraram...
Jane, aliás, Janete, era uma negra, linda, muito alta e magra. Quando a conheci, num festival no Teatro Bandeirantes, onde entre outras atrações, aconteceria o show de Belchior, senti algo que nunca sentira. Janete dançava e pulava, e gritava e se atirava no chão, totalmente fora do ritmo da musica, totalmente fora de órbita... Cheguei perto dela e ela simplesmente se atirou sobre mim e me abraçou. Não largou mais durante o resto da noite. Acordei no início da tarde num um cortiço próximo, com parte das roupas rasgadas e um monte de hematomas pelo corpo e Janete com a cabeça enfiada dentro de uma privada imunda. Ela ergueu a cabeça e pediu uma toalha, enxugou o vômito e me olhou como se fosse me matar. Depois pulou sobre mim, do mesmo jeito que pulava dentro do teatro, mas abocanhou meu pinto e ficou ali, um tempo enorme, sugando-o quase que infantilmente até dormir.
Quando a noite chegou, com fome, com frio e sede, acordei Janete e perguntei se tinha algo para comer. Comemos batata frita com pão e tomamos refresco, num silêncio de incomodar. "Tem som?", "Tem aquele tres-em-um ali, mas só funciona o gravador." Abri minha bolsa de couro, pois sempre carregava algumas fitas e saquei a ultima aquisição "Rock'nRoll Animal". Coloquei no aparelho e enquanto rolava a introdução do show perguntei; "Como é seu nome, mesmo?" "Janete!"... "Ah, sim, agora lembrei.. Te chamei de 'Sweet Jane' ontem a noite.", "Hein?!" e a voz rasgada de Lou Reed encheu o cortiço: "Standing on the corner, suitcase in my hand, Jack is in his corset, and Jane is in her vest, and, me...”, seguida das outras musicas do disco. Quando chegou em "Lady Day" eu disse: "Sweet Jane, você minha Lady Day. Aliás minha Lady Night".  E depois disso, confesso que me senti um verdadeiro personagem de musica de Lou Reed. Alguma musica que ainda não teria sido composta, algo como uma mistura entre "Vicious", "Venus In Furs" e "Walk On The Wild Side". Jane era uma pantera saltando sobre mim, pulando, chupando..  E em meio a toda aquela exibição de contorcionismo erótico, fumava um cigarro de maconha atrás do outro. Sai dali no dia seguinte, já uma segunda-feira, perdi o dia de trabalho e quase o emprego por causa disso. E quanto á "Sweet Jane", nunca mais a encontrei... Acho que ela ainda deve estar por ai... Pergunte a Lou Reed...

§13
"Mil novecentos e setenta e sete foi um ano de muita dor", eu escreveria 33 anos depois ao compor a Opera Rock Vitória. Mas o 1977 de fato, no Brasil, em mim e no mundo foi um ano repleto de criatividade, histeria e muito, mas muito Rock.  Em agosto morreu Elvis, em dezembro, Chaplin. O Punk explodiu no Brasil, juntamente com a Discotheque, que viria marcar presença e ser o marco do que acredito ser a derrocada do Rock, como movimento comportacional no mundo. Nesse ano surgiu uma banda de caráter excepcional, formada por grandes músicos (Armandinho, Dadi, Mu e Gustavo) chamada de A Cor do Som. E rolou um show com um acontecimento inusitado. A recém fundada WEA lançara uma medíocre banda inglesa chamada de Liverpool Express. Sucesso na América Latina e particularmente no Brasil, como - claro - trilha de novela da Globo. Trouxeram a banda pra fazer show aqui e, ao que se diz, forçaram a barra, colocando A Cor do Som para abrir. Achamos um desrespeito ... à Cor do Som, claro, e decidimos: vamos entrar, assistir a "banda de abertura" e cair fora. E assim fizemos. Depois da apresentação da banda brasileira, metade da platéia saiu... Acho que os ingleses não entenderam nada até hoje... 
E naquele mesmo ano de 1977, um dos maiores cantores de Rock e Blues do mundo nos presenteou com uma série de apresentações nestas terras.  Em agosto, no Ginásio da Portuguesa, acompanhado de Nicky Hokpinks no piano, Joe Cocker, calibrado pelas cervejas acomodas embaixo do microfone, fez um dos shows mais emocionantes que presenciei, com um repertório de clássicos cantados naquele timbre peculiar. Mas dessa vez, ocorreu o inverso do que rolara com A Cor do Som: a abertura foi da banda “Placa Luminosa” que á época tinha por vocalista Jessé. ("Sino, sinal aberto...") A banda já entrou errado, com o baixista reclamando que o "gringo não quis me emprestar o baixo dele"). E em dado momento, incomodado porque a platéia pedia por Cocker, resolve tocar pretensiosamente "The Ocean" uma música do Led. A banda saiu sob vaias e gritos de ”Fora!”.

§14
"Não encontro as palavras/A surpresa das coisas me confunde...)" -  "Poemas de Exorcismo". Em 1978 ainda se tinha um pouco daquele sonho dos Hippies, em criar uma sociedade igualitária e pensante, onde o sexo, a cultura e a música teriam papel de destaque na formação das bases sociais. E foi naquele ano que comprei um livro que viria a mudar minha maneira de pensar o mundo, ou ao menos sedimentá-la. O livro "A Morte Organizada" de Luiz Carlos Maciel, do qual tinha lido alguma coisa no Pasquim e na Rolling Stone Brasileira. E O livro me ganhava logo nas citações de abertura, com Buda, I-Ching e Castaneda. Em "Encruzilhada da Contracultura", ele iniciava da seguinte forma: "O sonho acabou? o diagnóstico de John Lennon implica em sua própria negação; a síntese é o caos. Os sonhos acabam, o pesadelo continua."  A seguir,  textos sobre contracultura, existencialismo e Rock. A análise de "Espesso Como Um Tijolo", sobre "Thick as A Brick" do Jethro Tull, da maneira como ela é contada no próprio disco - como se fosse o trabalho de um garoto de 8 anos -, é analisada por Maciel de forma esplêndida, num dos melhores textos sobre Rock que já li. "Origem da Ciência", direto da fonte de Allan Watts, desmascarando o mito da ciência como verdade absoluta. A partir de "A Morte Organizada", minha mente abriu feito um pára-quedas, e foi uma questão de pouco tempo para que eu buscasse nas prateleiras dos sebos e das bibliotecas, autores como Huxley, Orwell, Nietzche e abocanhasse como os peitos de uma donzela, o pensamento crítico de um dos gurus de Maciel, Alan Watts, cujo livro "Tabu" mexia com todas as estruturas morais e sociais vigentes. " O Rock resiste  à pressão crescente exercida pelos meios de comunicação com a massa, em benefício da Morte Organizada."
Em 1978 ainda não existia a Galeria do Rock... É, nem sempre ela esteve lá... Ao menos não existia da forma como conhecemos em seu auge a partir do final dos anos 1980 e adiante. Em Janeiro desse ano eu conseguira um trabalho temporário como entregador de IPTU, da Prefeitura de São Paulo. A maioria das pessoas que prestavam esse serviço era de "alternativos". Músicos, poetas etc.. E foi lá que comecei amizades com muita gente "doidera"...  Dentre esses conhecidos um, que tenho sempre em consideração em minha história e faço questão absoluta de não esquecer foi um cidadão que acabou ficando conhecido como "Nego Dito", e que tinha o nome na época apenas de Itamar Assumpção. Pouco tempo antes eu tinha assistido uma apresentação de Jorge Mautner e me chamara a atenção o baixista da banda, que tinha um estilo digamos "estranho" de tocar.  Saíamos em grupos para a entrega dos carnês de imposto e numa das conversas, disse que eu o conhecia. E ele ficou surpreso. Eu disse: "Você não é o baixista do Jorge Mautner?" A partir daí nos próximos meses, sempre que podíamos entabulávamos longas conversas sobre musica. Itamar sempre foi muito culto e inteligente e já naquela época detinha muitas opiniões firmes contra o "estado de coisas” da musica"...  Itamar criou muito, pensou muito e deixou um legado espetacular.. Eu nunca mais o vi, e nunca fui a um show dele, mas uma espécie de recompensa chegou-me muitos anos depois, quando meu filho, desenhista, foi convidado a participar de uma homenagem a ele com a criação de um retrato que foi entregue à comovida viúva.
Mas também entre esses amigos que conquistei dentro do trabalho de entregador de impostos, lembro-me particularmente de James Dionísio, um camarada cheio de tiques, que usava um óculos de lentes verdes enormes, tipo "fundo-de-garrafa" mesmo, e era a cara do Ian Paice. James era fanático por Rock progressivo e me mostrou uma das coisas mais lindas que escutei: o disco "Curved Air Live", da banda Curved Air. E foi por causa da indicação dele e em sua companhia que comecei a conhecer melhor os meandros da compra de discos usados. Até então, minha fonte de discos eram as grande lojas do ramo, como a Bruno Blois da Rua Pamplona e a Breno Rossi da 24 de Maio. Mas James era conhecedor de umas "bocadas" num subsolo de prédio na Praça da Sé, Rua José Bonifácio... E.. umas lojas "fodas" numa Galeria na Avenida São João... Essas lojas eram no máximo umas quatro ou cinco: a Punk Rock, a Grilo Falante, a Woop Boop de René Ferri, a meu ver este sim - sem nenhum demérito ao grande Luis Calanca - pioneiro da Galeria do Rock. E mais uma ou duas que não recordo o nome agora. E ali, nos próximos anos eu passaria a deixar parte de meu salário com a compra de discos, para o desespero e conseqüente fúria, de minha mãe, que via com desespero um filho com um cabelo nunca cortado, chinelos de pneu, calças surradas e rasgadas... Mas com caixotes de laranja improvisados como estante de discos, cada vez mais cheios.

§15
Ainda dentro desses anos, que decerto foram os mais prolíficos e criativos da história da Rock, ao menos no Brasil em que tudo demorava muito a acontecer, os anos 1977 e 78, tenho agora em mente a chegada do Movimento Punk (se é que o Punk alguma vez, em alguma parte do mundo foi um movimento, ao menos na acepção correta da palavra). O Punk ao que conta a história surgiu na Inglaterra com bandas como Sex Pistols por volta de 1976. No Brasil, as primeiras, segundo os "historiadores", em 1978 com Restos de Nada, Cólera, Condutores de Cadáver e Olho Seco, seguidas por Garotos Podres, Ratos de Porão, Inocentes. A coisa tomou forma e corpo com shows dessas e outras bandas que aconteciam nos domingos à tarde, no Metrô São Bento, que não durou muito tempo por causa das brigas que começaram a ser frequentes.
Mas o que pouca gente fala, talvez por desconhecimento, é a existência de uma banda que surgiu em Minas, possivelmente antes disso, em Minas Gerais chamada Banda do Lixo. E fui a um show dessa banda em São Paulo, não consigo precisar a data exata, mas com certeza foi no ano de 1978, no Teatro Célia Helena, na Liberdade. Um teatro minúsculo. Na memória estão alguns fatos: o vocalista usava botas de saltos enormes e ainda no começo da apresentação, o saldo de um dos pés soltou e ele passou o restante do tempo "mancando"; uma das músicas que eles apresentaram foi uma "Versão Punk" de "Páre o Casamento" de Wanderléia; no final do show, havia montes e montes de sacos de lixo recolhidos na calçada, que foi usado como arma numa "guerra de lixo", instigada pelos membros da banda, que depois tomou conta da Rua Barão de Iguape.
O Punk parecia ser a panacéia do Rock e, tanto aqui quanto na Inglaterra e EUA, muitas bandas foram alçadas à categoria de Punk, sem nem saber do que se tratava. Era a máquina de ganhar dinheiro fazendo exatamente o contrário daquilo que o tal "Movimento" pregava. Um dos exemplos disso, que aliás gerou um erro que até hoje é repetido pelos menos informados, que é considerar o Joelho de Porco como uma banda Punk. Assisti dezenas de shows do Joelho e tinha o primeiro discos deles ("São Paulo 1554/Hoje") e a banda poderia ser tudo, menos uma banda de Punk Rock. Qual foi o fato gerador? Nessa levada de Punk, a Som Livre, gravadora pertencente á Globo, contratou o conjunto e começou a veicular um comercial na TV com mais ou menos o seguinte texto, numa narração em tom satírico: "Joélho de Pórco, o primeiro conjunto de Pãnk Róck do Brasil". Além disso, o Joelho era uma banda tipicamente paulista, nos temas e letras, e a gravadora os fez mudar a letra e o título de "Se Você Vai de Xaxado Eu Vou de Rock'nRoll" para "Rio de Janeiro City", para tentar conquistar o público carioca.
O Punk, aos meus ouvidos já acostumados com Led Zeppelin e Pink Floyd, Janis e Cocker, e ao Rock Progressivo de forma geral, nunca agradou muito, nem como música, nem como "Movimento" e tenho comigo a opinião que foi o responsável direito pela criação dos subgêneros e da existência dos rótulos dentro do Rock. Até então tudo era Rock, mas a partir daí começaram a dividir em rótulos e isso acabou criando rachas e rusgas dentro de algo que parecia uno e indivisível... Em outras palavras, o Punk, que se pretendia como algo revolucionário acabou sendo o responsável direto pelo fim do Rock como Movimento Sócio-Cultural.

§16
1979... Uns cinco anos antes eu descobrira os endereços de todos os puteiros do centro de São Paulo. E como sempre fui muito romântico e respeitoso com elas, acabei me tornando namorado de algumas... Ah, mas isso não tem nada a ver com Rock... Dessa vez tem, sim! Em principio de 1979 eu tinha uma dessas namoradas, Ângela, que era uma das mulheres mais doces que conheci. Estávamos juntos há mais de um ano, mas eu não aguentava a pressão dos amigos e da família, que ficara sabendo da profissão da minha namorada por intermédio de um amigo de meu pai, Guarda de Transito bocudo. Além da pressão social - fui fraco na época sim - minha condição financeira não permitia que a gente fosse morar juntos, e Ângela não tinha outra profissão que a pudesse manter. Um dia, 31 de março de 1979, fui até o puteiro onde ela trabalhava e como acontecia algumas vezes, a gerente me disse que ela estava "ocupada". "Ok, depois eu volto!".. Sai dali, parei num boteco imundo e enchi os cornos de conhaque... E nunca mais voltei àquele prédio de três andares da Rua Barão de Limeira...
Naquele dia, um sábado, num salão de Rock que existia num bairro próximo, a Tarkus - onde eu tinha ido a primeira vez a convite do James "Paice", aconteceria o show da Patrulha do Espaço, que tinha agora Percy Weiss no vocal e contaria também com a presença de Wailter Baillot, que tinha saído do Joelho de Porco.
Cheguei lá me arrastando de bêbado, com Ângela na cabeça e minha consciência me acusando de omissão e covardia... No fundo do salão um bar.. Parei para tomar mais uma e ali estava Rolando, na época conhecido apenas por Junior, bebendo algo, acompanhado da sua então esposa. Cumprimentei-o com um aceno de cabeça e disse apenas: "Gosto muito da sua banda, estive no Ibirapuera. bom show", mais ou menos isso, mas não mais que isso... Foi uma apresentação fantástica da banda e logo após rumei para a casa de uns amigos onde acontecia uma festa para a qual, mesmo a contragosto, eu tinha emprestado uns discos. Fui a festa não por ela nem pelas pessoas, mas sim para resgatar meus melhores amigos: meus discos. Na saída, eu com meus amigos discos devidamente aconchegados no peito, peguei carona com um amigo, completamente bêbado, em um Fusca. Ele errou uma curva, capotou o carro.. Eu fui parar no Pronto Socorro com a clavícula fraturada... O difícil foi os enfermeiros me fazerem convencer que não dava pra engessar com os discos junto... Essa história ainda hoje é lembrada às gargalhadas pelo Paulo Tuckmantel, um dos donos da "Equipe". Minha "vingança" sobre esse acidente viria acontecer trinta anos depois, quando foi feita uma festa de comemoração e eu conheci minha atual esposa.

§17
E pra não dizer que eu não falei... De sexo... Sei que muitos leitores estão achando essas estórias cândidas e pouco picantes. Afinal, falar sobre Rock, sem falar de Sexo é o mesmo que uma Bibi lia sem falar de Deus... Ou do Diabo... Porque o sexo é o Deus e o Diabo numa só entidade quando falamos de Rock. O próprio termo "Rock'n'Roll" é uma gíria americana relacionada a sexo...  As primeiras mulheres com quem transei nada tinham a ver com o mundo do Rock, a não ser talvez por fazerem parte de alguma música de Lou Reed. Eram putas das ruas do centro de São Paulo, que o máximo que chegavam em termos de Rock talvez fosse ter transado com algum musico em troca do cachê do programa. Minha história com Ângela, relatada anteriormente neste texto, a não ser pelo fato de ter terminado na data em que terminou, nada tinha a ver também. De fato, sempre frequentei puteiros, mas sempre os odiei, não pelas putas, mas por ter que aguentar aquelas musicas horrorosas, de péssimo gosto e qualidade que são tocadas em suas "salas de espera"... Sempre sonhei com um puteiro decente, que tocasse Led, Pink Floyd e outras coisas.  Até que um dia conheci uma "dançarina" chamada Daria, que trabalhava numa boate ali da chamada "Boca do Luxo". No primeiro momento achei que era "nome artístico", até que ela me mostrou a identidade. Era esse o nome dela mesmo. Para quem não sabe, Daria era o nome da personagem e da atriz principal do filme "Zabriskie Point", de Antonioni, que tinha a trilha sonora principalmente composta pelo Pink Floyd. Numa das cenas mais belas em termos de erotismo no cinema, o casal Daria e Mark transam na areia, com a imagem se multiplicando.
Foi uma época de muita loucura erótica, porque ela era também fanática por cinema e Pink Floyd, embora ainda não houvesse assistido, e nem sabia de sua homônima no filme. (Em tempo, "Zabriskie Point" foi feito em 1970, mas durante muitos anos ficou proibido no Brasil por ter por temas duas coisas que a censura não queria saber: esquerdismo e sexo, sendo apenas liberado nessa época, bem no final dos anos 1970). Carreguei uma tarde, antes de seu expediente, Daria ao cinema e ali mesmo, depois de uma sessão de bolinação nas cadeiras, nos trancamos no banheiro feminino e transamos não nos enrolando na areia, mas nos azulejos imundos do Cine Metro, com nossas imagens se multiplicando como no filme. E Daria tinha até uma semelhança física com Daria Halprin, a atriz, que depois casaria com Dennis Hoper, mas sem antes ter um caso fora das telas com seu "partner". Mas feito areia, Daria sumiu pouco tempo depois, não sendo mais encontrada nem na boate onde trabalhava, nem no apartamento onde morava, na Penha.

§18
Nunca fui amante da chamada Musica Popular Brasileira, com exceção dos experimentalistas como Walter Franco, Mautner, Itamar Assumpção e posteriormente Arrigo Barnabé. Mas durante um período no final dos anos 70, por insistência e influencia de um amigo que só escutava a tal de MPB, passei a dar atenção a alguns expoentes. Assim, comecei a escutar Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Bethânia, Chico Buarque, Alceu Valença e outros. Desses, nunca consegui engolir Chico Buarque, um compositor pretensioso demais, falso pobre, um mentiroso. Gal e Bethânia, pra quem tinha começado com Janis me pareciam pequenas demais. Gilberto Gil sempre achei um artista sem autenticidade, um cara que ia ao sabor das marés. E quanto mais eu sabia sobre essas pessoas, menos gostava delas. O que sobrou foram apenas Alceu Valença e Caetano Veloso. Alceu gravou o melhor disco de Rock do Brasil “Vivo”. Progressivo, pesado, quase metal... Agora, quanto a Caetano... Desde a época da Tropicalia, que tenho comigo ter sido o ultimo movimento artístico real e confiável no Brasil, tinha simpatia por ele. E até mesmo antes desse meu amigo, tinha comprado um ou outro disco, como aquele gravado em Londres e o “Jóia” que eu tinha comprado por causa da capa censurada. E passei a prestar uma atenção maior a ele, comprando outros discos, fantásticos por sinal, como o outro homônimo de 69, o “Transa”, o “Araçá Azul, um disco totalmente experimental, criativo e magnífico. Caetano me parecia refinado, poético, doce.. Tudo que se esperava de um cantor e compositor. Cheguei a ler um livro com as cartas dele na época do exílio em Londres, chamado “Alegria, Alegria, Uma Caetanave Organizada Por Wally Salomão”. Mas apenas até assistir ao “Bicho Baile Show”.
Fomos eu, aquele meu amigo, Sergio, e uma irmã dele, de nome Sônia, ao Teatro Pixinguinha. Eu torcia um pouco o nariz pelo alarde midiático feito sobre aquele disco, principalmente sobre a musica “Tigresa” e pelo fato de que ele seria acompanhado pela banda Black Rio, que naquela época de auge da horrorosa Discotheque não me apetecia nem um pouco. Aquilo foi sim um baile... Um baile de mau gosto, com Caetano todo trajado de cor-de-rosa, parecendo um macaco de circo... Coisa muito diferente daquele Caetano dos discos que eu tinha escutado. Sem refinamento, sem poesia, sem doçura... Ainda comprei um outro disco, depois, que tinha a musica “Sampa”, mas nunca, jamais iria a outra apresentação de Caetano Veloso. O tempo passou, tanto ele quanto eu envelhecemos, mas a mim ele parece, com raríssimos momentos criativos, cada vez mais com um macaco de circo cor de rosa do “Bicho Baile Show”, do que aquele Caetano do disco de Londres, de “Transa”, “Jóia” e “Qualquer Coisa”.

§19
Em 1980 eu trabalhava numa loja, como balconista, vendendo artigos esportivos. Um dia, ao retornar para casa tive uma visão... A visão de anjo, sob a forma de mulher. Loira, linda, cabelos encaracolados abaixo dos ombros, alta, com uma bunda redonda e perfeita. Não acreditei quando a percebi olhando fixamente para mim. Tinha passado na minha loja de discos predileta e comprado entre outros, o disco “Curved Air Live”. Tinha escutado na casa de meu amigo James e ficara impressionado com a musicalidade e principalmente a voz de Sonja Kristina... Estava louco para chegar em casa e escutar minha nova paixão. Sonja era linda e cantava muito...
Mas, a visão daquele anjo humano mudou meus planos. Passei do meu ponto, decidido a ir até onde ela descesse, que poderia ser até no Inferno... Desci e comecei a acompanhá-la, tentando puxar conversa. Não foi difícil apesar da minha timidez, porque o Anjo começou... Justamente observando o disco que eu carregava. Disse adorar Curved Air.. “Puxa! Mesmo?”, “Sim... “ E daí, depois de uma série de blá-blá-blás sobre Rock e de saber que ela era professora de português, embora trabalhasse numa fábrica de produtos eletrônicos, ter um irmão paraplégico e uma mãe doente mental... Pouco mais de meia hora, estávamos grudados feito carrapatos, com ela encostada na porta de aço de um bar fechado, ao lado de sua casa, fazendo um barulho desgraçado. Minhas mãos grudadas naquela bunda redonda, minha língua que ia tão rápido do pescoço á boca que eu mal conseguia respirar. Transamos ali, e eu nem sei se alguém, até mesmo o paraplégico do irmão ou a doida da mãe, tenha visto. Ela arrumou a bolsa no ombro, recompôs a roupa e saiu andando... “Hey, qual seu nome?”, “Aparecida!”, “A Santa?”, Tentei brincar. “Não, a outra!”, “Vamos sair no sábado”. “Não, não posso. Não posso deixar minha mãe e meu irmão sozinhos.”. Relutante me deu o telefone. Liguei no outro dia e marcamos no sábado... Estaria ali, seco e sem carnes se a tivesse esperando até hoje... Passei uns três anos apaixonado, procurando em cada um dos rostos dentro daquele ônibus o meu anjo, mas nunca mais a encontrei. A não ser, um dia, trinta anos depois, num supermercado: “Oi!”, “Oi,” “Fiquei esperando aquele dia e nos próximos...”, “Eu sei!”, “Porque não apareceu?” , “Não sei, mas nunca esqueci de ...!” (Silêncio) “Nem eu...”, “Tchau!”, “Tchau!”
Eu tinha dado um salto em termos de forma de escutar musica, tendo comprado um potente "3 em 1" Sony. Como nunca tive um quarto próprio, dormia em uma cama de abrir que eu colocara bem junto ao aparelho de som, para que ao acordar a primeira coisa que fazia era ligar o som na Bandeirantes FM, que na época tinha uma programação totalmente voltada pra Rock e entre seus apresentadores, o genial Antonio Celso.
E assim aconteceu na manhã do dia 9 de Dezembro de 1980... "Confirmando a noticia dada durante toda a noite, John Lennon morreu assassinato ontem à noite na porta do Edifício Dakota, em Nova York, onde residia." Aquilo foi uma bomba... Como? Lennon estava morto?? E a chance à paz??? E o mundo da "irmandade dos homens"???  E durante aquele dia, o mundo parecia ter acabado. Todos os sonhos pareciam terem se transformado em pesadelo... A noite, noticias nos jornais de TV mostravam detalhes...
Mas algo ali me marcou de uma forma tão forte quando a própria morte de um dos meus maiores ídolos: a notícia de ele e Yoko tinham, no mesmo edifício, aliás, o mais caro de Nova York, um apartamento apenas para guardar casacos de pele...  Então, onde estavam aqueles conceitos que Lennon pregava sobre viver com menos posses, sobre igualdade entre pobre e ricos e tal...? Enfim, naquele dia me senti morto duas vezes. E aquele dia ficaria marcado na minha existência como um divisor de águas sobre os conceitos do Rock.
E pra mim, de certa forma, aquele foi o dia em que o Rock morreu. E meus discos não tinham mais a importância que sempre tiveram... E naquele dia e por algum tempo eu os odiei. E odiei tanto, que no final daquele ano de 1980, logo após publicar o meu livro de poesias mimeografado, vendi todos os cerca de 600 LPs que tinha, juntamente com o aparelho de som. Um dia inteiro carregando discos em sacolas de feira até a Wop Bop, loja onde eu comprara uma boa parte deles. Não acreditava mais no Rock, não acreditava mais na musica... John Lennon mentira e fora assassinado... E assim, no inicio de 1981 não sabia aonde ir, que estrada pegar, que bandeira erguer...

§20
Mas o andar natural deste texto já me carregou, e ao leitor, a uma época adiante, por volta de 1980, e acabei pulando uma fase importante, dentro do universo do Rock. E dentro dessas lembranças não poderia deixar de citar um dos shows mais peculiares que presenciei. Em 1977 Raul Seixas estreava na gravadora WEA e lançara o disco "O Dia Em Que a Terra Parou". O show de lançamento aconteceria em uma temporada no Teatro Bandeirantes. E lá fui eu, no dia da estréia. Fila enorme na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, eu bem no inicio, próximo a portaria, de onde dava para escutar a passagem de som (depois descobri que não era bem a passagem de som, mas uma pré-audição a Censores, obrigatória nos tempos de botas e de chumbo). As portas foram abertas e sentei na primeira fila, bem frente ao palco. Raul entrou, sem barba, uma roupa inteira branca e botas altas. E como sempre, completamente bêbado. Depois de algumas musicas, a banda toca a introdução da musica titulo, e depois de alguns minutos de enrolação diz: "Pára, pára, pára... Eu não lembro a letra dessa porra... Não vou cantar essa não... Alguém aí sabe a letra?". Um camarada sentado ao meu lado levanta e grita: "Eu sei!". E Raul: "Então sobe aqui e manda ver!".. O cara, lógico, sentiu-se no Céu e fez o que o mestre mandou. Raul desceu e sentou-se no lugar dele, ao meu lado... E dormiu.. Enquanto o cara cantava, ou ao menos tentava cantar "O Dia...." repetindo o refrão em lugar de qualquer coisa que não lembrava. A banda, visivelmente desesperada, procurava manter a moral... A musica acabou, o camarada desceu do palco e ficou ali parado, vendo Raul Seixas dormir.... O guitarrista olhava desesperado e ali eu, num gesto meio que desesperado, cutuquei o braço de Raul e disse: "Ai, mano, acorda aí... O show....". Ele deu um salto nas botas e subiu correndo ao palco continuando como se nada tivesse acontecido... Este foi um dos poucos, cerca de uns três ou quatro shows que assisti de Raul Seixas, pois muito embora gostasse muito de sua musica  e tivesse todos os discos, nunca gostei dessas atitudes dele em shows, sempre bêbado, lançando discursos pseudo-intelectuais quando esquecia a letra de uma musica.. Por aí... Mas decerto que foi um dos shows mais interessantes que presenciei.

§21
Mas ainda, como que respirando por aparelhos dentro de mim, o Rock ainda exigia, pedia oxigênio. E esse oxigênio foi dado no dia 21 de março de 1981, quando da apresentação da banda inglesa Queen, no estádio do Morumbi, com Love of My Life, sendo cantada a plenos pulmões pelo público e com direito a isqueiros acesos em todo o estádio. A esquisitice ficou por conta do trecho de "opera", de Bohemian Rapsody, quando o palco ficou às escuras, os músicos saíram entrando uma gravação...
Mas foi pouco o ar... Não acreditava mais naquilo, me sentia tão traído quanto no fim do relacionamento com Ângela. E foi então que conheci então minha primeira mulher. E dentro de 3 meses estávamos casados. Os próximos 15 anos foram de dedicação a filhos, casa, sobrevivência... E o Rock tomou então um papel secundário, pois embora continuasse a escutar, ainda comprando um ou outro disco ou CD posteriormente, era preciso manter uma família e educar filhos. Mas mesmo nestes anos, uma ou outra passagem ainda aconteceria, pois o Rock, uma vez que entrou nas suas veias não sai e hora ou outra lhe cobra tributo. E o tributo foi pago em 1983.
No principio desse ano, minha mulher engravadira. Ao chegar em casa com a noticia eu disse: ´"E Raul!!". O nome que tinha a um filho seria Ian e ela estranhou, mas algo me empurrava mais e mais a esse nome. E eu passava a desenhar o nome de diversas formas. E ao desenhar invertido resultou em "Luar" e aquilo me deu a certeza de que tinha que ser esse nome. Poucos meses depois Raul Seixas lançaria seu disco pela gravadora Eldorado. Nos dias que saiu, fui a uma loja e comprei, em fita cassete. Cheguei em casa e fui escutar.. E o susto pela musica que falava exatamente isso: "Luar é meu nome aos avessos..."
Em 1987 o nascimento de Ian e a luta pela subsistência da família me afastou mais ainda do Rock. Nesse período, apenas poucos shows, como Jethro Tull, Titãs e Lobão no Olympia e também poucas aquisições de gravações, a maioria em fita cassete, porque toca-discos já não tinha mais... As revistas foram rareando e tendo seu lugar tomado por revistas de informática, embalagens e outras úteis ao meu trabalho profissional como projetista de brinquedos numa grande indústria do ramo. O grosso das musicas que escutava eram nas FMs de Rock que aumentaram em numero consideravelmente, com o surgimento da 97 FM, da 89 e da Brasil 2000. Nessa época, a Ditadura Militar recrudescia, algumas coisas podiam ser faladas e cantadas, mas eu naquele momento era prisioneiro de uma prisão que eu mesmo construíra e a censura não era do "Departamento de Censura e Diversões Públicas", mas sim de dentro de mim mesmo, com um torturador insano invisível a enfiar minha cabeça dentro de um barril e gritar; "Confessa!"...  Mas efetivamente eu não queria confessar.

§22
Ilustrando o final do último capítulo, a citação ao horroroso "Departamento de Censura e Diversões Públicas", lembrei de alguns fatos que presenciei envolvendo censura e perseguição nesse período que, oficialmente durou de 1964 a 1985, mas que estou absolutamente certo em perceber que se estende, com outras armas e em outros flancos até os dias de hoje. Apenas com uma forma diferente de ação. Um ato do então presidente, General Médici criou a censura prévia a qualquer manifestação artística, a fim de resguardar o país, principalmente daquilo que era conhecido como "Ameaça Comunista" e "em nome da moral e dos bons costumes".  Sem nenhum critério ou ideologia, todos os artistas, pensadores, filósofos tiveram suas obras proibidas de chegar a seus destinos. E é claro, que o Rock, e a Musica de forma geral, não escapariam ilesos.
A censura, feito a justiça é totalmente cega e isenta de valores éticos. Sempre é uma questão de ótica individual e totalmente ligada a valores éticos e morais dos indivíduos que as exercem. A justiça, argumentam, é baseada nas leis que... Bem, essa ladainha é tão falsa quanto a premissa da censura: pode ser, e é, deturpada de acordo com interesses sempre próprios. Então eu quero aqui alargar o horizonte e falar sobre casos de censura das diversas formas, desde a mais tradicional, com a proibição por parte de um governo à circulação de idéias de qualquer forma e magnitude, passando pela autocensura do tipo "ah, eu não vou falar tal coisa que pode ser censurado/eu não vou publicar tal livro de ta autor, que pode ser censurado"  chegando àquela que é de cunho comercial, ou seja a "Censura Econômica", causada pela mais cruel das ditaduras, a Econômica.
Tirando as centenas e centenas de musicas proibidas pela Censura, particularmente durante a época mais dura do Regime Militar, entre final dos anos 60 até o final dos 70, que impediram as pessoas o acesso à obras de músicos como o citado Geraldo Vandré, que teve apenas umas poucas; Taiguara, que teve quase 100 e mesmo Raul Seixas, o inusitado foi a censura a algumas capas de discos, como a da capa do disco "Jóia", de Caetano Veloso e ao disco da banda UFO, que teve a capa de um disco mais atual trocada pela do disco anterior. ("No Heavy Petting" e "Forced"), sem que o disco em si acompanhasse essa troca. Ou seja, lançaram um disco com capa de outro. Mas isso não se sabe se foi por qual tipo de censura, se a oficial, a do medo de ser censurado ou a do medo de não vender. É um claro exemplo das "censuras".  Qualquer disco que tivesse imagem de nudez, total ou parcial não era lançado, ou tinha capa tarjada, trocada, modificada ou simplesmente tinha o lançamento impedido.  E embora nos jornais existisse a figura do Censor, presente fisicamente, e todas as obras artísticas devessem ser enviadas a Brasília para aprovação, o fato é que muita gente mal intencionada usou da Censura Militar para seus próprio métodos e medos escusos, conforme eu falei no inicio desse tópico.
Um outro exemplo: em 1978 a banda Rainbow, de Ritchie Blackmore lançara um disco ao vivo, o terceiro de sua carreira, chamado "Rainbow On Stage".  Claro que corri a comprar pois sempre fui grande admirador do trabalho dele, como de Dio, na época o cantor. Ao chegar em casa e começar a escutar o disco, comecei a perceber coisas estranhas, como músicas cortadas abruptamente. lendo atentamente a ficha técnica do disco, vi que existiam referencias à faixas que simplesmente não constavam do disco. No final um "Total Time" que demonstrava que aquele deveria ser um disco duplo. Um olhar mais atento ainda, á lombada: "A Two Record Set", ou seja: cadê o disco??? Me senti enganado e achei que poderia ser uma tramóia da loja. Dia seguinte voltei a loja e o vendedor, que já era meu amigo me explicou que, realmente, o disco original era um disco duplo, mas que no Brasil a gravadora tinha lançado simples... Tinham cortado musicas em qualquer ponto, retirado musicas inteiras... E nem sequer o cuidado de ao menos corrigir a ficha técnica. E naquele mês, o orçamento daquela casa humilde, tararitatata, ficaria menor ainda, pois fui a uma loja no que é a atual Galeria do Rock e encomendei o importado... Uma fortuna e seis meses para chegar..
E era comum esse tipo de absurdos perpetrados nem sempre pela Ditadura Militar, mas pela Ditadura Econômica. O trabalho de criação do quarto disco do Led Zeppelin, que oficialmente não tem nome, embora muitos apelidos, é algo de extrema criatividade. Quem já viu essa capa em vinil entende melhor o que falo, pois em CD tudo foi descaracterizado. O que prevalece na capa é a imagem de um velho com um feixe de lenha às costas. Olhando atentamente percebemos que aquilo é um quadro... Ao abrirmos a capa dupla, percebemos que se trata de um quadro em uma parede parcialmente demolida e ao fundo a imagem de uma cidade. Na parte interna, o desenho famoso e altamente copiado do Eremita (nãããããããão, aquilo não é um bruxo nem um mago), segurado uma lanterna, no topo de uma vila. Dentro um envelope que contem os famosos símbolos (nem todos esotéricos, aliás) dos membros da banda. E a letra de Stairway to Heaven. O detalhe é que não existe na capa, propositalmente, nenhuma inscrição, nenhum nome, nada que identifique. Esta era intenção de Jimmy Page. Uma criação artística que no Brasil teve a intervenção econômica da gravadora que: escreveu "Led Zeppelin" e colocou um selo amarelo canário com a inscrição: "Incluindo Stairway To Heaven" na capa. Na contracapa os nomes das musicas e os símbolos. Isso tudo numa capa simples, jogando fora a arte do Eremita e o envelope interior. Garanto que nenhum general nem ninguém ligado aos militares teve nada a ver com isso... Mas o fato é que as gravadora perpetraram verdadeiros crimes contra a arte nas edições de discos no Brasil, crimes tão grande quanto a Liberdade quanto os dos militares, apenas com a "sutil" diferença de não ter matado ninguém. Percebem as diferenças e semelhanças entre os diversos tipos de censura e ditadura?

§23
Entre os poucos momentos de tributo aos Deuses do Rock, preciso falar sobre a apresentação do Van Halen em São Paulo, em 1983. Precisamente em final de Janeiro. Na época eu morava numa quitinete bem no centro de São Paulo e o show aconteceu no Ibirapuera. Eu não conhecia muito de Van Halen e, na realidade, fui porque tinha ficado sabendo que a abertura seria da Patrulha do Espaço, que há algum tempo eu não via... Aliás, não tinha assistido nenhuma apresentação deles com o baixista Sérgio Santana. E, à revelia de minha mulher na época, compareci. Aliás, inventei uma história sobre hora extra no trabalho e fui. Nunca lhe contei isso e só agora, quase trinta anos depois, ao ler este texto é que ela irá ficar sabendo. Não tenho muita lembrança dos shows em si, mesmo porque sai antes de terminar a apresentação do Van Halen. Só lembro de umas pessoas comentando ao meu lado sobre o quão bom era o Van Halen, quando o show ainda era da Patrulha do Espaço.
E neste ponto abro um buraco no tempo para falar sobre a Patrulha do Espaço que, em minha existência como Rocker sempre teve ligações muito fortes. Conhecia o trabalho do Rolando Castello Junior como batera do clássico primeiro disco do Made In Brazil... E lembrava bem do nome, porque eu tinha um vizinho, mentiroso pra cacete, que tinha o sonho de tocar bateria. Nunca ninguém viu a bateria dele, mas ele contava, com riqueza de detalhes, que era ele o "Júnior do Made". Detalhe: o "Júnior do Made" era loiro, de cabelos enrolados... E meu vizinho é mulato, quase negro... Era motivo de risos dos mais antenados e de reverência, aos mais afobados.. Mas o fato é que, desde o Concerto Latino Americano de Rock, eu passara a estar presente em quase todos os shows deles, como no Ginásio do Palmeiras, ainda como "Arnaldo e a Patrulha do Espaço", Teatro São Pedro, Teatro 13 de Maio... E até mesmo no Led Slay e Playcenter... Uma quantidade enorme. Mas tem um que nunca saiu da minha cabeça, embora eu não lembre exatamente o ano... Teatro do SESC Vila Nova, uma apresentação d abanda numa segunda-feira... Num determinado momento, o genial multi-instrumentista Manito (Ex-Incriveis e Som Nosso de Cada Dia), estava na platéia e foi chamado ao palco. Apanha uma flauta e começa a solar, acompanhando um tema instrumental. O publico foi ao delírio, urrando, o que causou possivelmente uma crise de ciúmes, ou sei lá o que, no guitarrista Dudu Chermont, que espatifou uma caríssima SG Azul no palco. Um camarada ao meu lado ainda tentou ficar com uma parte do braço do instrumento, mas um segurança lhe arrancou das mãos.
Decidi colocar o presente tópico neste ponto, pois além da admiração pelo trabalho, acredito termos pontos em comum. Um deles, o fato de a banda entre 1985 e 1999 ter ido para o estaleiro como eu... Perdemos então o que seria considerado o "boom" o Rock Brasil, com o acontecimento do primeiro Rock In Rio e a explosão de inúmeros festivais internacionais. Coincidentemente, a partir de 1999 a banda retorna aos ares e pouco tempo depois, de certa forma, passo a fazer parte, mesmo que apenas como um colaborador, da tripulação da Nave Ave.
Em Janeiro de 2001, aconteceu uma apresentação, na verdade uma pequena temporada, da Patrulha no CCSP. E rumei para lá, numa sexta-feira. Depois do show deles, desci ao camarim e fui cumprimentar os músicos da banda e presenteei Rolando com uma camiseta de A Barata, retribuído com o recém lançado disco da banda "Chronophagia". A partir desse episódio, nasceu uma amizade e uma admiração muito maiores. Dias depois estava eu na casa dele oferecendo meus serviços como criador de sites... Ele mandou chamar Luiz Domingues (aquele mesmo, da Chave do Sol, das cartas...) e Rodrigo Hid e falamos, falamos, falamos... O site acabou ficando em segundo plano, mas no final da conversa, Rolando me convidou a ser "Manager" da banda, participando das "tours" e etc. Semana seguinte lá estava eu, embarcando no "Azulão", um ônibus Mercedez Benz ano 1976, pilotado por um  camarada que parecia "vestir" o ônibus, de tanto que o conhecia. O "Alemão", como era conhecido, era uma figura de uma disposição e competência sem paralelo. E lá fui eu, embarcando na primeira de uma série de jornadas para dentro dos intestinos do Rock'n'nRoll. Sim, porque apenas quem conhece a estrada, literalmente, pode dizer que conhecer o Rock. A adrenalina, a batalha, os detalhes de montagem de equipamento, de palco, de infra-estrutura, enfim todos os detalhes que precedem e sucedem um show de Rock são algo que, ninguém que não viveu pode entender.  E assim, durante cerca de quatro anos percorremos estradas que nos levaram a muitas cidades do interior de São Paulo, como São Carlos, São José, Catanduva, Jaboticabal, Jales, Limeira, Sorocaba, Bauru... e muitas outras, além de inúmeras cidades do Sul do Brasil, como Joaçaba, Lajes, Concórdia e outras, em Santa Catarina. A cada uma delas uma história e uma bagagem cada dia mais repleta de experiências humanas e roqueiras... Nessa época escrevi uma série de artigos com o nome "Diário de Bordo, Data Estelar", onde contava os detalhes, nem todos, de cada uma das viagens.
Em final de 2002, Rolando estava um pouco desanimado com os rumos do Rock e para onde estes levariam sua banda. Disse que tinha material inédito gravado, mas não tinha disposição de soltar. Ele me mostrou uma cópia da "master" e eu fui para casa com aquilo na cabeça. Cheguei em meu apartamento e, não lembro bem como nem porque, tinha um antigo compacto simples sobre minha mesa de trabalho. Olhei para aquilo e tive um "insight", sentei na frente do computador e horas depois, já dentro da madrugada tinha em minhas mãos um protótipo, com uma arte minha colada sobre aquele compacto antigo. O nome, que também era o conceito: ".ComPacto", assim mesmo grafado, com o ponto antes do nome e o "P" maiúsculo, fazendo um jogo com ".Com", "Pacto", "Com pacto", "Compacto"...  e no dia seguinte, logo de manhã liguei para Rolando e fui a sua casa, onde expus o conceito e mostrei minha idéia, de fazer um CD, mas usando o formato de capa de um compacto simples, de vinil antigo. E ai, as mangas foram arregaçadas e começamos a trabalhar. Pegamos um desenho que ele tinha e colocamos na capa. Algumas fotos em preto e branco na contracapa... Fiz todas as artes da capa e montei o encarte. Encarte esse que foi recortado e dobrado por mim e pelo "Roadie", Samuel Wagner na sala da casa de Rolando na Aclimação. Para a capa fomos, eu e Rolando, na quase extinta fábrica da Continental Discos, na Avenida do Estado, onde um funcionário disse que ainda tinha a antiga faca de corte usada nos compactos, o que daria àquele projeto um toque não apenas "vintage", mas totalmente autêntico. Essa idéia causou grande impacto, tanto em lojistas quanto na imprensa especializada. Uma idéia que podia não ser a mais original do mundo, mas que, decerto era muito boa. E de tão boa foi copiada por outras pessoas, como os discos da banda Exxótica, que a partir dalí foram todos feitos nesse formato. Acabei ficando muito chateado nessa época, até mesmo com os integrantes da Patrulha do Espaço, porque nunca admitiram em entrevistas que a idéia, tanto da capa, quanto do próprio nome do disco tinha sido minha, auferindo todos os louros de uma pequena glória qual eu teria direito.  E muito mais ainda, quando um dia, encontrei com o dono da banda Exxótica numa loja da Galeria Nova Barão, a Jardim Elétrico dos irmãos Alpendre, que me disse: "Eu copiei mesmo, coisa boa é pra ser copiada... E vou fazer todos os discos do Exxótica assim!" Na época, existiu um abalo na amizade com Rolando por causa disso, pois o "Reverendo" disse que tinha sido autorizado por ele a fazer daquela forma.
Mas, disco feito e lançado começamos uma verdadeira "tour de force" para divulgação, percorrendo, eu e Luiz Domingues, os pontos de venda e deixando os CDs. Há tempos que Junior vinha manifestando o desejo de tocar novamente na Led Slay. Como naquele momento eu era uma figura presente dentro da Led Slay (a ponto de ser confundido como um dos donos), até por ser o criador e o mantenedor do site da casa e tendo livre acesso aos donos, Sandro e Alberto, tratei de realizar esse desejo. E assim aconteceu, em Março de 2003, uma apresentação fantástica da Patrulha do Espaço para o lançamento de ".ComPacto". Foi uma autêntica Festa de Rock, pois além dos músicos da banda, foi chamada a Alexandra "Joplin" Silveira e Dudu Chermont, que após sérios problemas de saúde estava se recuperando. Particularmente a participação de Dudu foi algo emocionante por todos os pontos de vista. No final de sua participação, atrás do palco, eu o cumprimentei e disse estar feliz com seu retorno à musica. Dudu sorria feliz feito uma criança e dizia: "Como é bom tocar, como é bom tocar!". Mas, poucos meses depois, Dudu Chermont foi encontrado morto, sozinho, em sua casa...

§24
Continuando do ponto no tempo onde parei, no segundo semestre de 1999, um pouco antes do que seria mais um dos preconizados fim do mundo, me mudei para Belém, PA, a trabalho. Desde 1997 eu tinha retomado meus escritos, embora de forma ainda meio tímida, incentivado pela nova forma de expressão que surgia, a Internet. Criara um site onde começara a colocar além de textos meus, artigo sobre Rock e ai a antiga e renovada paixão começara a estender seus braços ao redor do meu pescoço. E em Belém, naquele último ano do Século XX nasceu A Barata propriamente dito. Ali foi criado o nome para um site que existia... E ali, em contato com um caldo de cultura totalmente diferente que escorria para dentro do meu cérebro, aquela paixão antiga tomou conta. Retornei a São Paulo em 2000 e após uma entrevista ao programa Vitrine da TV Cultura, passei a procurar pelo sangue que eu precisava, o sangue que faltara nas minhas veias por longos 18 anos... Sedento, feito um vampiro aprisionado numa tumba por milênios, eu queria saber tudo, saber o que tinha perdido, beber do que tinha sede, comer do que tinha fome... E então tornei a buscar os antigos lugares, como a Fofinho e a Led Slay. Particularmente a ultima, da qual fui o criador e mantenedor do site oficial durante cerca de cinco anos.
Mas a fome era muito intensa, insaciável, imponderável. Começavam a surgir os compartilhamentos de arquivos em MP3 e então... Os antigos caixotes de laranja foram trocados por Hard Disks de computadores... Gigabytes de musicas, uma revista de Rock e Cultura... E o site A Barata se tornando referencia dentro do universo de Rock na Internet. Meu casamento não ia lá muito bem das pernas e eu me voltara efetivamente ao meu antigo amor de adolescência, coisa típica de quarentões frustrados, diriam os psicólogos...

§25
No início de 2001, a noticia da vinda de Dio ao Brasil causou alarido em minha casa. Em mim, que sempre admirara o cantor desde a época em que comprava meus LPs do Rainbow, e meu filho Raul, que passara a cultuá-lo quase como um verdadeiro Deus, a ponto colocar "Stargazer" como sobrenome. Quando a data foi anunciada ele saiu de casa e gastou todo o dinheiro de seu salário mensal para comprar um par de ingressos. Literalmente inteiro, pois teve que voltar para casa a pé. No dia 5 de Abril acontecia o momento esperado e saímos de casa e, após atravessar a cidade bem no horário do rush, chegamos ao local, com mais de uma hora de antecedência. Foi uma apresentação impar, onde Ronald Padavona mostrou como sempre o respeito e o carinho que tinha para com os fãs. E ali, naquele dia em que eu registrara finalmente o domínio de Internet de A Barata, nasceu meu conceito de "Rock é Atitude!", que usaria dali para frente, como um segundo "slogan", juntamente com aquele que tinha criado ainda nos idos de 1998: "Liberdade de Expressão e Expressão de Liberdade".

Mas meu sentimento naqueles anos era de total abandono. Em Belém ainda, meu casamento tinha acabado, embora ainda habitássemos a mesma casa. Não conseguia emprego fixo e um amigo, que tinha uma empresa de informática começara a vender sites. Fui prestar serviço com ele e passei então a ganhar meu sustento criando sites para supermercados e puteiros luxuosos.  Em Belém eu tinha assistido um filme estrelado por Bruce Willis, chamado o Sexo Sentido, que conta a história de um cidadão que não entende porque ninguém o percebe, ninguém o enxerga, nem escuta.. Ele não tinha consciência, mas estava morto. E era assim que eu me sentia, como se eu tivesse morrido a 3.000 Km.. E pensava mesmo em voltar até o Pará, e tentar achar minha própria sepultura, ou talvez encontrar minha alma... Naquele tempo, naqueles momentos, meus dias foram ficando curtos, divididos entre sites e sonhos... E as noites, extremamente longas, entre garrafas e sonhos...

Nesse mesmo período, a convite de João Paulo Andrade, comecei a escrever para o Whiplash, E foi também nessa época que uma seguidora de A Barata, que trabalhava no Jornal do Brasil me convidou a escrever uma matéria sobre traição virtual. O texto saiu na edição impressa do jornal.

Foram anos de muita efervescência criativa, sendo que ainda lancei em Xerox, dois de meus livros de poesia, tendo A Barata atingido picos de 2.000 visitas por dia, com um conteúdo diversificado que ia desde cerca de 3.000 poesias de cerca de 300 colaboradores a entrevistas e sites de bandas hospedados gratuitamente em seus servidores. Aliás, ainda nos idos de 2001 criei algo que pouco tempo depois seria "coincidentemente" o My Space: Eu criava e hospedava gratuitamente sites de bandas iniciantes. Cheguei a ter mais de 100 bandas com páginas dentro de A Barata.
§26
Apenas "agitar um som" era pouco,, "bater cabeça", essas coisas não supriam minhas necessidades roqueiras.. Queria mais, precisava mais.  E foi assim que decidi começar a produzir eventos voltados ao Rock. Bolei um festival, que uniria bandas de Rock, Poesia e uma série de outras expressões artísticas e que deveria acontecer dentro de uma casa voltada ao Rock. Mas não tinha experiência nenhuma nisso, não sabia por onde começar, como fazer. Mas, como sempre, a vontade me falou mais alto e meti as caras. Não sabia se precisava antes do lugar ou das bandas, como fazer, o que ter, como pagar... Totalmente "cabaço" na questão de produção. Mas as coisas, quando a gente tem um desejo de potência, sempre acabam acontecendo. Falando com um, com outro, perguntando ali e alhures, consegui um "cast" de 5 bandas "cover", que tocariam sem pagamento, por amizade. Eu não sabia se aquilo iria render um centavo, então não podia me comprometer com ninguém ao pagamento. Depois de uma série de murros em pontas de faca, no escuro, consegui algumas alianças importantes, além dos músicos, como uma parceria com uma das Webradios de Rock pioneiras no Brasil, a Rock Geral de Paulo Rogério. Tinha um monte de idéias, de artistas, de amigos dando força, mas não tinha ainda chegado ao fundamental: o lugar. A Led Slay me assustava um pouco pelo tamanho e consequente risco. Fui então bater à porta da Fofinho Rock Bar onde a Renata e sua mãe toparam a idéia na hora.
Comecei então uma maratona intensa de contatos, contratos, criação de cartazes, elaboração de programas, ingressos, flyers... Uma infinidade de detalhes que podem passar despercebido a maioria, mas que custam muito trabalho & tempo & dinheiro... E assim foi, durante meses preparando o que chamei de "1º Fest'A Barata - Rock & Atitude". A data marcada não poderia ser pior: 11 de Janeiro.. Principio de ano, férias e... Bem naquele dia de 2002, uma sexta feira, o céu desabou em São Paulo. Temporais colocaram a cidade debaixo d'água... Mas mesmo assim, num dia totalmente infeliz, cerca de 350 pessoas, todos a meu convite e boa parte usando camisetas de propaganda de A Barata, compareceram ao bairro do Belém para participar. Varal de poesia, performances de teatro, apresentações em dois palcos, um garoto genial pintando um mural durante o vento... Enfim, um espetáculo multimídia como eu sempre sonhara. E ao amanhecer do sábado, quando as pessoas foram para suas casa, eu sabia que não tinha outro jeito, a antiga amante me arrebatara novamente. Daquele dia ainda conservo algumas fotos, muitas lembrança e, principalmente, um punhado de amigos.
Eu tinha criado A Barata ainda sem essa identidade, mas com o mesmo conceito em 1997. O nome exato surgiu em 1999. Uma série de homenagens e identificações estavam embutidas no conceito, Franz Kafka e A Metamorfose era o mais explicito, mas ainda tinha as associações com “underground”, gíria para buceta, o fato de as baratas terem sido o único ser a sobreviver à era dos dinossauros e outras. E também por algumas manias minhas como a de considerar “palavras perfeitas” aquelas que não contem encontros vocálicos ou consonantais e o de ter como vogal apenas a letra “A”... E coisas assim. Com A Barata crescendo e as pessoas passando a me identificar com ele, começaram a acontecer fatos do tipo:”Alô, é o Luiz!”, “Luiz?!” “De A Barata!”, “Ah, sim, agora sei quem é. Fala, Barata!”. Mas a primeira pessoa a chamar diretamente a mim de “Barata”, foi a Renata, proprietária da Fofinho Rock Club, justamente nessa época. E gostei muito, pois afinal, era uma espécie de “consagração” ao meu trabalho. E a partir daí passei incorporar esse “apelido” ao meu nome, tendo depois criado meu nome literário apenas com ele, acrescentando apenas o sobrenome. Foi assim que nasceu Luiz Carlos Barata Cichetto, ou apenas Barata Cichetto.

§27
Foi também nessa época em que conheci o guitarrista Marcelo Watanabe, bluesman que acabara de lançar um disco solo, com pretensões á MPB, chamado de Nave Louca. Marcelo é um excelente guitarrista e já tinha tocado com muitos expoentes do Rock e da chamada MPB. Acabei por desenvolver o site dele e posteriormente fazer uma espécie de assessoria de Internet para ele. Todas as terças-feiras, Watanabe aparecia na minha casa, portando um saco de pão, sentava e tomava café com a gente. E depois sentávamos à frente do computador para divulgar seu trabalho, responder e-mails etc. Acabamos criando uma amizade e uma parceria, portanto. E foi também por intermédio dele que conheci o dono da o Poeira Zine. Ele era um jornalista recém formado e com um projeto ambicioso auto-denominado "O melhor da musica do melhor dos tempos." E foi devidamente bem recebido, tendo eu colocado A Barata a serviço da divulgação de sua revista, apresentando aos contatos que eu tinha. Certa oportunidade, ao que me lembro em 2003, a Patrulha do Espaço faria um show no CCSP e ele me pediu que lhe apresentasse aos músicos. Final do show, levei-o ao camarim onde tiramos fotos com os integrantes da banda. Era uma parceria bacana, honesta. A Poeira Zine saia com o numero 1 e 2 e ele disse que precisava de um site. "Mas algo bem simples". Construir sites já era meu oficio e meu ganha pão, mas sempre procurei ajudar aos amigos. O preço cobrado era muito baixo, mas como era "um site bem simples para um amigo”, aceitei.  Mas ele acabou querendo um projeto muito grande, com grande dispêndio de tempo e recursos. Mas nunca voltei atrás e levei o projeto até o fim. Foi um dos sites mais trabalhosos, mas afinal um dos mais bonitos que fiz. O trabalho foi concluído e tínhamos um acordo, ele colocaria sempre um anuncio de A Barata em sua revista e eu não lhe cobraria as atualizações do site da revista. Até que um dia, achei muito estranho uma atitude dele vetando um anuncio que eu fizera e que mostrava uma mulher semi (semi mesmo) nua. Disse que era um cliente que o pregou contra a parede e que se aquele anuncio meu saísse esse não anunciaria. Percebi a mentira, mas mesmo assim aceitei mudar. Fiz um anuncio em que a imagem era o cano de uma arma e a pergunta "Isso Pode?"..  Pouco tempo depois ele me disse que não podia mais manter o site, por questões econômicas. Ainda procurei ajudar diminuindo o custo da hospedagem, mas ele não aceitou. Disse que queria mesmo tirar o website do ar. O domínio era ".com" mas pouco tempo depois li uma nota sobre ele com um e-mail atrelado a um dominio ".com.br", e ainda ingenuamente achei que se tratava de engano e o avisei. Mas ai descobri que ele havia criado na moita um outro site e me dado um pé na bunda sem prévio aviso.

§28
2003 foi um ano comum, comigo tratando de manter a subsistência da família construindo sites de empresas. Ao menos até o dia 9 de Julho, um feriado quando, ao ir a Led Slay tomar umas e escutar Rock, fui chamado por um dos donos que ofereceu o espaço para a realização da "2º. Fest'A Barata". Agora mais experiente, eu queria algo grandioso mesmo. E parti para todo aquele trabalho de produção, organização, divulgação, tetetetetete. A data marcada, 8 de Novembro. Então, como se diz no popular, parti pra ignorância, colocando na mesma noite e no mesmo palco 11 bandas, sendo 10 bandas "cover", e uma banda do Interior de São Paulo que eu dava uma força divulgando, criando site e tentando trazer para tocar em São Paulo. Em retribuição a meus "serviços prestados", o dono da banda resolveu pegar uma das poesias e musicar. A estréia da audição dessa música ocorreu naquela noite e foi filmada, fotografada e gravada. As coisas rolaram quase igual a de um ano e pouco antes na Fofinho; varal de poesias, bancas de tatuagem, revistas, artesanato etc. E dessa vez foram 650 pagantes de um total de mais de 800 pessoas.
Mas, por fazer quase todo o processo sozinho, todo o trabalho de organização de um evento dessa natureza é extremamente desgastante e cansativo e eu tinha decidido a não fazer mais.  Entretanto um antigo projeto envolvendo Black Sabbath martelava minha cabeça. A idéia consistia em montar três bandas diferentes envolvendo músicos de bandas distintas e cada uma delas com um vocalista diferente simbolizando cada uma das três fases principais do Sabbath; Ozzy, Dio e Gillan. E eu tinha as pessoas certas para isso, principalmente os vocalistas. Odair Cassani, que tinha participado dos festivais de A Barata era um cara fantástico que tinha um timbre idêntico ao de Dio; Abdalla Kilsam, que eu conhecera fazendo tributo ao Deep Purple era, até fisicamente, Ian Gillan perfeito. Faltava o Ozzy, que encontrei através de contatos, na figura de Marcelo Diniz, um morador de São Vicente. Entretanto, o projeto inicial naufragou por ser inviável juntar os "medalhões" das bandas paulistas que, entre outras coisas, tinham suas agendas. Acabei aceitando a idéia de Sandro da Led Slay e fazendo uma coisa mais simples, com as próprias bandas de cada um desses vocalistas que escolhera. E tudo parecia ir perfeitamente com o "Sabbath Trifásico"... Até três dias antes do evento. Na quarta-feira, a direção da Led Slay me chamou e disse que o valor dos ingressos que tínhamos estabelecido era caro demais. Afinal, segundo eles, eu tinha feito um show com 11 bandas e agora queria cobrar o mesmo valor para um com apenas três. De nada adiantou minhas explicações sobre custos de produção e outros. Eles decidiram que o valor do ingresso deveria ser menor. Eu já tinha contratado as bandas e pago parte do material gráfico. Enfim, tinha assumido compromissos financeiros que não podiam ser cancelados, e aquele valor de ingresso, a não ser para um publico enorme, não pagaria sequer os custos.
Para piorar a situação, na véspera do evento o dono de uma das bandas me liga e me diz que não vai poder tocar porque estava sem baterista. Tive que lhe esfregar um contrato na cara para que ele resolvesse vir, e mesmo assim tendo que me responsabilizar em arrumar um baterista que soubesse as músicas, justamente da fase mais desconhecida, a da "Fase Gillan.  Passei a noite de sexta e parte do dia de sábado em busca, em vão. No início da noite fui para a Led Slay com o intuito até de cancelar, mas fui salvo pelo amigo Odair Cassani que ligou para um amigo batera que sabia algumas musicas do disco. Algumas é melhor que nenhuma e o camarada veio e os shows aconteceram quase que sem problemas, a não ser pelo curto repertório da banda irresponsável, salvo pelo Abdalla que soube contornar as coisas sem deixar cair a peteca. Mas, o publico foi decepcionante, e também em função do baixo valor do ingresso, terminei a noite pagando o cachê das bandas e algumas despesas cobradas á revelia pela direção da Led Slay. Resultado: nem dinheiro para o ônibus de retorno pra casa. Só não fui a pé porque o Odair me deu 20 reais, retirados de sua parte do cachê. Jurei nunca mais fazer esse tipo de coisas, mas como sou ateu e minhas juras são sempre sem um "santo", acabei quebrando o juramento. E poucos meses depois estava às voltas com o "Vinho, Poesia & Rock'n'Roll", em parceria com o dono de um bar de Rock que ficava ao lado da sede do moto clube Abutres. Seriam 4 apresentações semanais, mas a primeira já se mostrou um retumbante fracasso, pois entre outras coisas, o dono do Magic Bus "esqueceu" da parte que lhe cabia: o Vinho. Mesmo assim ainda fizemos mais dois dias. Ainda produzi a apresentação da banda baiana de Metal Malefactor, um outro fracasso de publico e outra derrocada financeira. Desta vez, minha carreira de produtor de eventos estava definitivamente sepultada.

§29
E eu ainda não falei de Led Zeppelin e Pink Floyd? E nem o merecido sobre Janis Joplin? Então, que não percamos a oportunidade. E embora, na balada dos tempos, na fúria de Chronos em devorar o tempo, atropelando a linguagem e nos fatos que se misturam dentro da minha cabeça, em lembranças embaralhadas, por momentos deixo escapar fatos e histórias preciosos, ou não dando a atenção merecida á determinadas coisas, fatos e pessoas.  Falar de Janis é complicado demais, é como falar de nosso amor platônico de adolescência, algo inatingível, belo... Mas distante. Afinal Janis foi minha primeira amante, aquela que de uma forma surreal, me despertou para duas das coisas que  mais amei na vida; o Rock e o Sexo. Janis sempre foi a encarnação dessas coisas, num mesmo corpo, num mesmo espírito. E foi por intermédio dela que descobri de certa forma o mundo da paixão. Ao filme "Janis" assisti umas dezenas de vezes, tinha todos os seus discos, comprei o livro "Enterrada Viva", de Myra Friedman no dia que chegou a livraria. E durante muito tempo alimentei a idéia que apenas casaria com alguém que fosse parecida com ela. Coisa de adolescente (?) E muito adiante no tempo, nutri uma espécie de paixão secreta por uma amiga que era fã incondicional e tresloucada de Janis. Nunca tive coragem de declarar minha paixão. Afinal ela era "Muito Janis" e Janis era uma Deusa. E não podemos tocar as deusas. Muito menos trepar com elas.
Já Led Zeppelin é um outro caso de Deidade.. Afinal aquela banda sempre representou algo feito a hierarquia dos deuses. Existem os anjos e os santos, como existem as bandas de Rock. E existe O Deus, no caso o Led Zeppelin. Não lembro direito de que forma conheci, a primeira lembrança que tenho é de uma matéria na revista Pop e depois a alegria de ter comprado o Led Zeppelin II, que tinha uma das musicas de Rock mais fantásticas que escutei: "Whole Lotta Love", com aqueles "riffs" de Jimmy Page. Não, um ser humano não seria capaz daquilo, de tocar guitarra daquele jeito. Não, nenhum humano cantaria como cantava Plant; não nenhum terráquea seria capaz de tantas coisas tão melodiosas como aquelas de John Paul Jones.. E definitivamente não, nenhum ser, mesmo criado por algum Deus do Olimpo, tocaria bateria da forma com que John "Bonzo" Bonhan tocava. Eles não podiam ser humanos, portanto. Mas simplesmente Deuses.
Não, não é nada disso. Nem Led Zeppelin nem Janis Joplin são deuses. Deuses não existem a não ser no imaginário pobre de seres tão pequenos que acreditam que precisam deles para explicar sua mediocridade, justificar sua pequenez. Tanto um quanto outro, como o Pink Floyd, banda a qual também nutro uma admiração impar, são apenas belos e enormes seres humanos que souber fazer crescer sua pequenez e deixar de lado sua mediocridade criando e cantando musicas de uma forma muito mais eficiente e tocante do que outros e que, nos toca de forma diferente também. Não existem deuses, não há ninguém nem nada a ser idolatrado, mas no caso deles, existem seres humanos que precisam ser reverenciados e amados diferentemente, de uma forma muito maior.
E assim acontece comigo em relação à banda Pink Floyd. Criada por um dos maiores gênios da música contemporânea (note que nem estou usando a palavra "Rock") chamado Roger Keith, conhecido por Syd, Barrett e com a participação de outros amigos, o Pink Floyd se tornou um marco na musica, uma referência certa á centenas de outras bandas que surgiram desde o principio dos anos 1970. Pink Floyd é atemporal, é algo que parece que sempre existiu e sempre existirá na face do Planeta Terra. Eles mudaram a forma e o conteúdo do Rock, criaram não apenas uma escola, mas mudaram toda a forma de criar musica, fizeram de uma coisa simples e até ingênua que era o Rock, uma coisa grandiosa, gigantesca, eterna. Acho mesmo que daqui a cem, duzentos anos, Pink Floyd ainda será escutado e estudado, do mesmo jeito que ainda hoje, escutamos e estudamos compositores como Paganini, Beethoven e outros. A primeira coisa que escutei, o disco, "The Dark Side Of The Moon", foi numa fita cassete copiada de um amigo. Depois comprei uma original. Em pouco tempo, quando muito ouvidas, essas fitas "lixam" e começam a chiar. Comprei outra. Quando comprei minha vitrola, o segundo terceiro disco que comprei foi "The Dark...".. O disco riscou e começou a soltar estalidos de tanto rodar... Comprei um aparelho de som melhor e junto com ele, o Lado Escuro da Lua. Vendi os discos, casei, comprei um gravador cassete novamente e... A fita de "The Dark Side..."; comprei meu primeiro aparelho de tocar CDs... E o CD de ... ah, já sabe. Acabei um casamento, arrumei outra mulher. Ela quebrou meus CDs... Comprei outro... Acabei com todos os CDs, baixei milhões de bytes em musica para meu computador. E dezenas de versões de "The Dark Side... Enfim, escuto esse disco há cerca de quarenta anos e sempre encontro alguma coisa ali que me parece que nunca tinha escutado.
Claro que Pink Floyd não é apenas um disco e, embora a obra máxima do Pink Floyd seja um disco que jamais deixarei de escutar, existe ao menos uma dezena de obras primas compostas por eles. Desde The Piper at the Gates of Dawn (1967) e "A Saucerfull Of Secrets" (1968), passando por "Ummagumma" (1969), "Atom Heart Mother" (1970), "Meddle" (1971), "Obscured by Clouds" (1972), "Wish You Were Here" (1975), "Animals" (1977) até "The Wall" (1979) eles produziram apenas obras-primas. A partir daí, entretanto, a questão do poder subiu a cabeça , com Roger Waters tentando dar um golpe militar em cima dos companheiros e uma briga judicial que só não ofuscou o brilho eterno, porque Pink é muito maior do que tudo isso, é muito maior até que a loucura que afastou Barrett, maior que a ganância de Waters, maior que o talento genial de Gilmour... Pink Floyd é maior mesmo que seus próprios músicos... Pink Floyd tem vida e luz próprias...

§30
Em 2004 eu era um condenado á morte numa sentença sem recurso. Meu casamento tinha acabado, meus projetos como produtor de eventos tinham fracassado, quase não tinha trabalho. Me sentia um doente terminal. Então, exatamente no dia do meu 46º aniversário conheci uma garota 20 anos mais jovem. Aquele dia tinha sido um dos piores, e eu só tinha um desejo na cabeça: morte. Mas quando a noite chegou foi para a Led Slay... E ali começava uma guinada na minha vida que eu nunca tinha experimentado. Quinze dias depois, apanhava meu computador e algumas coisas estritamente pessoais e ia morar com ela. Foi um ano e meio de muita loucura em que na maior parte passamos brigando, bebendo e trepando. As vezes as três coisas ao mesmo tempo. Mas a realidade é que foi uma das experiências humanas mais ricas que eu vivi e decerto aquela que mais me fez crescer como ser humano. Sexualmente, desde "Sweet Jane" eu nunca mais tivera experiências tão intensas e prazerosas. E isso usando todo o espectro amplo que a palavra "prazeroso" possa carregar.
Com o "sucesso" de A Barata, muitas pessoas começaram pegar carona. Durante a época em que era Webmaster do site da Led Slay era tratado com reverência pelos puxa-sacos que queriam ingressos e, principalmente, entrar de graça. Não faltaram mulheres morrendo de tesão por mim e "amigos" sempre dispostos a criar musicas para minhas poesias, participar dos eventos que eu promovia e, no caso de “músicos” tocar em algum deles. . Além de publicar escritos dentro de A Barata, é claro. E algumas dessas pessoas conseguiram o que queriam. Era comum ter um séquito atrás de mim na entrada da Led Slay... Todos entrando de graça... Era comum ter mulheres apaixonadíssimas, morrendo de desejo... Foi engraçado, porque fui até chamado de "bicha" por não ter comido aquela mulherada. Sempre fui fiel em meus relacionamentos e, embora do meu casamento não restasse nada além da Certidão e dois filhos, meu senso de fidelidade prevalecia. Uma delas, que, aliás, eu sabia que era casada embora sempre pagasse o ingresso com uma “chupeta” a um alto funcionário,chegou a me perseguir a noite inteira e no fim da madrugada me agarrou pelo braço, colocou minha mão entre suas pernas, até bem bonitas por sinal, e disse "Não gosta de buceta, não?", "Adoro. Mas não da sua. A sua tem certificado de propriedade e além do mais você está bêbada.". Pouco tempo depois ela foi expulsa por estar transando dentro do banheiro com um dos porteiros.
E por falar em propriedade, tive alguns problemas com isso, com pessoas ávidas em ter seus textos publicados em A Barata. Duas dessas pessoas, mulheres, que, aliás, eu conheci na Led Slay, cismaram de ser poetas e escritoras. Uma plagiou Cora Coralina. O mais interessante é que quando descobri, por um intermédio de uma leitora que me mandou um e-mail furioso provando a fraude, a pseudo-escritora chorou, esperneou e disse que a mãe era testemunha daqueles escritos. Mas o texto era, ponto por ponto, palavra por palavra, idêntico. A outra, que copiou um poema de Herzer, de "Queda Para o Alto" deu uma de besta, de ingênua e não tocou no assunto. Uma coisa é totalmente abominável num ser humano: copiar o trabalho alheio. Principalmente uma poesia ou texto literário, pois ali o que se rouba é muito além de algo material, se rouba o espírito do verdadeiro autor. Rouba-se seu momento, sua dor e sua alegria.
Há pouco tempo atrás tive problemas sérios com coisas minhas roubadas por a dona, ao menos assinava como mulher, que pegou 25 poemas meus e publicou em seu nome num Blog. A desgraçada ainda mudou quase todos os títulos dos poemas e mudou o gênero, com isso quebrando rimas e sentidos dos textos. Entrei com uma denúncia contra a Google que retirou os textos da Internet. Mas acredito que ainda existam coisas minhas plagiadas, baseadas num principio doentio e criminoso de que na Internet nada tem dono. Há bastante tempo, com o intuito de resguardar meus direitos, passei a registrar no Escritório de Direitos Autorais da Fundação Biblioteca Nacional, e nunca publicar algum texto na Internet antes de receber o protocolo de registro.

§31
Desde 1996 eu tinha um grande amigo, um irmão separado na criação, conforme nós mesmos brincávamos. João Kraciunas é um descendente de lituanos, programador de computadores, da minha idade e com uma bagagem intelectual pouco comum. E nossas conversas sempre se estendiam por horas a fio, às vezes noite ou tardes inteiras. Falávamos basicamente sobre Filosofia e Rock, sendo que nossos pratos preferidos eram Rock Progressivo e Nietzsche. Ele dizia que eu era a única com quem ele podia falar sobre o bigodudo filosofo alemão sem brigar ou dormir. E eu, que ele era o único cara que era fanático por Rock Progressivo que não me causava sono. Assim, com as palavras encharcadas de latas e latas de cerveja, discutíamos sobre os temas dos mais banais aos mais surreais sem cansar. Ouvíamos as bandas de "Krautrock" à exaustão e criávamos teorias conspiratórias que uniam de Platão á Bill Gates. E assim nos irmanamos durante todos esses anos.
No final do ano de 2005 eu não tinha destino, dinheiro, sonho, porra alguma. Era sentar, chorar e procurar forças para reconstruir minha existências. E não podia usar escombros, não podia contar com tijolos familiares. E foi à casa de JK, como eu o chamava que fui aportar. Ali, diariamente, João escutava minhas lamentações, minhas lástimas e minhas teorias sobre relacionamentos. Hora ou outra tecendo algum comentário, sempre embasado nas teorias de Freud, enquanto eu rebatia com as de Jung. Aliás, pelos teores de nossos embates, ele era Freud e eu Jung... e reinventamos a psicanálise. E acredito que no meio disso tudo Schopenhauer dava enormes gargalhadas. A trilha sonora? Sempre Kaleidoscope, Spirit, PFM, Banco del Muttuo Soccorso...  Fiquei três meses ali e no inicio de 2006, tentei retomar o relacionamento com minha primeira esposa, que se revelou um autêntico fracasso. Um ano depois estava de volta á casa de meu amigo, para mais uma pequena temporada de embates filosóficos regados a cerveja e churrasco na madrugada.

§32
Até 2000 ou 2001 eu pouco conhecia da obra do poeta e escritor alemão-americano Charles Bukowski. A não se por um ou outro conto ou poema lido em alguma publicação literária. Mas, comecei a me interessar mais fortemente por sua obra quando um correspondente me chamou de Baratowski, que segundo ele seria “Barata Bukowski”. Mas eu nem sabia que estaria prestes a viver uma experiência digna de um personagem Bukowskiano. Carolina era pequena, mas tinha um corpo bem feito, ancas largas e peitos grandes. Morena, cabelos muito curtos. Conheci-a em um Salão de Rock e iniciamos um romance digno de “Crônicas do Amor Louco”... Quase uma criança na idade e na aparência, mas de uma disposição e um apetite sexual que deixaria corada até mesmo Messalina, Carolina desde o inicio confessara ter também apetite por mulheres, o que não causou em mim nenhuma sensação de repulsa. Meu relacionamento com Yaracy tinha me dado compreensão suficiente sobre o assunto. Ao menos foi o que imaginei.
E no principio era o Tesão, apenas o Tesão bailava nos campos floridos... Vivíamos nus e transávamos o tempo inteiro, sempre ao som de “Status Quo” e “Pink Floyd” que ela gostava muito. (Aliás, tenho que reiterar neste ponto o que falei sobre Pink Floyd: se o queido leitor ou leitora nunca transou ao som de “The Dark Side Of The Moon” ou “Meddle”, ou não sabe o que é transar, ou não sabe o que é Pink Floyd.) E ela tinha tanto tesão que quando ficava por cima eu sentia o melado escorrer pelas minhas pernas. Sem contar os gritos na hora do gozo, que eram tão altos que em inúmeras oportunidades tivemos que atender vizinhos reclamando do barulho.
Mas depois se fez o verbo.. E o verbo se fez sob a forma de uma antiga namorada. A partir de então as coisas entre eu e Carolina começaram a mudar. Um dia, domingo, depois passarmos a tarde inteira bebendo e escutando Rock, decidimos ir até um Bar de Rock que conhecíamos e na lanchonete da esquina continuamos a beber e dentro do bar da casa continuamos. Num determinado momento, Carolina subiu no palco e ameaçou tirar a roupa. Era hora de ir embora, pensei. Subimos no ônibus e o caminho inteiro ela permaneceu calada. Ao chegarmos, ela deitou na cama, mas minutos depois levantou, foi até a estante onde estavam meus CDs e sem porque algum começou a atirá-los no chão. O tapete da sala ficou forrado de Pink Floyd, Jethro Tull, Led Zeppelin, Deep Purple, Janis Joplin... Enfim uma decoração bastante inusitada. Ato contínuo ela, descalça, começou a pisotear os CDs e falando: “Quer saber o que eu faço?!” Eu quero essa porcaria toda!” . Não entendi porra nenhuma porque não tínhamos tido nenhuma discussão, nada mesmo. Ela cortou os pés nas lascas de plástico e ainda assim, apenas de calcinha abriu a porta e saiu pelo corredor em direção à rua. Tive que usar força para conseguir segurá-la. Coloquei-a sentada numa cadeira e procurei acalmá-la, dando chá, que ela obviamente vomitou... E sobre os restos dos meus discos... Depois acendeu um cigarro, colocou os pés sobre a mesa do computador e começou a proferir ameaças, injurias e palavrões. Isso tudo referindo-se a ela mesma na terceira pessoa do singular, como se possessa por algum espírito. Fiquei atarantado, sem saber o que fazer. Sentei-a no sofá, e tentei acariciar sua cabeça no que ela segurou meus cabelos e começou a puxar, bater no meu rosto e dizer: “Ela é minha, ela não vai ficar contigo, ela é minha!”. Depois apanhou o batom e começou a pintar a testa, as bochechas, meu rosto,, minhas pernas. Horas depois, consegui deitá-la sobre a cama, o que a “despertou”. “O que aconteceu, onde estou?”... Coisas assim. “Não lembra?” , “Não, não lembro. A ultima coisa que lembro é que estávamos no bar, e eu em cima do palco...” O dia amanhecia e eu passara uma noite de um terror que nunca tinha experimentado. Ela ainda quis transar, mas eu disse que estava cansado. Esperei ela dormir e fui recolher os restos da minha coleção de CDs e limpar a sujeira que tinha ficado. Dos quase 200 CDs que eu tinha, sobram uns 50 inteiros. Todos os outros estavam quebrados. E mesmo desses, uns 10 ainda fui obrigado a comprar caixas de plástico. Lá pelo meio da tarde Carolina acordou, disse que estava com fome. Preparei um café, tomamos silenciosamente e passamos até o meio da noite transando freneticamente. Tinha medo de tocar naquele assunto e ela, claro, não tinha interesse. Em poucos dias eu entenderia porque.
Desde essa noite, nosso relacionamento foi deteriorando e passamos a beber mais, trepar mais e também a brigar mais. Era uma coisa tentando compensar a outra, mas por vezes fazíamos as três coisas ao mesmo tempo. Suas atitudes, sempre intempestivas foram se tornando irracionais, a ponto de, sob qualquer pretexto ela apagar um cigarro na minha perna, morder meu rosto quando perdia uma discussão. Nunca admiti encostar a mão em uma mulher, mesmo quando toda a razão estivesse comigo. Mas com Carolina estava perdendo a paciência. Um dia falei a ela: “Olhe o tamanho da minha mão, é maior que sua cabeça inteira. E estou perdendo a paciência contigo.” Mas como era de seu costume, Carolina ria e depois partia para a sedução, sempre com alguma coisa diferente. Num desses dias em que acabáramos de transar e começáramos uma briga, bebendo o tempo inteiro dos dois atos, ela me disse que precisava me confessar algo. “Sim!”... Imaginei que ela fosse falar algo sobre o Dia da Destruição dos Discos, mas ela foi seca e direta:”Eu prefiro mulher!”. “É?”  Ela adorava Maria Rita e sabia que eu detestava, e mesmo por isso, levantou, apanhou entre seus CDs (claro que os dela ela não quebrara) e colocou um CD da filha mais chata da chata da Elis Regina. “Sabia que ela é lésbica também?” “Não, não sabia, nem interesso em saber... Mas porque ‘também’?”, “Porque eu sou... Também. E quero falar, eu tenho saído com a minha antiga namorada sempre que posso... (Silêncio)  E não quero mais saber de homem, acho que é melhor tu ir embora...”. Ok, mas já que você está confessando isso, me tira uma duvida: naquele dia, aquele que ...” , “Aquele dia? Ah, sim, era tudo teatro. Achei que fosse te chocar tanto que no dia seguinte, cê ia pegar suas coisas e ir embora.”
Não tinha o que falar, apenas arrumei minhas coisas e fui embora. Duas horas depois meu celular tocou, era ela perguntando onde eu estava, e pedindo pra eu voltar. Troquei de roupa e no meio da madrugada cheguei ao apartamento. Ela me recebeu de calcinha e correu ao telefone onde continuou uma tranqüila conversa que seria com a tal ex-não-tão-ex namorada. “... Então, cuide-se bem, o Lu esta aqui.. É, a gente se ama...Tchau. Beijo”. E assim terminou o diálogo. Se é que tinha realmente do outro lado da linha.
“Gosta disso, né?!” Perguntou colocando no aparelho o CD “Wish Were Here”, do Pink Floyd. “Sim, sabes que sim!”, “Eu sabia. Foi ela quem me deu. E eu falei que ia transar contigo escutando isso... E sabe o que ela disse?”, “Não, não sei.”, “Ai que delicia! Foi que ela disse”...E quando os primeiros e mágicos acordes de “Shine On Crazy Diamnod” encheram o quarto, Carolina pulou sobre mim, arrancou minhas calças e começou a chupar meu pinto... Transamos, tomamos umas garrafas e dormimos. Quando acordamos  o mau humor nela era claro.. Aliás, suas mudanças de humor eram repentinas, muito repentinas e inexplicáveis. Ficamos mais algumas semanas, mas um dia, o derradeiro, depois de uma briga porque ela queria passar a noite numa festa de umas amigas lésbicas, incluído a tal ex-não-ex, discutimos por horas e horas sem parar (sem transar e sem beber), e quando ela pela terceira vez apagou um cigarro na minha perna, eu dei um tapa em seu rosto atirando-a sobre a cama e disse: “Então é assim, é assim que quer lembrar de mim, né?!”. Arrumei minhas coisas e desapareci. Mas, poucas semanas depois fiquei sabendo que ela estava de novo romance... E não era com mulher, não. Eu tinha trocado o numero do meu telefone, mas mesmo assim, não sei como ela descobriu. E um ou dias depois de eu saber de seu novo caso, ela começou a ligar no meio da madrugada, à noite, de manhã bem cedo. Não tinha coragem de xingar, despachar... E ao mesmo tempo meu racional queria saber onde ela queria chegar. Os papos foram esquentando e um dia eu perguntei se ela não queria transar comigo. Em principio disse que não, porque eu iria achar tínhamos reatado e ela não queria isso. Disse que não, que apenas queria transar com ela, daquela forma maluca de antes. “Promete que é apenas transar mesmo?” “Sim, eu prometo, sim!”
Saímos e fomos a um motel. Transamos e eu fiz questão de submetê-la a uma serie de caprichos eróticos, exigindo coisas que nem mesmo nas transas mais embebedadas que tivéramos eu pedia. E ela foi concordando com todos os meus pedidos. Até mesmo o anal, que ela sempre negara acabou aceitando. Depois de algumas horas de loucuras eróticas ela dormiu. Silenciosamente fui até o banheiro, tomei um banho, coloquei a roupa, desci as escadas e sai. Era noite e fui direto pra cama ao chegar ao quarto onde dormia. Acordei as 6 da manhã com o telefone tocando. Era ela. “Oi, tudo bem?”, “Tudo, quem é?”, “Sou eu, a Carolina... Cê me deixou só....” , “Olha, escuta aqui, cê não está com outra pessoa?”, “Sim, estou.”, “Então porque não fica quieta e transa com ele... Agora imagino o que fazia quando estava comigo... Me faz um favor, não me procura mais não.” . E desliguei o telefone. Nunca mais ela ligou, nunca mais fiquei sabendo nada dela. Mas aquele CD do Pink Floyd, eu coloquei entre minhas coisas e tenho até agora comigo...

§33
"O Rock nasceu de uma necessidade psicológica original: eliminar as garras da sombra". Essa frase, de autoria do filósofo Luiz Carlos Maciel, publicada em "A Morte Organizada", 1976, sempre me foi verdadeira. O Rock dentro de mim era simplesmente isso, eliminar as garras da sombra, jogar luz dentro de minha mente escura, sombria, lotada de fantasmas. E mais do que em qualquer momento, naquele 2007, um dos anos mais gelados de toda minha lembrança, eu precisava de muito Rock. Morando em um canto na fábrica de etiquetas onde também passei a trabalhar. Um pequeno retângulo de cerca de 5 metros quadros era o suficiente, pois qualquer coisa maior aumentaria ainda mais o meu sentido de solidão extrema. Quando as sombras da solidão nos esperam, precisamos estar num espaço pequeno, pois quanto maior é o tamanho do nosso quarto, maiores são as sombras na parede. E era por isso que eu coloquei duas coisas essenciais naquele cubículo da Penha: um pôster em preto e branco (o preto e branco é maravilhoso e se confunde com as sombras) de Janis Joplin nua e um peixe beta. A parte boa da solidão, além de podermos cagar de porta aberta, é que ela nos faz sentir importantes a nós mesmos, quando olhamos por uma ótica intima.
Entre rolos de etiquetas e impressoras de código de barras, o dia corria. Mas a noite, era entre litros de Rum com Fanta e muita putaria que ela acontecia. Ia todas as noites jantar numa Casa do Norte próxima ao Cemitério da Penha e acabei jantando (e almoçando) duas das garçonetes. Uma delas que era muito magra e branca, as 4 e meia da manhã no muro do Cemitério. A outra, uma negra que lembraria um pouco "Sweet Jane", foi devorada num motel. "Foi" devorada é maneira de falar, por na verdade ela foi quem me devorou. Numa quebrada, em meio a um monte de lixo e entulho atrás da Led Slay, uma garota de nome Cristina, se não me engano. Eu, completamente bêbado e ela muito chapada achando que eu era Raul Seixas. Foi muito engraçado porque a garota era fanática e ficava o tempo todo, enquanto eu a comia, cantando músicas como "Maluco Beleza", "A Maçã"... E outras. Um outro dia, na Galeria do Rock encontro uma gótica... Ela conhecia A Barata e disse estar contente por estar ali comigo, que conhecia e admirava minhas poesias e tarari, tarará.... Mas era ruim de cama pra cacete, do tipo de mulher que parece que irá lhe arrancar o saco de tanto lhe chupar, lhe dar até o buraco das orelhas... Mas na hora agá, deita, abre as pernas e... Mais nada...  Num puteiro das proximidades, conheci a Puta Caridosa. Ela fazia programas e depois saia na calada da madrugada com parte do dinheiro arrecadado comprando comida e distribuindo aos mendigos da rua. Sai umas duas ou três vezes com ela fazendo esse roteiro, depois de fechado o puteiro. Ela parecia a Madre de Calcutá enquanto distribuía pão, mortadela e refrigerante aos mendigos. Mas uma Madre Tereza de um par de peitos e uma bunda enormes, além de uma buceta muito suculenta e sempre querendo ser penetrada.
De sexta a domingo era Dia de Rock. Led Slay, Fofinho, Café Piu-Piu. Nas duas primeiras, desde a época em que realizara meus eventos, eu tinha passagem livre e principalmente na Led, ainda certo prestigio, herdado da época em que fazia o website. E foi então que percebi que, ao contrário do que pensava, não era tão desinteressante às mulheres. Algumas, sabendo que agora eu não tinha amarras nem algemas, confessaram que tinham interesse por mim há bastante tempo. Então, ao que interessa... Dayana era um desses casos. Mas foi em outro bar que a conheci, trabalhando. Ela era garota de um conhecido da Led Slay e tinha um filho pequeno com ele. Confessou interesse em minha pessoa há bastante tempo. Fui ficando, bebendo e percebendo que aquele olhos claros não desgrudavam de mim. Fechado o lugar ela disse que precisava recolher as garrafas e copos dentro do salão. Prontifiquei-me matreiramente a ajudá-la. O salão às escuras e eu trepei com ela em cima de uma das mesas de plástico, em meio a copos de cerveja e guardanapos de papel lambuzados de molho de cachorro quente. E depois foi que percebi que o DJ ainda no fundo do salão enrolava seus cabos. Acho que ele nem percebeu...

§34
"Não posso ser maior do que sonho/nem maior que o pesadelo". Esse é um trecho de uma poesia minha, chamada "Sangue de Barata", que conforme contei umas páginas atrás, fora musicado por uma banda do interior de São Paulo. Umas pessoas ligadas a uma revista de Rock decidiram criar um Festival Virtual, o "Rock na Net" e eu, claro, coloquei A Barata dentro da jogada, divulgando maciçamente, sem ainda saber que a tal banda estaria participando. Pouco tempo antes da audição das semifinalistas foi que fiquei sabendo e isso só aumentou meu empenho em participar. A final aconteceria em uma sexta e um sábado. Na sexta a tal banda iria tocar e fui pra lá. Uma porrada de gente conhecida do Rock estava lá, incluindo Percy Weiss que estaria também participando. Na chegada ele me cumprimentou e profetizou: "Essa musica é muito boa. Vocês já ganharam!". Tinha gente muito boa participando, bandas do Brasil inteiro. E assim rolou a apresentação de "Sangue de Barata". A banda precisava voltar à sua cidade e o resultado sairia no outro dia. Perguntei ao organizador se eu poderia representar, inclusive pelo fato de ser co-autor. Ele concordou e no dia seguinte lá estava eu. Um detalhe: confundi o horário e quando percebi o engano sai correndo, atropelando passageiros no Metrô e tudo mais. Cheguei, subi correndo e ao entrar no teatro onde acontecia escutei: "Parabéns então à segunda colocada. E agora, a vencedora "'Sangue de Barata'". Sai correndo, subi no palco, minhas pernas tremiam, eu não conseguia falar. Uma emoção sem precedentes, indescritível. Liguei ao meu parceiro e ele nem acreditou, achou que era brincadeira minha. Dias depois, no CCSP encontrei com o organizador que confessou: "Tinha muitas bandas boas, musicas excelentes, mas o critério final, o desempate, foi em função da letra." Claro que senti um grande orgulho com essa afirmação. Cerca de um mês depois, retornamos ao local para a gravação do que seria prêmio: um DVD. Depois de um bate boca inflamado entre o cantor da banda e o operador de som, a gravação finalmente aconteceu, com a participação de Percy e Oswaldo Vecchione do Made. No momento de tocar "Sangue de Barata" fui chamado, ou melhor, empurrado, ao palco. Nem preciso contar sobre a emoção que senti. Agitei, cantei, pulei, participei até do coro no refrão. Uma sensação que eu nunca tinha sentido.
Naquele dia, ao retornar da premiação do Festival Rock na Net, a única coisa que queria era ter alguém para compartilhar. Olhava para aquele troféu dentro do Metrô pensando: "Porra, mas que graça tem, tem um momento de glória e ninguém para compartilhar.." Dias depois o prêmio foi mandado para o interior e nem aquilo eu podia mais admirar. Foi quando apareceu, por intermédio do Orkut, uma pessoa que seria, três ou quatro meses depois, minha quarta esposa. Nosso primeiro encontro foi no Café Aurora, na 13 de Maio, durante a apresentação da banda "Big Balls", de Xando Zupo, que tinha o antigo amigo Abdalla no vocal. Quando entrei, ele me saudou para o bar inteiro. E ainda naquele Natal, fomos morar juntos. Achei que tinha encontrado alguém para compartilhar. Mas aquele casamento foi um tremendo erro para as duas partes e não tardou a começarem os problemas. Mas, como diz a música do Made In Brazil, "Deus Salva e o Rock Alivia". E o alivio vinha sob a forma de vários sábados que passamos no "Dylan Rock Bar", no Tatuapé, onde curtíamos um ambiente muito tranquilo e bandas ao vivo, como a Mizzy Trio, de Diogo Oliveira e Marcião Gonçalves, que era quase que a banda da casa.

§35
Desde a época em que comecei a trabalhar com Internet , construí muitos sites para puteiros, putas e correlatos, mas sempre era um trabalho contratado, como foi em 2001/2002, com os websites para o Baços, Medieval e Connection, do mesmo dono. Tinha feito um outro, para uma “amiga de um amigo”, a Syanny... Mas em 2007  uma idéia me pegou: porque não juntar o útil ao muito prazeroso? Navegando na Internet, encontrei o contato de uma garota de programa que assina “Monica Casada”. Mônica Dias... Tem um blá-blá-blá, de que é casada e tal.. entrei em contato com ela e depois da troca de algumas correspondências eletrônicas, o telefone e a minha proposta: eu faria um website para ela e o pagamento seriam algumas noites de sexo. Uau! Sou um gênio! Uma tarde de sábado marcamos, num Hotel na Lapa. Carreguei câmera fotográfica e ao chegar ao hotel tomei um susto. A desgraçada era uma tranqueira absurda.As fotos na Internet deviam ser de uns 10 ou 15 anos antes, pois ela era caída mesmo. Peitos moles, bunda despencada... Um horror. Mas, como prega o antigo ditado, estava no Inferno e iria abraçar o Cão.. Ou melhor, foder a cadela. Gosto muito de, digamos, chupar manga antes de tomar o leite... Mas aquela manga, cacete, fedia demais. Nunca vi uma buceta feder tanto. Desisti de chupar manga e resolvi só comer o cão, ou a cadela que seja, mesmo. Mas a danada além de caída se achava a rainha, cheia de exigências, cheia de pudores... Uma merda! Nem preciso arrematar que o acordo comercial não foi concluído...
No final do ano de 2008, fui convidado pelo antigo parceiro a quem eu tinha muito ajudado divulgando sua banda e tinha de certa forma dado metade do premio que ele ostentava, a ter um programa próprio numa Webradio que ele estava gerenciando. Com relação a rádio tinha apenas o sonho, mas nenhuma experiência. Passei dois meses estudando, aprendendo os "softwares" de edição, enfim produzindo o primeiro programa. Era final de ano, pouco mais de um ano depois de meu casamento, e a data marcada para a estréia do Rádio Barata. No dia marcado, quebrei um pau daqueles de não sobrar pedra sobre pedra com minha esposa e nos separamos. Nem tive como acompanhar a estréia do programa, pois fui dormir num hotel, completamente bêbado, esperando o dia seguinte para apanhar minhas coisas.  Fui para o único porto seguro que sabia então, a casa de meus pais. Mas ali, como não tinha acesso a banda larga de Internet, as dificuldades de trabalho e montar esses programas de rádio era um problema. Cheguei a levar o programa pessoalmente no escritório do dono da rádio em CD.
Não acredito que Rock seja algo podre, nojento, sujo... Ele também pode ser assim, mas pode também ter um tom mais adocicado, mais amargo, mais... Mais o que quiser.. O Rock é o que quiser, embora muita gente não entenda. E por causa de um programa com um tom diferente daquilo que o "gerente" da rádio gostava, acabei sendo demitido. Minha cabeça estava totalmente sem rumo, novamente e naquele momento os pensamentos não tinham a clareza necessária. Claro que cometi alguns erros, como o de aceitar publicar em A Barata, um texto assinado sob pseudônimo criticando a banda Pedra. Na verdade não era nem criticando diretamente nenhum dos músicos, mas dizendo que a banda era "chata e pretensiosa". A coisa se transformou num pandemônio, numa confusão desgraçada, com Xando Zupo, o guitarrista da banda ameaçando me processar e coisas assim. Dias depois, meu ex-amigo, fez uma entrevista com ele e os dois meteram paulada nas minhas costas. Fiquei sabendo disso por intermédio de um amigo que escutou, gravou e me mostrou posteriormente. O mais interessante nisso é que o entrevistador, meu "ex-parceiro", dias antes da estréia do meu programa em sua rádio, fez uma entrevista comigo. Terminada a entrevista, onde eu dei a entender que também não curtia muito o trabalho do Pedra, ele me confessou achar "um chute no saco!". Coisas do hipócrita mundo do Rock. Em 2010, durante o programa na Rádio Cultura, o Radar Cultura, de Alceu Maynardi, onde eu participei como convidado e Xando e Luiz Domingos eram as estrelas convidadas, nos encontramos novamente.  Sem rusgas, sem nenhum ranço. A banda Pedra acabou pouco tempo depois.

§36
Á época da participação no Radar Cultura, e desde Setembro de 2009, eu tinha o Rádio Barata, num blog que tem uma rádio. Participava ativamente não apenas produzindo e apresentando meu programa, mas dando idéias e produzindo programas especiais. O blog-rádio é dirigido por um sujeito misterioso, cujo rosto ninguém conhece e usa um pseudônimo. E mais uma vez, a vaidade humana se sobrepõe à ética e o meu não tão misterioso “patrão”, transformou um programa de debates numa guerra suja, usando a posição de dono da “rádio” para influenciar outras pessoas contra mim. Depois de 69 programas, por discordar dessas atitudes e de sua postura ditatorial disfarçada de bom mocismo, me desliguei, comunicando minha decisão durante o programa.
Tinha muito material, muita informação, amigos e gravações especiais e achei que não podia ficar sem uma webradio. Foi nessa época que participei de uma Oficina Cultural sobre o assunto, ministrada por Luciano Junior, com passagem por quase todas as FMs de São Paulo. Tecnicamente não aprendemos nada, mas Luciano fazia questão de mostrar todos os meandros e mazelas dos bastidores do rádio, provocava debates. Ali percebi que as idéias que tinha com relação a rádio estavam corretas. E assim, em 1º de Abril foi "ao ar" a KFK Webradio, a Rádio Que Toca Idéias". O nome, uma homenagem ao escritor tcheco Franz Kafka, foi criado depois de um "brainstorm" de horas com Raul Cichetto.
As idéias eram muitas. Não queria apenas enfileirar musicas e assim foi criando dezenas e dezenas de programas. Convidei várias pessoas e fomos tocando as idéias. Até que percebi uma questão crucial: meu projeto, para ser viável precisava de condições técnicas que eram mais caras do que eu podia e estava disposto a pagar. Exaltei os participantes a colaborar financeiramente. Mas como sempre acontece, a maioria pulou fora, outros se comprometeram mas não cumpriram... Enfim, em poucos meses o projeto estava naufragando. E não apenas por isso, mas pelo excessivo numero de rádios web que torna isso uma coisa totalmente inócua, com as pessoas criando rádios para elas mesmas... Ou por pura vaidade.
Há cerca de um ano que estava casado novamente. Minha esposa procurando ajudar, dando apoio, mas desanimei totalmente, até que no inicio de 2012 decidi abandonar o projeto. Ainda fui procurado por um professor, grande incentivador da cultura, de nome Ayrton Pinto Silva, que juntamente com uma amiga que tinha programa na rádio passaram a colaborar financeiramente. Mas as idéias sobre a rádio não mais me deixavam de pau duro.. E sem pau duro não faço, literalmente absolutamente nada. A KFK foi deixada á míngua, pois não tinha coragem de "sacrificar", cometer uma eutanásia. Mas pouco tinha fôlego para injetar mais do meu sangue nela. Passei a me dedicar àquilo que sempre entendi ser meu "destino", ou ao menos aquilo que acredito ser minha real vocação: a literatura. Reformulei A Barata, criei vários blogs e passei a editar meus livros impressos. E principalmente viabilizar a encenação da minha Opera Rock, Vitória ou a Filha de Adão e Eva.

§37
Desde que assistira Tommy em 1976, que alimentava o desejo de um dia escrever uma Opera Rock. Não sou musico, portanto não poderia escrever a musica. Mas podia, à exemplo dos antigos poetas, compor o libreto, criar a história inteira e indicar como seria a música. No inverno de 2010, minha esposa disse que gostaria de assistir Tommy. Peguei o filme e fomos assistir. Num determinado ponto, ainda no inicio do filme, quando do nascimento de Tommy no primeiro dia da vitória dos aliados na 2ª Guerra Mundial, eu comentei com ela: "Ah, devia ser uma menina e o nome deveria ser Victoria...". Aquilo caiu como uma bomba e no outro dia eu tinha o enredo geral, quem seria Vitória, o nome completo da obra e todas as linhas gerais. Comecei a escrever freneticamente e quando estava terminando os 33 cantos que formam a história, travei um contato com Amyr Cantusio Jr., cujo trabalho eu conhecia desde os anos 1970, por intermédio de uma banda de Rock Progressivo. Amyr é psicoterapeuta, musico, compositor, escritor, filósofo e tem um currículo artístico iniciado com uma formação clássica. Era perfeito. Ele era a pessoa certa, pensei. Contei a ele sobre meu projeto e ele ficou animado. Assim que terminei de criar e escrever, registrei o texto, como sempre faço antes de tornar publico meus trabalhos, na Biblioteca Nacional e lhe remeti o texto. Amyr ficou extremamente impressionado e começou a trabalhar, inclusive arregimentando outros músicos e bandas para participar. E em poucos meses estávamos com o trabalho pronto. Em realidade, "Vitória" foi concebida não para estar dentro de um CD, com algumas músicas, mas ser um musical de teatro ou até mesmo um filme. Tenho todas as imagens e cenas dentro da minha cabeça, mas como a obra além de ser um projeto caro, de um autor que não é parte das "panelas" de teatro e TV, provavelmente jamais será encenada da forma que eu a concebi. Ademais, os temais centrais da Opera criticam inúmeras instituições, particularmente as igrejas e religiões. E dificilmente alguém de renome colocaria sua carreira em jogo para encarar um projeto desse, sabendo-se do atual poder que particularmente as seitas evangélicas exercem no Brasil. Vitória permanece à espera de alguém com coragem suficiente e dinheiro o bastante para fazê-la viver, na plenitude dos palcos de teatro ou telas de cinema, que é seu destino natural. O destino de Vitória é a Glória... Por enquanto, está dormindo empoeirada na minha estante.

§38
Mas essa história dos livros impressos começou da mesma forma que a maioria das coisas que fiz: "Eu preciso fazer isso, não tenho dinheiro pra pagar... Então vou fazer eu mesmo!" Quando, depois de cerca de um mês, terminei de escrever a "Ópera Rock Vitória, ou A Filha de Adão e Eva", comecei a pensar de que forma divulgar aquilo. Não queria simplesmente deixar publicado na Internet, ou mesmo montar um arquivo digital que ficaria, a exemplo de quase todas as publicações desta forma, jogado no canto de algum HD sem nunca ser aberto e lido. Comecei a pesquisar preços e custos de impressoras laser e outros. Eu tinha feito algumas encadernações de livros anteriormente e portanto tinha alguma experiência nisso.  Atrasei aluguel, usei dinheiro emprestado, enfim, arranquei dinheiro de onde teoricamente não existia e comprei o material e equipamento. Comentei com o compositor das músicas, Amyr Cantusio Jr sobre isso. E ele se prontificou então a bancar a gravação do CD. Mas antes mesmo de "Vitória", ele disse que tinha o sonho de publicar um livro, se eu o faria. Concordei, e o livro "Rock, Filosofia & Ocultismo", dele acabou saindo primeiro. Assim nasceu a Editor'A Barata Artesanal. Depois disso, acabei editando muitos outros livros de Amyr, e ainda livros de poesia de Marcelo Diniz, um musico e poeta de Campinas, fora as edições de meus próprios livros, que era o objetivo inicial. O processo de edição é quase que totalmente artesanal, onde por exemplo cada um dos cadernos que irão compor o livro é furado e costurado manualmente, da forma antiga mesmo, agulha e linha com linha de empinar pipa.

§39
Todas as formas de comunicação são importantes e sempre são construtivas, desde que a usemos desta forma. Um jornal, rádio ou TV pode ser uma arma de destruição em massa, quando mal usada. E isso também ocorre com a mídia mais recente de que dispomos, a Internet. E como fui um usuário precoce dessa mídia, começando a utilizá-la quando ainda era restrita a ambientes acadêmicos, em 1994,  começado a trabalhar, criando sites ainda em 1997, acredito que tenha bagagem suficiente para ser critico e entusiasta dela, no momento correto e necessário. A aproximação de pessoas, a comunicação rápida, acredito que tenha sido a maior conquista da Internet. E em 2009, quando eu morava com meus pais, mantinha correspondência freqüente com meus filhos por intermédio de redes sociais e e-mail. Idéias, textos, musicas, experiências, fotos, etc. Numa dessas correspondências quase que diárias, recebi um texto bem curto de Raul Cichetto. O titulo: “Expressionismo Fantástico”, um mini-conto que tinha por pano de fundo o universo literário e pessoal de Franz Kakfka, tcheco-alemão, autor de, entre outras obras, “A Metamorfose”. Achei o texto interessante de decidi criar uma espécie de resposta que batizei de “Impressionismo Fantástico”. Daquilo acabou nascendo um projeto literário conjunto, com 17 micro-contos de cada um versando sobre o universo “kafkiano”. Demos o nome de “Universo Expandido” o qual completei com um subtítulo imenso (adoro essas coisas extensas, influencia de alguns autores ibero-americanos, acredito) “Ou Impressões e Expressões Baratas Sobre o Processo de Metamorfose de Kafka”. Ainda como complemento, a participação de outro de meus filhos, Ian Cichetto, que fez ilustrações e a capa do livro, que também editei pela Editor’A Barata.

§40
Como deu para perceber, os últimos três anos foram de intensa criatividade, de uma "produção" artística que eu nunca experimentara, seja em tamanho ou em qualidade. E um par de fatores foram preponderantes nisso. O primeiro foi uma espécie de juramento que eu fiz quando do fim do meu terceiro casamento, que por ninguém eu jamais abriria mão os meus sonhos e objetivos. Sentia-me sozinho mas totalmente livre, o tempo era meu inimigo, e eu, por quase vinte anos deixara de lado meus sonhos, e eles agora me cobravam pelo atraso.  Eu tinha mais de cinquenta anos e era preciso "tirar o atraso". Mas o que eu não sabia era que, ao contrario do que eu pensava, ser a solidão o fator e o preço da liberdade e da criação, tal juramento abriu meus olhos para o mundo de uma forma que eu nunca enxergara. E assim, com todas as portas da percepção abertas que entrou em minha existência a minha atual companheira, Izabel Cristina, que soube compreender e apoiar meu trabalho. Então, o trinômio Sexo, Poesia e Rock’n’Roll pode agora compartilhar o mesmo espaço, o mesmo reduto, sem que eu tenha que abrir mão de nada em detrimento de sentimentos pequenos e egoístas. Sensual, carinhosa, amiga e principalmente sempre disposta a esperar que do sonho nasça o feijão, a Bell sonha comigo e nunca amaldiçoa meus sonhos, mesmo que deles não nasçam feijões.

§41
E por falar em Poesia, propositalmente deixei de escanteio uma atividade minha, que é aquela a quem dedico a maior parte da minha atenção, que é a Poesia. Instigado pelas letras do Rock e desejando ser um letrista foi que comecei a cometer meus poemas. Não conto aquele período infanto-juvenil em que todos são poetas, ou ao menos se acham, escrevendo quadrinhas a amadas platônicas, falando sobre o quão suas mães não os entendem, essas coisas. Estou falando de Poesia como uma forma de expressão dotada além de sentimentos, mas também de conteúdo e estrutura literária.  E dessa forma, comecei a escrever meus primeiros poemas por volta de 1974, justamente falando de minha primeira experiência sexual. Nesse primeiro texto, já usava de rimas e pseudo-métricas, que sempre acompanharam meu trabalho poético. As putas sempre foram meu tema principal, seguido de Morte e Religião. A mim parecia ser o caminho para letras de Rock, mirando exemplos como Lou Reed e Jethro Tull. Mas eu não sabia que no Brasil, as letras de musicas, principalmente dentro do Rock andara (e ainda anda) em estágio pré-adolescente, ou seja, letras estúpidas sobre temas recorrentes e tolos. Os compositores de Rock do inicio usavam desses temas, como sexo vulgar, bebidas e carros ou motos. Mas eles evoluíram. Enquanto no Brasil...
Mas continuei a cometer meus poemas, datilografando-os cuidadosamente e guardando numa bolsa de couro. Nunca tinha lido poetas como Augusto dos Anjos, Baudelaire, Rimbaud e Bukowski. Minha leitura de grandes poetas era restrita àqueles enfiados goela abaixo por professoras de Português. Bilac, Castro Alves, Machado e outros. E da forma e circunstância que foram lidos, foram odiados e descartados. Educação na porrada deseduca. Apenas no final da década de 70 foi que tomei contato com a obra de Augusto dos Anjos, Baudelaire e Rimbaud, nessa sequencia. Tomei um susto imenso ao perceber a semelhança na forma e conteúdo dos meus textos com a obra desses expoentes da Poesia. Portanto, não foi um caso de começar a ser poeta por influência deles, mas sim, uma identificação posterior que me fez perceber que meu caminho era a Poesia, embora ainda não soubesse que ela, naquele momento, já estivesse morta. O Século XX com sua modernidade, sua industrialização e posterior robotização dos seres humanos a matara.
Em 1978 descobri pessoas que editavam seus próprios veículos de comunicação usando uma arma poderosa na época, mas que eu conhecia apenas como meio de impressão das temíveis provas de escola, o Senhor Mimeógrafo á Álcool. Comecei a participar de alguns deles, publicando textos no “Cogumelo Atômico” e posteriormente no “Semente” e depois decidi criar o meu, o “A Pipoca”. E incentivado por meus amigos editores desses “jornaizinhos”, decidi publicar meu primeiro livro de Poesia. Tinha lido algo sobre Arquíloco de Paros e decidi que “Arquíloco” seria o nome. Na página de citações, Karl Kraus e uma frase de um livro sobre satanismo. Dentro 50 poemas datilografados diretamente sobre o “stencil”, falando sobre meus assuntos prediletos. O primeiro poema era uma ode a Ângela, aquela garota por quem eu fora apaixonado anos antes. Era o principio de 1981 e John Lennon tinha morrido poucos meses antes. A edição propriamente dita, foi feita em uma madrugada inteira, na casa de Luís e Claudia, na Alameda Franca. Um tio meu era dono de uma gráfica e tive a sofisticação de pedir que ele grampeasse os volumes em grampeador industrial. “Aquíloco” saiu ostentando na capa “Carlos Cichetto”, nome literário com o qual eu queria ser conhecido.
Foram feitos 50 exemplares que foram distribuídos por Correio e de mão-em-. Poucos dias depois de lançado o livrinho, um amigo me disse que eu devia mandar aquele livro ao Henrique Novak, jornalista que tinha uma coluna semanal num dos maiores jornais diários de São Paulo na época, o Diário Popular. Comprei um jornal numa terça-feira, dia que saia coluna “Página do Livro”. Ali estavam resenhas de livros de grandes autores, de clássicos da literatura. Nenhum sobre algum autor “novato”. “Ah, acha que o cara vai falar sobre meu livro? Ele só publica os grandes...”. Mas mesmo assim, peguei o endereço da redação, escrevi uma carta á mão, juntei um exemplar de “Arquíloco” e coloquei no correio. Na terça feira seguinte fui a uma banca de jornais e comprei o diário, nem tanto por acreditar que sairia algo sobre meu livro, mas até para ler a coluna do Novak que eu gostara bastante. E para minha surpresa, lá estava: a coluna quase inteira falando sobre minha Poesia, tecendo elogios e recomendando a todos os “amantes da boa poesia”. Infelizmente, os recortes desse jornal foram jogados fora, juntamente com todos os poemas que enchiam uma bolsa de couro, num acesso de fúria ocasionado por ciúmes de uma esposa que não entendia o fato de que um poeta é parecido com um assassino em série: guarda pedaços de mulheres esquartejadas dentro de um armário e a eles busca quando tem fome.
Ainda tentei, depois de muitos anos, os arquivos do jornal, tentando obter uma cópia, sempre sem sucesso. Há alguns anos, o jornal foi vendido para as Organizações Globo e seus arquivos antigos que foram extintos. Quanto às copias de “Arquiloco”, a maior parte acredito não mais existir. Aqueles antigos amigos, poetas que queriam mudar o mundo com sua Arte ficaram velhos, engordaram, alguns enriqueceram e outros morreram. Os livros devem ter sido jogados no lixo. Sei da existência de um que por alguma “alma caridosa” foi parar numa biblioteca em Santa Catarina. Encontrei pela Internet. Na página, pouquíssimas informações sobre o mesmo, nenhuma sobre “Carlos Cichetto”. Tentei contato há alguns anos, mas nunca obtive resposta. Um ultimo exemplar, que foi entregue a meus pais sobreviveu, quase que totalmente ilegível e agora está nas mãos de meu filho Ian, numa tentativa de restauração dos textos originais.
Entre 1982 e 1997, quase nenhum linha poética, ou apenas alguns poucos rabiscos escritos em função do nascimento dos filhos, ou alguma ode sincera à companheira. Todos foram perdidos, do mesmo jeito que, mesmo depois, quando minha “produção” poética começou a crescer espantosamente. Poemas escritos à musas de momento, companheiras perdidas, amores desfeitos...Foram jogados no lixo, abandonados em casas cujos endereços eu não queria mais lembrar, ou mesmo apagados por mim mesmo, numa tentativa de, junto com eles, me desfazer dos pedaços de corpos guardados dentro do armário da minha consciência.
Entre 2000 e atualmente, cometi cerca de uns 1.000 crimes sob a forma de Poesia. A metade desapareceu. Talvez apareça depois da minha morte, caso meu nome passe a ter algum valor monetário. Mas mesmo assim, tenho escrito e publicado, basicamente na Internet, mais de 500 deles. Depois que comecei a Editor’A Barata Artesanal tenho realizado o sonho de publicar algumas coisas em papel... Mais para cumprir um ritual de ter um livro tradicional impresso em papel, do que com a esperança de alguém compre. Atualmente, ninguém compra livros, muito menos de Poesia. Recentemente, algumas parcerias com músicos, além de “Sangue de Barata”, com Raul Cichetto, Renato Brito e principalmente com Ciro Carvalho com quem no momento em que concluo estes textos, tenho quase cinqüenta musicas compostas, têm transformado em realidade o desejo inicial de ter minha Poesia transformada em letra de música.

§42
Mas, então, eu cheguei até aqui. Quarenta e dois anos da minha história de Sexo, Poesia e Rock’n’Roll, e uns abacaxis devidamente descascados e enfiados em alguns rabos. E então, pergunto: de que forma posso terminar esse texto??? Embora isso não sejam bem as minhas "memórias", nem a minha "biografia", é quase isso. Então pergunto novamente: de que forma acabo? Meu amigo João Kraciunas citado neste texto, sempre disse que eu era "panfletário", algumas pessoas me acusam de ser "descontente com o mundo", outras dizem apenas e simplesmente: "que cara chato!" Então, termino dessas três formas juntas...
A sociedade humana caminha ao fim. Ao menos forma de sociedade humana que conhecemos. Todos os sistemas políticos faliram, todas as religiões mostraram suas garras e que não passam de engodos. A arte verdadeira morreu quando se transformou em item de prateleira. Ainda bem que Andy Warhol morreu há muito tempo. A música, sob a forma que mais me interessa, a forma de Rock, também morreu pela inanição e pela vaidade dos músicos. O jornalismo é apenas uma mentira, a poesia deixou a muito tempo de interessar às pessoas. Todos hoje são poetas, músicos, pintores, artistas. A Internet, embora uma grande "descoberta", acabou dando um tiro de misericórdia na arte, nivelando-a por baixo. A falta de qualidade impera.  A cobiça e a vaidade destruíram todos os sistemas humanos de convivência, sendo estes também os podres sentimentos que aniquilaram qualquer resquício de uma coisa que era chamada de "Amor". As crianças, eu sei, não terão um futuro, mesmo que para elas o tempo avance. Cada vez mais dependente dos grandes sistemas financeiros que dominam o planeta, o ser humano estrebucha. Não bebemos um copo de água sem depender de enormes esquemas de produção, esquemas financeiros construídos com o único objetivo do lucro, que escraviza a todos. Somos escravos e achamos que somos livres, num sistema que venera uma democracia falida, prostituida, que fede viva. Então, o que resta a aqueles que sofrem porque pensam, cujas tristezas não acabam pela manhã ou depois de um remédio, que também é parte do esquema nojento de dominação. O que nos resta é deixar nossas memórias, escrever com sangue ou com merda como fez o Marquês de Sade, deixar nossos escritos para que, quem sabe sejam guardados numa cápsula hermética. Ademais, termino da forma que sempre gosto de terminar as coisas: "Fui"... Fui... Indo. Fui... Sendo...


Apêndice
Ansiedade é uma das minhas maiores qualidades e um dos meus piores defeitos. E quanto mais a idade avança, mais ela aumenta. Há um tempo atrás, em resposta a uma critica sobre isso "...E o que mais o velho que vive correndo da vida...", respondi: eu não corro da vida, é ela quem corre de mim. Não há fatalismo nem choramingo nisso, é fato. Fiquei muito tempo sem realizar as coisas que mais me davam prazer na vida, que são o alvo desse livro, que agora, como popularmente se diz: quero "tirar o atraso". E falam que eu pareço um condenado a morte, querendo resolver tudo rápido, tudo "ontem". Mas sim, queridos, sou sim. Aliás, desculpem a sinceridade, mas todos somos assim, embora alguns disfarcem com uma dose de resignação. Qualquer um de nós pode viver menos que um paciente cujos médicos desenganaram, ou que um condenado no corredor da morte. Então, tenho pressa sim. E isso tem levado muita gente à loucura, incluídos aí minha mulher. Por conta disso, talvez, meu revisor, que atende pela função de filho, desistiu de fazer a revisão deste livro, fazendo com que saísse da forma como veio ao mundo: imperfeito, cru, cheio de erros. E talvez tenha sido melhor assim, afinal é o relato de parte significativa de uma vida assim, crua, cheia de erros, imperfeita...
O texto do livro foi escrito em uma semana, mas depois, ao longo dos dias seguintes, coisa de mais uns três ou quatro dias, fui lembrando de fatos importantes que deveriam ser colocados. Por isso decidi deixar o livro como estava, com seus textos dados como finalizados, e anotando aqui, nesse "Apêndice", outras lembranças, notas e observações que achei importante registrar.

Cinemas de Rua
No centro da Penha, onde morei a maior parte de minha infância, a adolescência inteira e parte da vida adulta, chegaram a existir 4 cinemas num quadrilátero de menos de um quilômetro. O Penha Príncipe, Penha Palace, que depois mudou de nome para Penharama, o Júpiter e o São Geraldo.  No lugar dos três primeiros estão lojas e o São Geraldo virou um estacionamento e um cartório, onde a bilheteria é o caixa e as outras instalações estão praticamente intocadas. O Penharama era enorme e tinha uma "qualidade", que era deixar a molecada entrar em filmes proibidos para menores. Mesmo nos outros bairros mais distantes existiam cinemas, como o Saturno na Vila Granada. A Avenida Celso Garcia, que hoje é recordista na presença de igrejas evangélicas, com mais de 20 em menos de dois quilômetros, talvez tenha esse recorde também, nos anos 1970 e 80, com relação ao numero de cinemas.
Mas era a região central que concentrava a maior densidade de cinemas de rua. Art Palacio, Ipiranga, Marabá, que foi recentemente restaurado e o único a ainda resistir, Regina, Metro que tinha duas salas e onde aconteciam as Sessões Malditas de sexta à noite e hoje é a sede de uma igreja neo-petencostal, Comodoro Cinemarama, cinema enorme, com tela gigante e som  realista, que parecia nos colocar dentro do filme; Cinespacial que era redondo e tinha três telas no alto, Dom José que ainda existe, mas como cinema pornô, Coral, República, Marrocos, Barão, Olido, Paissandu, Metrópole, o belíssimo Ouro com uma decoração imitando uma rua de Ouro Preto, Belas Artes Centro, Arouche especializado em cinema político, e maravilhoso Cine Bijou, na Praça Roosevelt que exibia filmes de arte.
A maior parte desses cinemas eram enormes, para 1.000, 2.000 lugares. As sessões eram duplas, e além dos dois filmes ainda exibiam curtas metragens e reportagens sobre futebol, política e vida social, o famigerado "Canal 100", de Primo Carbonari, nos intervalos. E sem contar a existência do chamado "Lanterninha", que de uniforme e portando uma lanterna, guiava os que chegavam no meio das sessões até os melhores lugares, iluminando o caminho e o assento, além de zelar pela disciplina. As salas não tinham ar condicionado, quando muito um ventilador barulhento e as poltronas em muitos casos eram de madeira pura. A projeção então era bem precária, fazendo com que muita gente não gostasse de assistir filme nacional por não entender o que era dito. O problema não eram as produções, mas a péssima qualidade dos projetores, em muitos casos.
Milhares e milhares de horas de minha existência, dos 10, 12 anos e até os 30 e poucos, passei dentro desses cinemas. Cheguei a assistir seis filmes num único dia em três cinemas diferentes. E desde a primeira vez que entrei em um cinema, com cerca de 6 anos de idade com meu pai para assistir "Paixão de Cristo", passando pela primeira vez que fui sozinho, com cerca de 10 anos assistir "300 de Esparta", passando por momentos de extremo prazer cinéfilo, como as sessões no Bijou e nos Arouche, a magia dos cinemas de Rua, particularmente do Centro de São Paulo, é algo que apenas quem saiu em muitos momentos com coceira por causa de pulgas ou com chicletes grudados nas calças deixados nas poltronas por moleques, mas com todos os sentidos deliciados com a sétima arte, sabem entender.

Ateísmo
Filho de uma família católica praticante, aos menos nos domingos, fui batizado, crismado e fiz a primeira comunhão, acompanha da temível confissão ao Padre. Meu grande pecado naquela época era ter brigado com meu irmão. Mas como toda família católica brasileira, meus pais começaram a frequentar umbanda e me obrigavam a acompanhá-los. Na adolescência fui Hare Krishna por um dia. Durante meu primeiro casamento com uma Neo Pentecostal, frequentei inúmeras seitas "crentes", mas acabei casando numa cerimônia católica, embora tenha nessa época frequentado também a Seicho no Iê. Minha segunda companheira tinha família ligada ferozmente à Congregação Cristã no Brasil, religião ultra conservadora que tem inúmeros ritos parecidos à cerimônias militares e extremamente machistas. A terceira de minhas esposas era mística, ligada à cartomancia, quiromancia, tarot, essas coisas. Sempre respeitei a todas e sempre procurei acompanhar. Mais que isso, buscava sim uma resposta "divina". Tanto que, por pressão religiosa, acabei um dia queimando todos os livros de Ocultismo que tinha guardados desde a adolescência. Um heresia suprema, eu concordo, e algo do qual eu me arrependeria amargamente. Nos culto, percebia pessoas em transe, alguma claramente honestas e perguntava a mim mesmo se um dia eu sentiria tal coisa. Queria muito ser "tocado" por aquele "Espírito". Mas nunca senti absolutamente nada.  E foi essa série de acontecimentos que colocaram em mim um sentimento que em primeiro momento me afastou de todas as religiões. E também depois de muita leitura e reflexão, cheguei a inevitável conclusão de que não existe nenhum deus, nem ser maior, nada disso. E o que é pior, cheguei a conclusão de que todas essas deidades foram criadas com o único intuito de cerceamento de pensamento e consequentemente de liberdade. E, é claro, em função do lucro financeiro. E me sinto atualmente extremamente confortável em meu ateísmo. E sinto-me muito bem em não ter amarras dentro de minha cabeça. Sou um pensador livre e muito mais honesto comigo mesmo. E esse ateísmo inclui ainda não ter diante de mim não apenas deuses, mas também seres humanos, entendendo-se ai gurus e "mestres", psicólogos, ídolos das artes e outros entes que têm a pretensão a guiar a outros. E garanto, é uma experiência totalmente libertadora e honesta.

Apelidos
Apelidos são uma espécie de caricaturas que as pessoas fazem da gente. E como tal, se não forem maldosas e carregadas e ofensas ou preconceitos, são até interessantes. É notório o fato de grandes personalidades históricas terem apelidos, até alguns bem íntimos, embora algumas tenha ficado conhecidas por eles, em lugar de nomes de batismo. Madonna e Prince, por exemplo. Contei nestas páginas sobre a origem do "Barata", que surgiu e função de um trabalho meu, o que é um motivo de muito orgulho. Mas durante a vida tive muitos outros, como acredito que a maioria das pessoas. Na infância, “Cão”, porque meu irmão, mais novo não conseguia pronunciar meu nome. Esse acabou se transformando em "Zi", um tanto boilola, mas que ficou, digamos, como um apelido - muito intimo mesmo, de família, até a idade adulta. "Gonzo" e "Garibaldo", em função de minha "semelhança" com certos personagens de desenhos animados. Confesso que sempre gostei bastante de "Gonzo", que significa "esquisito", em inglês, inclusive oscilando entre ele e "Barata" quando da criação do website. Um deles fui eu mesmo que criei "Ted Bacalhau", que seria uma espécie de nome artístico de uma das bandas fictícias que criei; "A Banda Sensacional do Ted Bacalhau". Outros menos cotados e que duraram muito pouco: "Luca", "Lucas Borba", "Tucano". Um pouco comum, porque foi colocado e apenas usado por poucas pessoas, como "Luigi" como o amigo Ricardo Alpendre, da Jardim Elétrico, e cantor da banda Tomada, me chamava. Ou alguns que foram exclusividades de ex esposas, como "Lui", "Tatu", por associações lógicas com buracos de todos os tipos e matizes. Mas nesse item, de ex, o que mais me deixou cabreiro foi o que uma delas colocou "Besouro". Eu nunca entendi se ela pejorativo ou não. Se ela falava sobre meu gosto pelo seu orifício anal ou se era porque eu sempre estava na merda. Em se tratando de quem era, estou quase certo de que era a segunda opção.

Sexo: Brochadas e Necessidades Fisiológicas
Falei um bocado sobre sexo, mas muitos dos leitores podem estar pensando: "Ah, ele conta as coisas boas, só as que "deram certo"... Então vou contar sobre brochadas. A primeira é sempre muito preocupante, principalmente quando ocorre aos 20 e poucos anos de idades. Mas hão de concordar que os motivos foram nobres. Estava saindo de férias do trabalho, passei na Bruno Blois e comprei um monte de discos, incluindo ai o Physical Graffitte do Led. Depois encontrei com amigos e começamos a beber e jogar bilhar. Num momento um deles sugeriu que fossemos catar umas putas na Rio Branco. Catei a primeira, que a caminho do Hotel, passou num carrinho de frutas e comprou uma maçã. No quarto, apenas deitou na cama, ergueu a saia e começou a comer a fruta. E ainda, quando eu tasquei a mão nas pernas, tinha pelos mais grossos e fortes que nas minhas. Ah, sem jeito do pau subir. Ergui as calças e atarantado sai do quarto correndo. Ao olhar pra trás, ela dormia... O pior é que na pressa, acabei esquecendo minhas compras de preciosos LPs. Claro que aconteceram outras, principalmente quando meus relacionamentos chegavam ao fim. Ai não conseguia mesmo conjurar uma ode a Onã... A realidade é que, apesar de julgar o sexo uma das, senão a mais, coisas importantes, nunca consegui tratá-lo de uma forma banal. Pode parecer bobagem, mas muita gente transa, faz sexo, sem sequer desejo. Por ficar bem socialmente e outros motivos menos nobres até. Uma de minhas ex, por exemplo, afirmava gostar muito de sexo, que segundo ela era uma "Necessidade Fisiológica"... "Hein?? Como cagar e mijar?", "Isso!". E podem ter certeza, muita gente age assim com relação a sexo. Agora, tal pensamento é absurdo por qualquer forma que o analisemos, pois ou a pessoa é realmente uma aberração ao sentir prazer sexual quando caga ou mija, ou tem não tem prazer nenhum no sexo, e o tem realmente apenas com o intuito de "defecar" sua libido.. Sei lá!

Direito de Herança
Acho o Direito de Herança uma das coisas mais sórdidas e injustas que o sistema capitalista criou. Filhos, esposas e etc, recebendo dinheiro por algo no qual nem sempre (aliás na maioria das vezes) participou. Esse tal direito tornou milionários muitos preguiçosos. Seres que, enquanto o pai ou marido se arrebentava de trabalhar tinham vidas totalmente dedicadas à vagabundagem. E depois da morte do sujeito, passaram a mão em quantias vultuosas em bens e dinheiro. E quando tratamos de arte, então, a coisa piora em quinhentos por cento. A maioria dos artistas, principalmente escritores e poetas, foram humilhados e rechaçados em suas próprias famílias. Foram tachados de preguiçosos, folgados e vagabundos. Mas aí, quando mortos, essa mesma família recebe por frutos que, se dependesse inteiramente dela, nunca teriam amadurecido. São casos clássicos de direitos de herança na literatura, particularmente. Franz Kafka por exemplo, nunca ganhou porra nenhuma com seus escritos e mandou, à beira da morte, que seu melhor amigo queimasse seus livros. Max Brod, o tal amigo, não cumpriu o chamado ultimo desejo de um moribundo, e o mundo então conheceu a obra magnífica de Kafka. Mas, não sei se ele ou quem mais ganhou, mas o fato é que muita gente lucrou e lucra com aquelas obras. Raul Seixas morreu sozinho, implorando pelo retorno de uma companheira que atualmente ganha um monte de dinheiro em cima do nome daquele a quem ela desprezou. E como essas, um monte de outras referências a isso. E mesmo comigo. Meus pais sempre me rotularam de esquisito e preguiçoso... “Esse aí, ah, ele é poeta..” Num tom descaso e como querendo dizer: “Ah, esse aí,  Ah, esse é um bandido!”. Minha primeira mulher me “obrigou” a jogar fora uma mala cheia de poesias e, depois de 15 anos, quando retornei a escrever, passou a afirmar que odiava o personagem principal de “O Feijão e o Sonho”, tachando a ele, e por tabela a mim, de “irresponsável”. Um detalhe: trabalho desde os 12 anos, quando comecei a ajudar meu avô empurrando um carrinho de vasos pesado pelas ruas. E nunca, com exceção de algumas épocas em que fiquei desempregado por poucos meses, deixei de trabalhar e manter família. Mas é certo que, acaso minha poesia, minha literatura rendesse um bom dinheiro, as coisas seriam diferentes. Filhos? Ah, filhos querem pais bem sucedidos, gordos, carecas e ricos para que possam confrontar, confortar e no fim... Serem idênticos... Enfim, é justo que após a morte, essas pessoas obtenham lucro com algo do qual, além de não terem participação alguma, sempre execraram? Sou da seguinte opinião: o “lucro” de um trabalho artístico deve ser dado apenas e tão somente ao artista enquanto pagamento por seu trabalho. Morto o artista, o lucro advindo da venda de seu trabalho deveria ser administrado por um fundo destinado ao financiamento de outras obras artísticas, assim mantendo-se, alimentando-se a arte da própria arte.. Isso é um assunto complexo e extenso, reconheço, mas de minha parte, é meu desejo que, acaso um dia, minhas obras tenham algum rendimento pecuniário, que seja ele destinado ao financiamento de outras. Nada mais! Se meus filhos desejam obter algum rendimento sobre arte, que façam suas próprias, usando a herança maior que poderia lhes dar: a genética e o incentivo às artes, à leitura e ao pensamento livre.

“Minha Vida Daria Um Livro”
Uma das coisas que mais preocuparam ao publicar este livro foi: “Alguém teria interesse em ler?” Acredito que, em menor ou maior escala, é uma preocupação natural num texto autobiográfico. Mas a questão era: quem? Quem teria interesse... Todo mundo já escutou a mãe (essas adoram falar isso) falando: “Minha vida daria um livro”. E, aliás, elas, tanto quanto todas as pessoas que falam isso, estão certas, porque afinal todas as histórias de vida  sempre dão um livro. Desde um sujeito bem sucedido financeiramente, contando como ganhou seu primeiro milhão, como um mendigo que conte como sobreviveu nas calçadas. Enfim todos, sem exceção poderiam ter suas vidas contadas de forma literária. Afinal, minha dúvida não tinha razão de existir, porque a vida alheia sempre interessa a todos. O ser humano é curioso por natureza e conhecer vidas dos outros é um prato cheio. Estão aí os “reality shows” que não me deixam mentir. As histórias das vidas de outras pessoas nos ensejam a comparação, a projeção de sonhos e mais que tudo isso, a possibilidade de espiar pelo buraco da fechadura alheia.

Nota Final:
Todos os fatos aqui narrados são verdadeiros, mas os nomes em muitos casos foram omitidos ou trocados com o intuito de proteger essas pessoas. Ou porque elas não eram suficientemente importantes para serem nomeadas.

Criador de Baratas

Um fato interessante com relação ao website A Barata, foi quando uma mulher, representando o SESC me ligou convidando para uma exposição que lá aconteceria. Ela falava, falava, e eu não entendia nada, achando que o interesse seria por meu projeto cultural. Até que ela disse que precisava saber do espaço que eu precisaria. "Espaço?", " Sim, para mostrar suas criações...",  "Criações? Senhora, minhas criações são poesias, contos, crônicas... E estão todas no site" , "Mas, o senhor não é criador de Baratas?". Em resumo, ela achou o nome "A Barata", e caiu na pagina onde eu me definia como "Criador d'A Barata" e achou que eu criava os insetos. Quer dizer não viu nada, não entendeu nada. E a tal exposição era mesmo de pessoas que criam animais estranhos.


Mediunidade
O processo de criação literária é algo muito interessante. Acredito que todos que escrevem com paixão, especialmente poesia, já se depararam com o fato de algum tempo depois ler suas próprias criações, não lembrar de as ter escrito. Estar certo que escreveu, mas não lembrar como, de que forma ou quando o fez. Plínio Marcos dizia que todo escritor é um tanto médio. E como Plínio era um esotérico, acredito que se referia mesmo a mediunidade espírita. Eu concordo em parte, mas acredito que a coisa funciona um pouco diferente. Um texto, um poema, uma obra qualquer de um artista é um pedaço de sua alma. Não essa alma apregoada nos escritos religiosos, mas a alma que todo artista coloca em sua criação. Quando lemos um livro de um determinado escritor, por exemplo, pegamos ali um pedaço da alma dele.  O mesmo acontece quando falamos, escutamos - pessoalmente ou não -, fazemos sexo ou tocamos outras pessoas: carregamos conosco um pedaço das almas delas.  Algumas tribos indígenas acreditam que a fotografia aprisiona a alma do fotografado. Até certo ponto estão certos. Mas um livro de um escritor tem decerto um grande pedaço de sua alma aprisionada. E quando lemos seu livro, libertamo-la e ficamos com parte dela integrando a nossa. Depois quando alguma pequena lamparina de inspiração acende e começamos a escrever, todos esses pedaços de almas "baixam" em nós e com eles todos juntos, construímos nossa própria obra.  Nossa própria alma.




Veio Chico e Dona Isaura

Meu avô materno era um homem rude, criado no interior de São Paulo e que, segundo contam passou a sustentar a mãe e os irmãos aos oito anos de idade, após a perda do pai. Analfabeto até cerca de quarenta anos de idade quando, por paciência de uma sobrinha, e claro, perseverança dele, aprendeu as primeiras letras. Mas era um homem determinado e de uma inteligência e determinação impares. Acostumado às lides da roça, ao chegar a São Paulo trabalhou em tecelagem e posteriormente em uma fábrica de vasos de plantas por alguns meses. E esse pouco tempo foi o suficiente para apreender aquele ofício, que passou a dignamente ser o seu. Durante anos sustentou família e adquiriu uma casa. Seu trabalho era um misto de engenharia e arte, e a partir do barro branco da beira de rios, ele construía uma contra-forma. Durante semanas a fio, utilizando instrumentos rudimentares, como facas quebradas e pedaços de bambu afiados, ele esculpia o barro até que este tomasse a forma da peça. Eram muitos detalhes, todos levando em conta o ângulo de extração da futura forma. Medidas precisas e detalhes de engenharia que só pude entender quando fui trabalhar como projetista de concreto.  Pronta a tal contra-forma ele cobria tudo com óleo queimado e passava a construir a forma propriamente dita, com cimento e areia. E depois de meses, estava pronto para produzir outra de suas obras-primas. Vasos de plantas que eram feitos no fundo do quintal de casa, de cimento, com acabamento impecável. A prova da qualidade desse trabalho é que mais de trinta anos depois da morte dele, ainda eram encontrados, ornando entradas de casas, os seus vasos.

Mas meu avô Francisco, conhecido por Veio Chico era um homem cheio de manias, tendo sempre predileção por netos que eram parecidos com ele, loiros e de olhos claros. E eu não era propriamente assim, e durante muitos anos o odiei, mesmo depois de sua morte. Até encontrar em seu trabalho e na forma como ele morrera, motivos de admiração. Na noite do dia dos Pais, possivelmente entusiasmado com a festa e a presença dos filhos, o Veio Chico resolveu fazer sexo com minha avó. E o coração não agüentou. Meus pais o encontraram com a cueca nos pés, todo melado... Minha avó ficou traumatizada durante muitos anos, se sentindo culpada. Até que um dia lhe perguntei: “Mas, vó, ele gozou antes de morrer?”, “Sim.”, “Ah, então, vó, ele morreu feliz.” Ele tinha apenas 68 anos de idade e corria o ano de 1972. Um mês depois eu começara a trabalhar propriamente, pois embora eu tenha ajudado o Veio Chico na venda de seus vasos de porta em porta, não era propriamente um emprego.

Depois que meu avô morreu, Dona Isaura, minha avó, foi morar com uns filhos e alguns anos depois, construiu uma casinha, onde eu fiquei lhe fazendo companhia durante cerca de dois anos e pouco, até meu primeiro casamento. Apesar da idade e da falta de cultura, ela era uma pessoa com mentalidade extremamente aberta e passávamos noites e noites sentados na cama conversando. Eu adorava ouvir suas histórias do Interior e ela, por sua vez, queria saber detalhes, íntimos até, das minhas façanhas de adolescente. E ria muito com elas. Uma pessoa que, quando morreu, deixou um buraco enorme na minha existência.


Notas do Autor
A revista Rock, A História e a Glória, imprensa em preto e branco, era editada por Armando Mendes de Amorim, da Armando Amorim Publicidade.
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Em meados de 2002, por volta da metade do ano, não lembro de que forma, conheci uma grande amiga, Reviane Rodrigues, conhecida por Rê Joplin. Ela tinha uma loja na Galeria Ouro Fino, na Rua Augusta. Na verdade era um verdadeiro templo tributo à Janis Joplin e numa das primeiras oportunidades em que fui até o local, encontrei o locutor Zappa, que tinha acabado de sair da Kiss FM. A “Kozmic Blues”, passaria então a ser um dos pontos lugares onde passaria a ser encontrado nos próximos anos e a Rê a ser uma de minhas mais diletas amigas, a ponto de muita gente pensar que tínhamos um caso amoroso. Infelizmente, nossa amizade foi abalada por ciúmes e intriga causada por minha terceira esposa.
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No final de 2008, fui procurado pelo guitarrista Cesar Achon que tocara com o Made In Brazil e também na banda Tarkus, que tinha inúmeras musicas, instrumentais na maioria, com a idéia de lançar um álbum virtual em conjunto. Nasceu então o “Ponto de Fuga”, com musicas dele e contendo faixas bônus onde eu utilizava algumas delas como trilhas “sonhoras” para narrações de minhas próprias poesias.. As gravações das poesias ficaram um tanto precárias, mas o trabalho foi muito apreciado e baixado pela Internet.
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Sobre o amigo Ricardo Alpendre, eu o conheci por intermédio primeiramente do Luiz Domingues, ao visitar a loja Jardim Elétrico na Rua Augusta. Posteriormente Ricardo e seu irmão Sérgio, seu sócio na loja, a transferiram para a Galeria do Rock. Nesta época, ele me contratou para fazer o website de sua loja e acabamos por tornamo-nos amigos.  Em 2006 a Jardim foi transferida para a Galeria Nova Barão e ali eu passei muitas tardes falando sobre musica com muita gente efetivamente do ramo, como André Christovam e outros. Ricardo é um ser humano fantástico e dono de uma cultura e senso de humor invejáveis. Aliás, nesses dias ele criou o “Café Comunitário”, sempre que eu o instigava a pagar um café: “Então tá, Luigi. Eu pago o seu e você paga o meu.” Posteriormente, eu o convidei para fazer o papel do narrador e outros personagens em “Vitória”, e a ser a voz padrão da Webradio que eu criara, a KFK e ele me contratou a fazer seu website pessoal, com seu trabalho como locutor profissional.
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Em 2009 fiz algumas amizades importantes, como a Mara Lee, de Santos, que sempre aparecia no “chat” da Radio onde eu apresentava o Radio Barata.  Mara é uma mulher ligada no Rock e andou também quebrando a cara com algumas personas do Rock Brasil, mas como toda boa Roqueira de atitude, sempre insiste, persiste e sonha. Em pouco tempo, desenvolvemos uma amizade daquelas que parece que é de infância.
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